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Teia de suspeitas sobre relação com Master põe candidatura de Flávio em risco

Senador passa a ser visto com desconfiança por aliados e tenta salvar a imagem com mudanças na equipe de campanha para a eleição presidencial

Por Daniel Pereira, Hugo Marques Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 22 Maio 2026, 06h00 | Atualizado em 22 Maio 2026, 11h16
Teia de suspeitas sobre relação com Master põe candidatura de Flávio em risco Priorize VEJA no Google

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nunca foi o candidato dos sonhos da direita, dos partidos do Centrão e de banqueiros e empresários que querem impedir a reeleição do presidente Lula. Por isso, quando ele anunciou sua postulação ao Palácio do Planalto, houve desânimo e ceticismo nesses grupos. Havia o entendimento de que o filho mais velho de Jair Bolsonaro não seria competitivo o suficiente e perderia para o petista. Havia também a esperança de que ele fosse substituído pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que encabeçaria uma chapa dos sonhos da oposição, na qual a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro poderia figurar como vice. A troca não ocorreu e, apesar das desconfianças iniciais, o Zero Um cresceu rapidamente nas pesquisas, empatando com Lula nas simulações de segundo turno. Nessa arrancada, ele pouco fez além de se beneficiar das dificuldades enfrentadas pelo governo. Sua pré-campanha estava numa zona de conforto até ser tragada para o centro do escândalo do Banco Master, que, com seu potencial para manchar reputações, agora também assombra a principal candidatura oposicionista.

Depois de meses de agenda positiva e ataques à gestão Lula, Flávio Bolsonaro aparece pela primeira vez na defensiva. A divulgação de áudios e mensagens de texto nos quais pede ajuda financeira de 134 milhões de reais ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro — protagonista de uma das maiores fraudes bancárias da história do país, responsável por um rombo de pelo menos 50 bilhões de reais — provocou um dano considerável na imagem do senador. Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada na terça 19 mostrou que a diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro na simulação de primeiro turno, que era de cerca de 7 pontos em abril, subiu para quase 13 pontos em maio. Em eventual segundo turno, o petista abriu 7 pontos de vantagem sobre o rival, com quem estava rigorosamente empatado na rodada anterior (veja o gráfico).

arte Flavio

Essa sondagem está sendo questionada no TSE por causa da inclusão no questionário do áudio em que Flávio Bolsonaro cobra Vorcaro. Segundo a oposição, o fato inusual teria influenciado o resultado negativo para o senador. Chamou atenção também que, no mesmo levantamento, Lula permanece em igual patamar, inclusive com o alto índice de rejeição. De qualquer forma, ainda que os resultados não estejam no mesmo nível do número da AtlasIntel, pesquisas internas feitas por partidos nos últimos dias também captaram uma perda considerável de intenções de votos. A sangria não é só numérica. Com uma sucessão de mentiras e histórias mal contadas, Flávio Bolsonaro também perdeu credibilidade e semeou, até entre aliados, a suspeita de que suas conexões com Vorcaro podem ser bem mais abrangentes do que ele revelou até aqui.

PLANO B - Michelle e Valdemar: ex-primeira-dama é considerada pelo presidente do PL a melhor opção, se tudo der errado
PLANO B - Michelle e Valdemar: ex-primeira-dama é considerada pelo presidente do PL a melhor opção, se tudo der errado (Beto Barata/PL/.)
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Essa suspeita não é despropositada. Pelo contrário, sustenta-se no fato de que o senador sempre fez o possível para esconder a relação que manteve com Vorcaro. Momentos antes de publicar a elucidativa troca de áudios e mensagens, o site Intercept Brasil perguntou a Flávio Bolsonaro se o ex-banqueiro havia financiado a cinebiografia de Jair Bolsonaro, batizada de Dark Horse (azarão, em inglês). Ele respondeu que era mentira e, bem ao estilo de seu pai, chamou o repórter de militante. Depois, quando sua voz veio a público solicitando dinheiro e externando juras de amizade a Vorcaro, ele foi obrigado a reconhecer que conversou com o ex-banqueiro, mas única e exclusivamente, conforme suas palavras, a fim de conseguir um financiamento privado para um filme privado. O senador acrescentou que jamais ofereceu nada em troca para Vorcaro, suspeito de pagar despesas pessoais, bancar eventos e contratar consultorias milionárias para facilitar seu esquema fraudulento e protegê-lo de eventuais investigações.

