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Sete gargalos para resolver antes da Copa de 2014

Contagem regressiva para o torneio também serve para lembrar que o tempo está se tornando perigosamente escasso

Segundo a Consultoria Legislativa do Senado, a Copa vai custar cerca de 81 bilhões de reais (40 bilhões de dólares), entre investimentos públicos e privados. Seria o torneio mais caro da história – a preparação para a Copa da África do Sul, por exemplo, custou cerca de 8 bilhões de dólares

No início da semana passada, a contagem regressiva para a abertura da Copa do Mundo de 2014 chegou aos 500 dias. Pouco depois, tanto o ex-craque Ronaldo, que vem sendo o “garoto-propaganda” dos preparativos para o Mundial, como Jérôme Valcke, o homem forte da Fifa na organização do evento, reclamaram dos “pessimistas” que insistem em levantar dúvidas sobre o sucesso do evento. Mas Ronaldo e Valcke não deveriam estar tão confiantes assim. Há cada vez menos tempo para os governos federal e estaduais resolverem os muitos problemas que podem prejudicar a organização dos jogos. Cerca de 20% dos projetos tem previsão de entrega apenas em 2014, perigosamente perto do início do torneio. Mantido o ritmo, algumas das obras preparatórias para o torneio não seriam nem mesmo concluídas a tempo. O governo previu a aplicação de 26,5 bilhões de reais em investimentos na Copa. Até agora, o total comprometido é de 14 bilhões. O valor efetivamente gasto é bem menor: 3,6 bilhões, ou 13,5% do anunciado. Além dos gastos diretos do Executivo, a União abriu mão de 1,8 bilhão de reais como incentivos fiscais concedidos às empreiteiras e à Fifa.

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Pelo calendário oficial não haverá sobressaltos: até 12 de junho, o essencial estará funcionando. O problema é que a previsão não é confiável: dos doze estádios, dez tiveram a inauguração adiada por causa de atrasos. Apenas o Castelão, em Fortaleza, e o Mineirão, em Belo Horizonte – concluídos no mês passado – cumpriram o prazo. Pela programação inicial, o Brasil já deveria ter onze estádios em funcionamento. Alguns casos, como o da Arena das Dunas, em Natal, são mais graves. É só fazer as contas: as obras do estádio começaram em agosto de 2011 e só agora se aproximam dos 50% de conclusão. Se o ritmo for mantido, a arena vai ficar pronta exatamente em junho de 2014.

Os problemas se acumulam. A rede hoteleira pode não ser suficiente para abrigar os milhões de turistas, do Brasil e do exterior, que devem se deslocar para assistir aos jogos. A qualificação de trabalhadores para receber os visitantes também anda a passos lentos. As obras nos aeroportos vão ficar prontas em cima da hora, na melhor das hipóteses. Os investimentos em mobilidade urbana estão 20% abaixo do previsto. Do total reservado no planejamento da Copa, o governo não gastou nada com energia elétrica. E nada com a segurança pública.

CríticasEm entrevista ao site de VEJA, o deputado Romário (PSB-RJ) disse que o atraso em algumas obras é proposital porque, em situação emergencial, as regras de licitação são flexibilizadas: “Esse é o momento das pessoas roubarem. E muito.” Para o senador Alvaro Dias (PSDB-PR), a situação de descontrole era evitável: “A impressão que se dá é de que o governo ficou paralisado diante dos problemas que viria a enfrentar. Há um risco de danificarmos a imagem do país”, diz ele.

De fato, o Tribunal de Contas da União (TCU) já apontou falhas em contratos de várias obras. Os auditores do TCU apontaram, por exemplo, um sobrepreço de 86,5 milhões de reais na Arena Manaus. No caso do Maracanã, os problemas surgiram já no projeto básico: o ministro Valmir Campelo, relator dos processos envolvendo as obras da Copa, assinalou que havia “indícios de graves irregularidades no processo licitatório de contratação da obra”. Graves também foram as irregularidades encontradas na licitação para as obras do Porto de Natal: preço inflado em 13% e falhas na licitação. Enquanto isso, o preço da reforma do estádio Mané Garrincha, em Brasília, superou a marca de 1 bilhão de reais – 300 milhões a mais do que a primeira avaliação.

Segundo a Consultoria Legislativa do Senado, a Copa vai custar cerca de 81 bilhões de reais (40 bilhões de dólares), entre investimentos públicos e privados. Seria o torneio mais caro da história – a preparação para a Copa da África do Sul, por exemplo, custou cerca de 8 bilhões de dólares. A esses números, o governo contrapõe uma estimativa otimista: a de que, até 2019, o ganho para o Produto Interno Bruto (PIB) terá sido de 183 bilhões de reais.”No país tudo é reajustado, o preço da matéria-prima, os bens de serviço, a mão-de-obra. O tempo às vezes encarece a obra também. As obras são paralisadas por órgãos de controle”, justificou no mês passado o ministro do Esporte, Aldo Rebelo. É uma meia-verdade: um bom planejamento evita inclusive as paralisações. É o que faltou ao governo, que já sabe, desde 2007, que o Brasil sediará a Copa. Ninguém pode alegar que foi por falta de aviso.

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