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Um velório de 34 anos

O calvário de Gilberto Molina em busca do corpo do irmão assassinado pela ditadura

Por Gilberto Molina - Atualizado em 23 out 2019, 20h38 - Publicado em 23 out 2019, 11h47

No último dia 4 de setembro, completaram-se 29 anos da descoberta da vala clandestina do cemitério Dom Bosco, no bairro paulistano de Perus. A contagem dos sacos plásticos desenterrados revelou 1.045 ossadas, a maioria de indigentes e também de muitas vítimas da ditadura militar. Passadas quase três décadas, poucas pessoas ali enterradas acabaram sendo identificadas. Uma delas foi meu irmão, Flavio Carvalho Molina, assassinado sob tortura no DOI-CODI de São Paulo, em 1971, um dia antes de completar 24 anos.

Flavio era quatro anos mais novo que eu. Nasceu em 8 de novembro de 1947, no Rio de Janeiro. Iniciou a militância na Ação Libertadora Nacional (ALN). Foi preso e fichado no Dops em 1968, quando estudava química na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Saiu de casa para entrar na clandestinidade no dia em que o homem pisou na Lua. Viajou até Cuba e retornou clandestinamente em 1971 para lutar contra a ditadura em uma organização dissidente da ALN, o Movimento de Libertação Popular (Molipo), na qual participou de ações armadas. Nos autos de sua prisão estão registradas suas duas identidades: a falsa, com o nome de Álvaro Lopes Peralta, e a verdadeira. As autoridades sabiam, portanto, quem ele era, mas não informaram a família, e seu corpo acabou sendo sepultado como indigente. Foi emocionante descobrir como ele criou o nome clandestino. Álvaro era o nome do nosso pai; Lopes, um dos sobrenomes da nossa mãe; e Peralta, a maneira que seu padrinho costumava lhe chamar na infância.

Soube da existência de Perus em 1980, com base em informações de pessoas que conheceram Flavio na clandestinidade. Fui ao cemitério sozinho, já conhecendo a identidade falsa de meu irmão. O administrador indicou o local onde estava a vala: uma área gramada, com o terreno ligeiramente inclinado e, claro, sem qualquer indicação do que havia ali embaixo. Diante da minha insistência, o funcionário do local mobilizou uma retroescavadeira e logo surgiram os primeiros sacos plásticos com ossos. A emoção me abalou profundamente. Mas demorou muito tempo para que o estado reconhecesse a existência do cemitério clandestino. Graças à pressão de grupos como  o Tortura Nunca Mais de São Paulo e do Rio, o governo iniciou o trabalho de reconhecimento das ossadas na década de 90.

Em 2005, os restos mortais de Flavio foram identificados por exames de DNA por um laboratório de São Paulo. Nesses anos de busca, acompanhamos o descaso com as ossadas, que passaram por três universidades diferentes e ficaram boa parte do tempo esquecidas, em locais impróprios, empilhadas em salas úmidas. Após a seleção inicial dos ossos (por sexo, idade, tamanho e características dentárias), eu e minha família vivemos inúmeras frustrações à espera de pelo menos seis exames de DNA feitos nas ossadas que poderiam ser de Flavio. Vi minha mãe colher sangue mais de uma vez para a realização dos testes. Participei de uma entrevista kafkiana, na qual o legista me perguntou se o esqueleto montado à frente “parecia” com meu irmão. Em cada exame feito no Brasil e no exterior, provei a expectativa e a decepção.

A opção de Flavio pela luta armada deve ser analisada no contexto da época. Hoje, a história mostra que era uma perspectiva equivocada. Ela mostra também as atrocidades institucionalizadas pelo estado, como a tortura, o assassinato de prisioneiros e ocultação de cadáveres. Embora soubesse de sua morte desde 1971, só tomei conhecimento de seu assassinato por meio de documentos oficiais em julho de 1979. Contei a meu pai num final de tarde. Com a voz embargada, ele indagou: “Por que, se o Flavio já estava preso?”. Ficamos em silêncio por não sei quanto tempo. A sala estava escurecendo quando minha mãe chegou da missa. Entre um grito e uma prece, ela foi para o quarto. Um dia depois de sua identificação oficial, 34 anos após o assassinato, Flavio foi sepultado no jazigo da nossa família, no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.

Depoimento dado a Roberta Paduan

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