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Vídeo mostra pacientes, sob calor de 40 graus, sem ar-condicionado em hospital

Em duas semanas, pelo menos dois pacientes morreram maior hospital públicio do Rio de Janeiro, vítimas de infecções contraídas no local

Na tarde do último dia 19, os termômetros das ruas do Rio de Janeiro registravam temperaturas beirando os 40 graus. Dentro do maior hospital público do estado, a sensação térmica era ainda mais infernal. Pacientes jogados sobre leitos, em quartos sem ar-condicionado, estavam prostrados com o calor. Um deles, vítima de queimaduras graves, tinha apenas um ventilador, trazido pela família. A cena se passou no terceiro andar do Hospital Municipal Souza Aguiar, no centro da cidade, onde ficam várias enfermarias do hospital. A situação é retratada em dois vídeos obtidos por VEJA, filmados por parentes de pessoas internadas.

De acordo com relatos feitos ao site de VEJA, na primeira quinzena do mês em que os vídeos foram registrados, pelo menos dois pacientes morreram, vítimas de infecções contraídas no hospital. A secretaria de saúde nega. Segundo os autores dos vídeos, que pediram para não ser identificados, até mesmo no CTI, onde há dez leitos, a situação era insalubre: “Como ali não é permitido usar telefone celular, não foi possível registrar nada. Mas o caos era o mesmo. Um caldeirão do inferno”, relata uma testemunha.

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Nem todo o hospital está nas mesmas condições. Na ala de emergência e na sala da direção, o ar-condicionado funciona e o ambiente está “geladinho”, nas palavras de um médico. “Quando há a visita de políticos ou alguém que traga a imprensa, todos vão a essa ala, porque assim a maquiagem continua”, diz o profissional.

No ano passado, a Câmara Municipal do Rio aprovou a chamada Lei da Climatização, que obrigava a cidade a manter as temperaturas de todas as enfermarias e unidades intensivas de seus hospitais entre 20 e 23 graus. A exigência, aliás, já é prevista em norma do Ministério do Trabalho. Mas o prefeito Eduardo Paes entrou na Justiça contra a lei, alegando inconstitucionalidade. Venceu em primeira instância, mas a Procuradoria da Câmara recorreu. A questão agora será julgada pelo Supremo Tribunal Federal.

Autor da lei, o vereador Paulo Pinheiro (PSOL) fará uma inspeção no hospital nesta quinta-feira. “Em vez de gastar com o processo, o prefeito poderia ter usado o dinheiro para colocar ar condicionado nos hospitais”, afirma ele, que é presidente da comissão de saúde da Câmara dos Vereadores. Por falta de estrutura, no ano passado o Souza Aguiar já havia fechado as portas do CTI pediátrico. O parlamentar falou hoje com funcionários do hospital. Eles afirmaram que o ar-condicionado do CTI voltou a funcionar, ainda que “fraquinho”.

A Secretaria Municipal de Saúde informou que, até 2008, apenas 6% das enfermarias eram climatizadas, e que agora são 72%. Em nota, alegou ainda que “vem trabalhando para a ampliação de novas áreas de climatização do hospital, o que depende de adaptações na infraestrutura do prédio, construído na década de 60 sem estrutura para ar condicionado”. Sobre o ar não funcionar no CTI, a secretaria informou que 100% dos CTIs são climatizados. Não é o que dizem funcionários e parentes de pacientes.