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Totalitarismo kitsch

A esclarecedora atualidade do mau gosto na política

Há palavras que, embora vagas ou de sentido confuso, obcecaram gerações, transformaram paisagens, abriram ou encerraram capítulos na história: uma delas é o kitsch, insulto volátil que ao longo do último século atormentou a cultura ocidental. Suas origens são incertas — mas sabe-se que nasceu em alemão, talvez com influxo do iídiche. Para alguns historiadores, o termo surgiu nos ateliês de Munique por volta de 1870, significando a obra de arte barata, vendida como suvenir ou feita para agradar ao gosto da pequena burguesia. Na década de 30, o crítico Clement Green­berg descreveu o kitsch como o oposto da vanguarda; o alvo principal de seu petardo era a pintura figurativa. Outros definiram o kitsch como qualquer recurso à sentimentalidade excessiva: para Theodor Adorno, ele é “o besteirol açucarado, a beleza sem sua contraparte de feiura”.

O kitsch virou tabu estético — mas, na falta de uma definição final, qualquer um poderia tornar-se um herege sem saber. A fuga desarvorada a essa mácula misteriosa acabou virando, ela própria, uma espécie de clichê: hoje qualquer portaria de prédio pode amanhecer adornada com uma pintura abstrata sem que as concepções existenciais dos moradores sejam sacudidas de forma profunda. No mundo das artes, o conceito de kitsch envelheceu mal, e talvez seja hora de guardá-lo por um tempo na gaveta; mas há uma área da ação humana em que a ideia do mau gosto essencial, metafisicamente insidioso, continua atual e esclarecedora: a política.

Devemos ao romancista checo Milan Kundera uma das melhores passagens sobre o assunto. Assim escreveu ele em A Insustentável Leveza do Ser, de 1984: “O kitsch é o ideal estético de todos os políticos, e de todos os partidos e movimentos políticos. Quem vive em uma sociedade onde várias tendências políticas existem lado a lado e onde influências antagônicas cancelam-se ou limitam-se mutuamente pode dar um jeito de mais ou menos escapar à inquisição do kitsch: o indivíduo pode preservar sua indivi­dualidade; o artista pode criar obras fora do padrão. Mas, assim que um único movimento político toma o poder, nós nos achamos no reino do kitsch totalitário”.

Não sei quanto concordo com a primeira frase da citação; mas não tenho dúvida de que a última esteja correta. O kitsch político ocorre quando o discurso sobre assuntos públicos incorpora os trejeitos da má ficção: a catarse fácil, a santimônia sentenciosa, a negação triunfal das complexidades da vida. Em seu romance, Kundera se referia à uniformização dos espíritos sob a antiga União Soviética, mas todas as doutrinas e ideologias tendem a desenvolver seu kitsch particular.

Afinal, quem não se encantaria com um deus ex machina nas coisas reais? Cedo ou tarde, todos acabam acreditando que nossas agruras possam se resolver num lance de vulgaridade narrativa, sem o empecilho dos fatos, esses esnobes estéticos. Nesse sentido, podemos aplicar ao kitsch político algo que Roger Scruton escreveu sobre o kitsch musical: “É a pretensão do sublime, sem o esforço necessário para chegar lá”.

Publicado em VEJA de 8 de maio de 2019, edição nº 2633

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