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Movidos por interesses eleitorais, apoiadores de Bolsonaro voltam à cena

Soldados do presidente que desertaram se preparam para o retorno à trincheira

Por Ricardo Chapola Atualizado em 27 Maio 2022, 16h32 - Publicado em 28 Maio 2022, 08h00

O jornalista Oswaldo Eustáquio já foi um dos mais influentes formadores de opinião no universo bolsonarista. O conteúdo produzido por ele e distribuído em diferentes plataformas carregava duas marcas características da linha de produção dos apoiadores do presidente da República: as fake news e a aposta na beligerância. Diante da repercussão de seu trabalho, Eustáquio conheceu primeiro o prestígio. Bolsonaro chegou a postar uma imagem sua assistindo a uma live do jornalista. Depois, veio o tombo. Por decisão do ministro Alexandre de Moraes, relator no Supremo Tribunal Federal (STF) das investigações sobre milícias digitais e atos antidemocráticos, ele foi preso três vezes. Ficou um ano e meio atrás das grades, período em que disse ter sido torturado e sofrido um acidente que o condenou a usar uma cadeira de rodas. Na cadeia também experimentou uma decepção. O jornalista confidenciou a amigos ter se sentido abandonado pela família Bolsonaro e chegou a ensaiar um afastamento do clã, mas decidiu mudar de ideia.

EX-ARREPENDIDA - Janaina: “Da minha parte, não tem nem o que pensar” -
EX-ARREPENDIDA - Janaina: “Da minha parte, não tem nem o que pensar” – Bruno Santos/Folhapress/.

Repetindo um movimento pendular de outros expoentes do bolsonarismo que desertaram durante o governo e agora retornam à velha trincheira, Eustáquio deixou o ressentimento para trás e marchará ao lado do ex-capitão na eleição deste ano. Filiado ao União Brasil, ele planeja disputar uma vaga de deputado federal pelo Paraná. Sua campanha apostará na pauta conservadora, que também é pilar da plataforma eleitoral de Jair Bolsonaro. “As prisões foram fundamentais para me transformar num símbolo bolsonarista”, diz o jornalista. Agora em liberdade, Eustáquio afirma não se arrepender de nada do que fez, conta que reencontrou Bolsonaro na semana passada, foi saudado pelo presidente com um gesto de continência e ambos se emocionaram. Ele promete priorizar as críticas à atuação do Supremo e, mais especificamente, ao ministro Alexandre de Moraes, o desafeto público número 1 de Bolsonaro. “Eu quero ser a antítese a tudo de errado que essa Corte tem feito.” Outro mote de sua campanha será o compromisso de combate à esquerda.

As conveniências eleitorais também estão por trás da reconciliação do empresário Julian Lemos (União Brasil) com o bolsonarismo. Lemos se aproximou do presidente quando este era um parlamentar do baixo clero que rodava o país de olho no Palácio do Planalto. Na campanha de 2018, foi de tudo um pouco, de segurança a organizador de eventos do então candidato a presidente na Região Nordeste. A aposta se mostrou certeira. Bolsonaro venceu a corrida presidencial e Lemos acabou eleito deputado federal pela Paraíba. Com o tempo, os antigos aliados se distanciaram. Nas redes sociais, Lemos enfrentou temporadas de ataques e contra-ataques. Mesmo assim, o empresário quer se apresentar como apoiador e cabo eleitoral do ex-capitão a fim de renovar o próprio mandato. “Estamos entre um copo de fel e um copo de vinagre. Por mais que eu tenha diversas diferenças com o presidente, ele não agride alguns valores que eu tenho”, declara Lemos.

SEM SAÍDA - Julian Lemos: “Estamos entre o copo de fel e o copo de vinagre” -
SEM SAÍDA - Julian Lemos: “Estamos entre o copo de fel e o copo de vinagre” – Michel Jesus/Câmara dos Deputados

A frase do deputado ilustra bem a situação da turma que retornará à velha trincheira. Com a polarização, Eustáquio e Lemos sabem que não podem ficar em cima do muro e não têm condições de migrar para o exército petista depois de tudo o que fizeram e disseram nos últimos anos. A eles não resta opção. A deputada Janaina Paschoal (PRTB) enfrenta situação parecida. Pré-candidata ao Senado, ela manteve uma relação instável com o Planalto, marcada por momentos de afago e de duros ataques a Bolsonaro. O ápice da crise ocorreu em março de 2020, no início da pandemia no Brasil. Na época, Janaina pediu a renúncia do presidente quando o número de mortes por Covid-19 disparava, e o mandatário fazia pouco caso da quantidade de vítimas, promovia aglomerações e sabotava as recomendações sanitárias. Ela chegou a dizer que se arrependeu de ter votado em Bolsonaro em 2018. O tom agora é bem mais moderado. “Nós teremos Lula ou Bolsonaro. Nesse contexto, da minha parte, não tem nem o que pensar.”

Ao contrário de Janaina e de Lemos, Eustáquio fará sua estreia nas urnas em 2022. Depois de sair da prisão, o jornalista reclamou de dificuldades financeiras e viveu de forma muito modesta à custa da mulher. Agora, de novo embrenhado na trincheira bolsonarista, leva uma vida bem mais confortável. Ele mora numa casa no Lago Sul, bairro de endinheirados em Brasília, e montou na própria residência um estúdio digno de uma emissora de televisão, avaliado em 400 000 reais. Numa das paredes do imóvel, está pendurado um retrato de Jair Bolsonaro. A ideia de Eustáquio é montar um canal no YouTube com uma grade de programação 24 horas por dia. O jornalista conta que a estrutura foi custeada com doações. “Comecei pedindo 1 real de cada um. Chegou uma hora que tive de pedir para que parassem de me mandar.” Eleições promovem mesmo milagres, dos financeiros aos da reconciliação.

Publicado em VEJA de 1 de junho de 2022, edição nº 2791

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