O plano de Vorcaro para garantir blindagem não deu certo. A cúpula do Congresso segurou até agora a instalação de uma CPI para apurar o caso do Banco Master, mas a Polícia Federal avança a passos largos sobre as falcatruas bilionárias. A PF quer saber, por exemplo, se o dinheiro repassado por Vorcaro a pretexto de ajudar na produção do filme sobre o ex-presidente custeou a vida do deputado cassado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, nos Estados Unidos. O indício de que isso pode ter ocorrido está no fato de a verba do ex-banqueiro ter sido transferida para um fundo gerido por um advogado do Zero Três. Pressionado por aliados, que foram pegos de surpresa pelas revelações, Flávio Bolsonaro prometeu que, em trinta dias, será apresentada uma prestação de contas que mostrará aplicação total dos recursos no filme.

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Horas depois da divulgação da pesquisa AtlasIntel, o Zero Um se reuniu com representantes das bancadas do PL na Câmara e no Senado. Na conversa, reconheceu ter visitado Daniel Vorcaro, no fim do ano passado, quando este estava preso em regime domiciliar e era monitorado por meio de uma tornozeleira eletrônica. “Eu fui, sim, ao encontro dele para botar um ponto final nessa história, para dizer que, se ele tivesse me avisado que a situação era grave como essa, eu teria ido atrás de outro investidor há bastante tempo”, disse. O senador pediu ajuda a Vorcaro em pelo menos três ocasiões: setembro, outubro e novembro de 2025, quando já eram conhecidas as dificuldades do Master.

No encontro com seus colegas de partido, Flávio Bolsonaro garantiu que não desistirá de sua candidatura. Sua desidratação momentânea tem animado outros concorrentes do campo da direita. Ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) voltou a criticar o senador depois de ele admitir a visita a Vorcaro: “Ter credibilidade, para mim, é fundamental para governar um estado e um país”, alfinetou. Já Ronaldo Caiado (PSD), ex-governador de Goiás, reagiu à nova revelação do affair Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro afirmando que o país precisa de um presidente com autoridade moral e independência intelectual. No levantamento da AtlasIntel, Zema e Caiado registram, respectivamente, 5,2% e 2,7% na simulação de primeiro turno. Eles se beneficiaram pouco da sangria do senador, que pode dar tração a outros azarões.

DARK HORSE - Vorcaro (abaixo), o atentado e a cena reproduzida no filme: a cinebiografia financiada pelo ex-banqueiro será lançada no segundo semestre
DARK HORSE - Vorcaro (abaixo), o atentado e a cena reproduzida no filme: a cinebiografia financiada pelo ex-banqueiro será lançada no segundo semestre (Reprodução; Reprodução; Ana Paula Paiva/Valor/Agência O Globo/.)
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Um deles é o ex-ministro Joaquim Barbosa, relator do processo do mensalão, que se filiou ao Democracia Cristã com o objetivo de disputar a Presidência (leia a reportagem na pág. 36). Outro é Renan Santos, do Missão, que aposta no antipetismo, empunha a bandeira do combate à corrupção e tem potencial para angariar os votos antissistema, exatamente como fez Jair Bolsonaro em 2018. Na simulação de primeiro turno, Santos está em terceiro lugar, com 6,9% de intenções de voto. No eleitorado de 16 a 24 anos, ele tem 36,1%, superando tanto Lula (28,2%) como Flávio Bolsonaro (24,5%), a quem atacou devido à intimidade com Vorcaro.

