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Vai ou não vai?

As dúvidas sobre uma eventual indicação de Eduardo Bolsonaro para a embaixada do Brasil em Washington

Por Roberto Pompeu de Toledo - Atualizado em 29 jul 2019, 15h25 - Publicado em 26 jul 2019, 07h00

Um mistério ronda Brasília. O presidente Bolsonaro fala sério quando cogita indicar o filho Eduardo para a embaixada em Washington? Ele diz que sim: “Prefiro beneficiar um filho meu, sim. Se puder dar um filé-mignon ao meu filho, eu dou. Mas não tem nada a ver com filé-mignon, essa história aí. É aprofundar um relacionamento com um país que é a maior potência econômica e militar do mundo”. A afirmação foi feita num daqueles vídeos que, obra de amador, rodados sabe-se lá onde, parecem, apesar da piedosa presença da tradutora de libras, os filmes do Estado Islâmico anunciando a decapitação de mais um. Eduardo confirma que vai, sim, ser indicado, mas a dúvida persiste — e por uma singela razão: Bolsonaro é um pai prestimoso; como faria ao filho maldade de tal ordem?

Eduardo Bolsonaro não tem idade, treino, nem tamanho para o cargo, e expõe-se ao vexame. Se pai e filho não se deram conta disso, passa-se a desconfiar que os déficits em seus aparatos cognitivos sejam ainda maiores do que se supunha. Nos círculos de poder da capital americana, Eduardo arrisca ser tido como o menino que vestia o chapéu de Trump-2020. O embaixador aposentado Rubens Barbosa enumerou nestes dias, no jornal O Estado de S. Paulo, os requisitos para ocupar a chefia da delegação brasileira em Washington. Recordando sua posse como embaixador naquela capital, para um período que se estendeu por cinco anos (1999-2004), escreveu: “(…) meu objetivo imediato foi ampliar os contatos e o relacionamento da embaixada brasileira com o governo e o Congresso norte-americanos, assim como com as universidades, escolas, mídia, think tanks, ONGs (direitos humanos e meio ambiente), instituições financeiras internacionais e privadas”. Tem-se aí o espectro de instituições com as quais convém a embaixada se relacionar. Mesmo que os Bolsonaro venham a gozar de relacionamento especial com o presidente Trump, como imaginam, os EUA vão muito além de Trump.

Jair Bolsonaro impõe-nos desde sempre uma charada. Quem é, e o que quer? “Tosco” é o adjetivo que saiu à frente para traduzi-lo. Atrás veio “provocador”. Ele opera por afrontas, ou ultrajes, que provocam ondas de choque, em seguida amenizadas. O Inpe inventa desmatamentos na Amazônia, disse. Depois amenizou. Mente quem diz que existe fome no Brasil, disse. Depois amenizou. A indicação de Eduardo para Washington teria sido lançada como outra afronta ao país (porque nos envergonharia a todos) para ser retirada depois? E, se assim for, que terão ganho os Bolsonaro com isso? Mistério.

O Zero Três não tem treino nem tamanho para o cargo, e expõe-se ao vexame

 

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Se confirmado, Eduardo não será o primeiro a ingressar na carreira diplomática por influência do pai. Em maio de 1876, a princesa Isabel, na qualidade de regente (o pai estava em viagem), assinou a nomeação de José Maria da Silva Paranhos Júnior, de 31 anos, para o cargo de cônsul em Liverpool. Coroava-se de êxito a campanha do pai, José Maria da Silva Paranhos, ministro várias vezes, chefe de missões diplomáticas no Prata e primeiro-ministro entre 1871 e 1875, o mais duradouro e produtivo do período imperial. O pai tinha o título de Visconde do Rio Branco. O filho, sagrado Barão do Rio Branco, seria chanceler sob quatro presidentes, de 1902 até morrer, em 1912, e é o patrono da diplomacia brasileira.

Para se livrar da marca de beneficiário do “filhotismo”, como se dizia no Império, Paranhos Júnior começou em desvantagem. A fama de boêmio e mulherengo superava as qualidades de domínio dos assuntos, visão política, conhecimento de idiomas e habilidade no trato social, exigidas dos diplomatas. As credenciais eram pobres como as de alguém que alardeasse como vantagem ter fritado hambúrguer em país estrangeiro. O jovem Paranhos, que queria ser historiador, era porém uma fera num trabalho de paciência e concentração como a pesquisa histórica. Seria capaz, segundo o amigo Eduardo Prado, “de descrever, sem esquecer uma minúcia, como eram feitas as naus de Pedro Álvares Cabral, de que tecido vinham vestidos os marinheiros e o nome das plantas mais vulgares na praia de Porto Seguro onde ancoraram as naus”. Lia os compêndios, fuçava manuscritos, comparava, corrigia. Essa qualidade seria decisiva para as vitórias em série, em questões de limites do Brasil, que lhe alavancaram a carreira e granjearam popularidade em geral fora do alcance de um profissional da diplomacia.

Seria um despropósito comparar o número 3 do atual presidente com o número 1 do prestigioso político do Império. A questão a ressaltar é que livrar-se da marca do filhotismo e da fama de despreparado impõe a irrupção de qualidades excepcionais, até então escondidas.

Publicado em VEJA de 31 de julho de 2019, edição nº 2645

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