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Vargas, agora, diz que usar jato de doleiro ‘foi equívoco’

Em discurso na Câmara, o deputado tentou minimizar a relação com Alberto Youssef, preso durante a Operação Lava Jato, da Polícia Federal

Apesar de o notório doleiro Alberto Youssef ter sido investigado pelas CPIs do Banestado e dos Correios, o vice-presidente da Câmara dos Deputados, André Vargas (PT-PR), afirmou, nesta quarta-feira, em discurso no Plenário da Casa, que não conhecia as recentes atividades do empresário, preso durante a Operação Lava Jato, da Polícia Federal, e apontado como um dos protagonistas de um esquema que lavou 10 bilhões de reais nos últimos anos. Vargas resumiu sua parceria com Youssef como “uma relação de 20 anos com o proprietário do maior hotel de Londrina [base eleitoral do petista]”. Com essas explicações, o petista tenta evitar a abertura de um processo no Conselho de Ética.

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A operação da PF apontou que o deputado é sócio oculto do doleiro. Youssef providenciou um avião para que Vargas voasse com a família de Londrina (PR) a João Pessoa (PA). A viagem custou 100.000 reais. “No [caso do] avião, fui imprudente. Foi um equívoco. Deveria ter exigido contrato. Peço desculpas por ter exposto a minha família. É o que me machuca nessa hora”, afirmou o petista, citando projetos de sua atuação parlamentar, em uma tentativa de se descolar das atividades criminosas do doleiro paranaense.

Conforme revelou VEJA, a operação da Polícia Federal desmonta a alegação do vice-presidente da Câmara de que sua relação com Youssef é superficial. Em quase cinquenta mensagens interceptadas pela PF, Vargas recebe orientações do doleiro, combina reuniões e relata informações de conversas que, como parlamentar do PT, mantinha com integrantes do governo. Segundo apuração dos policiais, Vargas utiliza sua influência em benefício do parceiro, como atestam conversas sobre o laboratório Labogen Química Fina e Biotecnologia no Ministério da Saúde — apontadas como empresas do esquema do doleiro.

“Reitero que, se equívoco cometi, foi por me fiar em uma relação de 20 anos com uma pessoa da minha cidade, que trabalhava até então com tranquilidade na minha cidade e no meu país. Fui surpreendido com as investigações. Tenho coragem, determinação e humildade para reconhecer erros”, disse Vargas em plenário.

O rosário de justificativas de Vargas é comparável, até entre petistas, às desculpas apresentadas pelo senador cassado Demóstenes Torres (ex-DEM-GO), que perdeu o mandato sob acusação de defender os interesses do bicheiro Carlinhos Cachoeira. Ao tentar se defender, Torres admitia conhecer Cachoeira, mas negava saber de suas atividades ilícitas.

Estratégia – Durante os nove minutos em que permaneceu na tribuna da Câmara, Vargas adotou estratégia similar. “Conheço Alberto Youssef há 20 anos. Ele é hoje o proprietário do maior hotel da minha cidade [o Blue Tree Towers]. Conheço o processo pelo qual passou e [sei] que se transformou em testemunha do Ministério Público Federal em um processo de lavagem de dinheiro. Não conheço e não conhecia até duas semanas atrás o motivo pelo qual estava sendo investigado”, argumentou.

Apesar das provas colhidas pela Polícia Federal, o deputado petista negou ter se reunido no Ministério da Saúde para tratar do laboratório Laborgen, apontado como uma das empresas do esquema do doleiro, e afirmou que apenas “orientou” Youssef – como, diz ele, teria orientado qualquer sindicalista, empresário ou prefeito que o procurasse.