Diante do abalo na candidatura do senador, voltaram a circular rumores sobre a possibilidade de ele ser substituído por Michelle Bolsonaro, que nunca escondeu sua contrariedade com o fato de o marido ter escolhido o enteado para representar o clã nas urnas. Nada indica, no entanto, que essa substituição será feita. Considerada uma carreadora de votos entre mulheres e evangélicos, a ex-primeira-dama reduziu sua agenda política para cuidar do ex-presidente, que enfrenta problemas de saúde. Recentemente, ela desabafou numa rede social sobre quão pesada tem sido a rotina de cuidados dentro de casa. Na terça 19, mais bem-humorada, chamou o ministro do STF Alexandre de Moraes, inimigo número 1 do bolsonarismo, de “irmão em Cristo”, depois de ele autorizar a visita de um cabeleireiro ao ex-presidente. Em março, Michelle foi fundamental para convencer Moraes a autorizar prisão domiciliar para Bolsonaro.

CRÍTICAS - Zema e Caiado: desidratação momentânea tem animado outros concorrentes do campo da direita
CRÍTICAS - Zema e Caiado: desidratação momentânea tem animado outros concorrentes do campo da direita (Gabriel Silva/RasPress/Folhapress/.)
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Por enquanto, o plano da ex-primeira-dama continua o mesmo: candidatar-se ao Senado pelo Distrito Federal e ajudar a eleger alguns quadros de sua confiança. Até aqui, Flávio Bolsonaro não é beneficiário da boa vontade de Michelle, que não quis comentar a relação do senador com o ex-banqueiro: “Você tem que perguntar para ele”, desconversou, ao ser questionada sobre o caso em um evento recente.

A candidatura do Zero Um enfrenta um momento de inédita dificuldade, um teste de estresse, mas não pode ser dada como enterrada. Políticos do Centrão e expoentes do PIB não abandonaram o barco e estão em compasso de espera, analisando o rumo dos ventos. Uma fatia expressiva do eleitorado tem voto cristalizado e inabalável na família do ex-presidente. Além da capacidade de transferência de votos do pai, ele tem a seu favor o sentimento antipetista, que elevou a rejeição a Lula a um patamar alto e tem se mostrado difícil de reverter, mesmo com seguidos pacotes eleitoreiros anunciados pelo governo. O desafio do senador é impedir que o eleitor independente, decisivo na próxima eleição, se desgarre a ponto de não voltar mais. As próximas pesquisas mostrarão se ele está sendo capaz ou não de salvar a própria pele.

BONDADES - Lula: enquanto a oposição está nas cordas, Lula respira e abusa da máquina pública
BONDADES - Lula: enquanto a oposição está nas cordas, Lula respira e abusa da máquina pública (Roberto Sungi/AtoPress/Folhapress/.)
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A gangorra eleitoral se inverteu: Flávio Bolsonaro está nas cordas e sob ataque especulativo. Na quarta 20, o publicitário Marcello Lopes, que havia assumido o comando da comunicação da campanha do senador, deixou o cargo, que será agora de responsabilidade do publicitário Eduardo Fischer. Enquanto isso, Lula respira e abusa da máquina pública. Na terça-feira 19, o governo anunciou uma linha de financiamento de carros para motoristas de aplicativos e taxistas, estimada em 30 bilhões de reais — aumentando para cerca de 200 bilhões de reais o pacote de bondades eleitoreiras. Estreante na corrida ao Planalto, Flávio Bolsonaro está aprendendo da pior maneira possível uma lição básica: ninguém ganha ou perde eleição de véspera, muito menos a cinco meses da votação, tempo suficiente para que esqueletos, novos e antigos, saiam do armário. De todos os armários.

Publicado em VEJA de 22 de maio de 2026, edição nº 2996

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