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Três destinos

Coluna publicada em VEJA de 31 de outubro de 2018, edição nº 2606

Temperança e moderação podem ser boas para o tal do Aristóteles, não para Jair Messias Bolsonaro. O discurso feito a distância no domingo 21 para os fiéis reunidos em grande número na Avenida Paulista foi um dos mais duros da campanha. “A faxina agora será muito mais ampla. Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter de se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria”, disse o candidato. Ele falava ao telefone, aos sorrisos, inchado de satisfação, como se pode verificar pelo YouTube, pelas multidões que o aclamam, pela vitória já ao alcance da mão, por ser ele próprio quem é. Disse ainda: “Vocês, petralhada, verão uma polícia civil e militar com retaguarda jurídica para fazer valer a lei no lombo de vocês”.

Definem-se assim três destinos para os “vermelhos”: cair fora do país (“ame-o ou deixe-o”), a cadeia ou o chumbo da polícia. Esta terá “retaguarda jurídica”, ou seja, autorização ampliada para matar, segundo o “excludente de ilicitude” que o candidato pretende introduzir na legislação. “Nós somos a maioria. Nós somos o Brasil de verdade”, foi outra das frases no mesmo discurso. Uma linha divisória foi traçada; a uma virtuosa Bolsopátria, opõe-se a tribo dos malditos. Considerando-se que Fernando Haddad teve 31 milhões de votos no primeiro turno, os malditos seriam 31 milhões de brasileiros. E ainda podem ser mais, se incluídos, em acréscimo aos petistas, todos os outros que não se submetem a uma ameaçadora e não definida “lei de todos nós”. Tal lei enquadraria, levando-se em conta os valores bolsonaristas, os que defendem os direitos dos índios e dos quilombolas e os que se opõem ao desmatamento da Amazônia, entre outros.

A uma semana do segundo turno, Bolsonaro seguia radical como começou. De alguém que, em suas palavras, já estava com “uma mão na faixa” seria de esperar uma baixada de tom. Aliviaria as tensões que ensombram a campanha nesta reta final e abriria caminho para um pós-­eleitoral mais propício à deposição das armas. Seus instintos, porém, levaram-no para a direção oposta. A tendência a exacerbar é parte de sua natureza, seja no cara a cara com uma adversária, como a deputada Maria do Rosário (“Jamais ia estuprar você porque você não merece”), seja ao dirigir-se a uma multidão eletrizada. Fica a questão de saber se Bolsonaro será tão Bolsonaro como presidente. Ou, melhor, se será possível governar sendo tão Bolsonaro.

Outros já lembraram, nesta campanha, a lição de Pedro Aleixo. Prestigiado político da UDN, reputado jurista e malogrado vice-presidente do marechal Costa e Silva (não o deixaram assumir quando o titular adoeceu), o mineiro Aleixo foi o único membro do governo a se opor à decretação do Ato Institucional Nº 5. “Não tenho medo das mãos honradas do senhor presidente, tenho medo do guarda da esquina”, argumentou. O radicalismo que escorre de cima insufla bolsonaristas na rua e nos escalões médios. O discurso de Bolsonaro ocorreu no mesmo fim de semana em que vieram à luz os vídeos do filho do candidato jactando-se de que para fechar o Supremo nem precisa mandar um jipe, bastam um cabo e um soldado, e de um certo coronel Carlos Alves, incrível figura para quem a ministra Rosa Weber é “salafrária, corrupta”, e o ministro Luiz Fux é “ator de filme pornô”. O clima pesado não augura uma distensão tão cedo. Saudade de Alckmin. Só agora nos damos conta de que um presidente soporífero era do que mais o Brasil precisava.

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“Se alguém falou em fechar o STF, precisa consultar um psiquiatra”, disse Bolsonaro, ao ter notícia do agora famoso vídeo, e ainda sem saber que o protagonista da história era seu filho. Na nota em que depois deu o dito por não dito, o filho concordou que, “de fato”, quem aventasse tal hipótese “precisaria de um psiquiatra”. Atribuir desvios de conduta a pessoas portadoras de transtornos mentais é um vezo que contribui para estigmatizá-las. Bolsonaro não está sozinho. É habitual tachar de “esquizofrênico” ou “bipolar” um ato político ou social que merece reprovação. Dá-se conotação moral a termos que qualificam síndromes já suficientemente dolorosas para suas vítimas. Se alguém falou em fechar o STF, do que precisa é consultar um advogado, para sa­far-se dos processos.

Publicado em VEJA de 31 de outubro de 2018, edição nº 2606