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Tropa de Renan dá show de cinismo na tribuna

Fernando Collor ofendeu o procurador-geral da República. Lobão Filho disse que o Senado não tem condições de apontar o dedo a Renan. Eduardo Braga afirmou que PMDB "não se envergonha"

Os discursos de senadores em apoio à candidatura de Renan Calheiros à presidência do Senado transformaram a sessão desta sexta-feira em uma triste demonstração de cinismo. Pouco antes de confirmar a eleição do peemedebista para comandar a Casa pelos próximos dois anos, aliados de Renan deram novas provas de que são indiferentes à opinião pública.

Renan, que renunciou à presidência do Senado, em 2007, para fugir da cassação, retomará o comando da Casa no mesmo momento em que a Procuradoria-Geral da República pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a abertura de inquérito para apurar exatamente as denúncia que derrubaram o peemedebista da presidência na primeira vez: ele é acusado de peculato, falsidade ideológica e falsificação de documentos. A pensão que o senador deveria pagar à jornalista Mônica Veloso, com quem tem uma filha fora do casamento, era bancada pela empreiteira Mendes Júnior. Para esconder a irregularidade, Renan apresentou notas fiscais frias. Mas isso não constrangeu os peemedebistas.

Lobão Filho (PMDB-MA), que não teve votos e só chegou ao Senado na vaga deixada pelo pai, o ministro de Minas e Energia Edison Lobão, deu uma demonstração explícita do cinismo que abriu caminho para a candidatura de Renan: “Nesta casa não há nenhuma vestal. O último que tentou ser vestal nesta Casa foi desossado pela imprensa: o senador Demóstenes Torres – inclusive, acredito, até injustamente. Não há ninguém para apontar o dedo ao senador Renan Calheiros”, desafiou Lobão.

O discurso de Fernando Collor (PTB-AL) resumiu a inversão de papéis representada pela eleição de Renan. O único presidente da história cassado por corrupção disse que a vitória do colega representará “a afirmação do Legislativo”. E atacou o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que pediu a abertura de inquérito contra Renan na semana passada: “O senhor procurador é um chantagista, é um prevaricador e que cometeu crime de responsabilidade”.

Sérgio Souza (PMDB-PR), suplente da ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, e um dos mais ardorosos apoiadores de Renan, disse que as acusações contra o colega decorrem de fatos pessoais: “Sabemos do que fala a mídia e que o senhor não falta à responsabilidade para responder às perguntas da imprensa e do poder Judiciário. Sabemos que existe um processo que iniciou há poucos dias no STF e sei que o senador não foge à responsabilidade. São fatos mais ligados à vida particular do que à vida pública.”

Líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM) afirmou com todas as letras: seu partido não tem vergonha. “O PMDB não prejulga, o PMDB faz pelo país. O PMDB não se envergonha, o PMDB trabalha”.

“Não te mete nessa” – Senadores de vários partidos foram à tribuna para questionar a candidatura de Renan. A maioria evitou fazer críticas diretas ao peemedebista.

Pedro Simon (PMDB-RS) até elogiou o colega, mas fez um apelo: “Eu não tenho intimidade com o Renan, o nosso estilo é diferente. Mas, se tivesse, eu diria: ‘Não te mete nessa’. É muito mais importante ficar na liderança que na presidência do Senado, com a presidência do Supremo contestando”. Foi em resposta a Simon que o senador Lobão Filho apresentou seu agressivo discurso.

Sem citar Renan, o senador Alvaro Dias (PSDB-PR) foi incisivo e lembrou que a imagem do Senado tem piorado nos últimos anos: “Nós oferecemos razões de sobra para o achincalhe permanente. Essa era a hora, na esteira de novos parâmetros comportamentais éticos impostos pelo Supremo Tribunal Federal, de determinarmos um novo rumo para esta instituição em respeito às aspirações nacionais”.

Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), que também chegou a lançar candidatura contra Renan mas acabou recuando, pediu responsabilidade aos colegas: “O grande inimigo da república é o uso privado da coisa pública”, disse ele.

Os quatro senadores do PSB também discursaram, num esforço para marcar posição e afirmar a postura de independência da sigla do governador Eduardo Campos, possível candidato à presidência da República em 2014: “Permanecer indiferente ao clamor da população brasileira em nada ajuda a renovar a credibilidade”, disse o senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF).