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Tudo ou nada

Que quer Bolsonaro? Que projeto inspira sua desembestada atuação?

Chacrinha não está com nada. Ele dizia que veio para confundir, mas isso foi antes de Jair Bolsonaro. Bacalhau na plateia, roda, roda, Teresinhaaaa!!! — as confusões do homem da buzina não são nada, ou antes são modelos de ordem, perto das confusões do capitão. Ao aconselhar um entusiasta na fila do gargarejo, junto à grade do Alvorada, a não se filiar ao PSL, e ao qualificar de “queimado” o presidente da sigla, Luciano Bivar, Bolsonaro desencadeou a guerra civil nas hostes do antigo partido de aluguel, transformado em milionário aconchego do bolsonarismo, e destampou fúrias de que mesmo a oposição ainda não fora capaz.

O senador Major Olimpio, até a véspera um baluarte do governismo, denunciou a “mania de príncipes” dos filhos de Bolsonaro. Carlos, um dos filhos, respondeu que Olimpio era o bobo da corte. A Polícia Federal fez operação para devassar as contas de Bivar, acusado de desviar o dinheiro reservado às candidaturas femininas. O líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir, vingou-se convidando Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz a “prepararem um cafezinho” pois em breve também receberiam visita dos federais. O mesmo Delegado Waldir, para culminar, encaminhou o partido à obstrução, juntando-se ao PT, PSOL e PCdoB, na votação de projeto que rearrumava os cargos no Palácio do Planalto, de interesse do governo.

Que quer Bolsonaro? Que projeto inspiraria sua desembestada atuação? Em cerimônia na Marinha, três dias depois da conversa junto à grade do Alvorada, ele começou dizendo: “Meu partido é o Brasil”. É pedir demais que Bolsonaro preste atenção ao que diz, e pedir ainda mais que entenda o alcance do que diz. Partido, como a palavra indica, é a expressão política de uma parte de determinada comunidade. Em países organizados, cada parte expressa uma visão de mundo. Em desorganizados, como o Brasil, uma minoria possui representatividade, outros são ajuntamentos casuísticos ou coisa pior, mas todos continuam sendo partes. Portanto, o Brasil não pode ser um partido, não pode se partir. Deve abrigar suas diferentes partes, ou será identificado com um projeto de Estado totalitário.

Bolsonaro continuou: “Temos inimigos dentro e fora do Brasil. Os de dentro são os mais terríveis. Os de fora venceremos com tecnologia, disposição e dissuasão”. Ao referir-­se a ataques recentes contra “nossa soberania na Amazônia”, fez sobrar para a França a menção aos inimigos de fora. Ora, comemorava-­se na ocasião a conclusão de uma etapa do submarino Humaitá, construído em parceria com a França. A confusão, dessa vez, como as do Chacrinha, virava comédia: o presidente ameaçava combater o parceiro no negócio. Já a menção aos “inimigos” internos, ainda mais que classificados como “os mais terríveis”, ficava mais para a tragédia. Inimigos destroem-se, como na guerra — e a destruição aparentemente não se dirigia apenas a Lula e ao PT, mas incluía o governador Wilson Witzel, que estava ao seu lado e a quem nem cumprimentou. Witzel e João Doria são desafetos porque acalentam pretensões presidenciais.

 

Bolsonaro já passou por oito partidos. Partidos são para ele uma perfumaria burocrática, e tanto faz, na abundante oferta do Centrão, aderir a este ou a aquele. Já entabulou negociações com cinco, para o futuro, segundo a advogada que trata de sua saída do PSL. O que der mais vantagens leva. Ao dizer que seu partido é o Brasil, o presidente diz de quebra que o Brasil é ele — o que conduz a uma reflexão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, no prefácio do novo volume de seus Diários da Presidência:

“Os autoritários assumem que sua verdade é o Bem. Os demais estão em erro, são percebidos como a encarnação do Mal. Os democratas têm dúvidas, embora acreditem em seus ideais. Não procuram impor o que creem nem afastar da vida pública os que deles discordam. Preferem convencê-los a vencê-los pela autoridade. Convencer significa vencer juntos: há que dar ao adversário a chance de imaginar que ele também ganha algo com a vitória dos que mandam”.

Que quer Bolsonaro? Já temos condições de responder à pergunta: ele quer a ditadura. Não que vá acontecer, tomara que não, mas quem não gosta de partidos, mediadores necessários à vida democrática, quem se arroga incorporar o Brasil, como coisa fundida à sua pessoa, e quem se atribui o objetivo de destruir os inimigos só pode desejar a ditadura. Diga ele o que disser em contrário, é nesse sentido que o educou, e é para onde o orienta seu arcabouço mental. O jogo que ele embute é de tudo ou nada.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2019, edição nº 2657