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Suspeitas em série

Acusado de receber dinheiro sujo de empresas, Onyx Lorenzoni enfrenta nova polêmica: o uso irregular de verba pública, prática que sempre jurou combater

A cadeira de ministro-chefe da Casa Civil é espinhosa. Os petistas José Dirceu e Antonio Palocci foram demitidos do posto depois de serem flagrados em maracutaias. Já o emedebista Eliseu Padilha, titular da Pasta no governo de Michel Temer, balançou, balançou, mas não caiu: denunciado por receber propina da Odebrecht, assim como seu chefe, Padilha recolheu-se à rotina de reuniões internas do Palácio do Planalto e resistiu até o fim do governo. Onyx Lorenzoni, do DEM, é o ministro da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro e já depara com a sina dos antecessores — só não se sabe qual será o desfecho. Além dos ataques do PSL e das disputas com o ministro Paulo Guedes (veja o quadro), Lorenzoni enfrenta uma fieira de denúncias. Já foi acusado de receber propina da Odebrecht, o que ele nega, de embolsar caixa dois da JBS, o que ele admite, e agora está às voltas com uma nova suspeita — a de desviar dinheiro público na Câmara através do uso de notas frias.

Na semana passada, o jornal Zero Hora noticiou que Lorenzoni, quando era deputado federal, pediu à Câmara o reembolso de 317 000 reais gastos com a contratação de serviços de consultoria. A reportagem chamava atenção para dois pontos. Um é o fato de a empresa contratada, a Office RS Consultoria Sociedade Simples, pertencer a um correligionário do agora ministro, o técnico em contabilidade César Ferrão Marques. O outro é que a firma, ao cobrar a fatura, apresentou em determinados períodos, como entre novembro de 2015 e maio de 2016, notas com numeração sequencial. A hipótese benigna informa que, nesse intervalo, o então deputado Loren­zoni foi o único cliente da empresa. Na hipótese maligna, isso significa que as notas são frias.

APOSTA – Alencar, da Odebrecht: investimento em Lorenzoni

APOSTA – Alencar, da Odebrecht: investimento em Lorenzoni (Vagner Rosário/.)

É corriqueira a prática de parlamentares desonestos forjarem a contratação de empresas de aliados para, na verdade, embolsar, eles mesmos, o dinheiro que é pago pela Casa — e pelos contribuintes — a essas firmas. Lorenzoni rechaçou a suspeita, disse conhecer Ferrão Marques desde a década de 90 e afirmou que a empresa do correligionário prestou “consultoria tributária” a seu gabinete. Ele não especificou em quais projetos e jogou a responsabilidade pelos números sequenciais para o contador. “Essa coisa da numeração das notas é problema dele, da empresa dele.”

VEJA pediu cópia de qualquer material tributário produzido pela firma contratada, mas não recebeu nada até o fechamento desta edição. Os assessores de Lorenzoni alegaram que a pesquisa de documentos demandaria muito tempo, mas, em contrapartida, não lhes faltou tempo para apresentar uma lista de doze deputados gaúchos que, na última legislatura, registraram gastos com consultoria superiores aos do atual chefe da Casa Civil. Entre eles, está um colega de governo: o ministro da Cidadania, Osmar Terra (MDB). VEJA não conseguiu contatar Ferrão Marques, que também recebeu 80 000 reais da campanha de Lorenzoni a deputado, no ano passado, para organizar a sua prestação de contas.

Os 317 000 reais do reembolso pelos alegados serviços de consultoria saíram da cota que a Câmara reserva para financiar a atividade de cada parlamentar. Recentemente, Lorenzoni admitiu ter usado passagens aé­reas pagas pela Casa a fim de participar de atos da campanha eleitoral de Bolsonaro, o que é proibido. A confissão não veio embalada por um ato de contrição. Muito pelo contrário. “Eu estava ajudando a construir um novo Brasil”, disse, com ar de triunfo.

Com carreira política construída com base no discurso contra a corrupção e agora a favor da “despetização” da máquina pública, Lorenzoni já caiu na rede da Lava-Jato. Em 2017, ele gravou um vídeo no qual admitiu ter recebido 100 000 reais da JBS, via caixa dois, durante a campanha eleitoral de 2014. Para nunca se esquecer do erro, afirmou ter feito uma tatuagem no braço direito com a seguinte inscrição bíblica: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. Além disso, o ministro disse que o mais importante, sobre o dinheiro clandestino que embolsou, é que já se resolveu com Deus. Lorenzoni afirma que esse foi seu único pecado na vida pública, mas há versões diferentes. Em novembro passado, VEJA revelou que o empresário Joesley Batista, dono da JBS, entregou uma planilha que registra um repasse de 100 000 reais a Lorenzoni em 2012, o que o ministro nega. A Procuradoria-Geral da República instaurou um inquérito para apurar os dois repasses — o de 2014 e o de 2012. A investigação continua.

PARCELAS – Joesley, da JBS: foram duas remessas, e não apenas uma

PARCELAS – Joesley, da JBS: foram duas remessas, e não apenas uma (Dida Sampaio/Estadão Conteúdo)

Em junho de 2018, Lorenzoni livrou-se de uma acusação na mesma seara. O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, arquivou inquérito que investigava se Lorenzoni, em 2006, recebera 175 000 reais de propina da Odebrecht, conforme declarado em delação de Alexandrino Alencar, ex-executivo da empresa. O dinheiro, segundo Alencar, era um “investimento” — a empreiteira apostava que Lorenzoni galgaria degraus mais altos na política. E acertou. Depois de quatro mandatos como deputado federal, de 2003 a 2018, período em que jamais figurou entre os parlamentares mais influentes, Lorenzoni chegou à Casa Civil, onde terá a missão de articular a relação do governo com o Con­gresso. Resta saber se vai se segurar na cadeira espinhosa.

 

Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2019, edição nº 2617

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