Seleto grupo de governadores que tentam novo mandato chega à reta final com liderança folgada
Vantagens vão de 20 a 41 pontos percentuais sobre os rivais mais próximos
O eleitor brasileiro vai às urnas neste domingo para votar em quem ele acha que deve comandar cada uma das 27 unidades da federação — e, em muitos casos, deve resolver a questão sem a necessidade de uma segunda votação. Estimativas feitas com base nos últimos levantamentos indicam que ao menos onze estados devem encerrar a disputa sem a necessidade de segundo turno. Em alguns, como Bahia, Pernambuco e Ceará, esse desfecho se dará a despeito de disputas bastante equilibradas, pela simples razão de que o embate tem apenas dois candidatos competitivos, ambos com potencial para fazer maioria no primeiro turno. Mas em ao menos seis colégios, a corrida pelos palácios estaduais vai acabar logo na rodada inicial por uma outra razão: a existência de superfavoritos, candidatos que na reta final da corrida ostentam vantagens que parecem insuperáveis para os seus perseguidores mais próximos.
A receita para chegar à reta final com a sensação de vitória é, ao que parece, bastante simples: ter aprovação prévia do eleitor por conta de um bom trabalho realizado. Cinco dos seis candidatos que ostentam as maiores dianteiras na semana final antes da votação — todos com ao menos 20 pontos percentuais de vantagem — são governadores em busca da renovação do mandato: Jorginho Mello (PL), em Santa Catarina; Rafael Fonteles (PT), no Piauí; Eduardo Riedel (PP), no Mato Grosso do Sul; Daniel Vilela (MDB), em Goiás; e Tarcísio de Freitas (Republicanos), em São Paulo. A única exceção nesse seleto grupo de superfavoritos é Arthur Henrique (PL), ex-prefeito de Boa Vista que tem 25 pontos de dianteira na corrida ao governo de Roraima (veja quadro).
Os índices de aprovação expressivos das gestões desses candidatos, que variam de 64% a 73%, têm ingredientes distintos, visto que representam diferentes espectros políticos, mas todos resultam em algo comum: ajudam a engordar palanques. Os superfavoritos contam com alianças robustas, que reúnem até onze partidos, como é o caso de Vilela, ou dez, como Tarcísio e Riedel — Jorginho Mello tem nove siglas a seu lado e Fonteles, sete. As frentes amplas fecham portas a potenciais concorrentes e garantem tempos maiores de rádio e TV, além de mais dinheiro do fundo eleitoral. “São candidaturas que conseguiram converter a boa avaliação dos governos em voto. As articulações deles, com forte capilaridade municipal, acabam reduzindo o espaço político para o crescimento da oposição”, diz Murilo Medeiros, cientista político da UnB.
O Brasil é um país em que o eleitor tradicionalmente é inclinado a manter no cargo os governantes que buscam um novo mandato. Desde que a reeleição voltou a ser permitida, em 1998, só um presidente da República, Jair Bolsonaro, teve a recondução barrada nas urnas. Entre os governadores, o recorde foi batido em 2022, quando nada menos que dezoito dos vinte gestores (90%) que foram às urnas conseguiram do eleitor um novo mandato.
Na atual corrida, dezoito chefes dos Executivos estaduais submetem seus nomes aos votantes nas urnas. Apenas dois têm a reeleição em risco no primeiro turno. Um é Clécio Luís (União Brasil), no Amapá, que está 18 pontos atrás (55% a 37%, segundo o Paraná Pesquisas) do ex-prefeito de Macapá Antônio Furlan (PSD). O outro é Mateus Simões (PSD), de Minas Gerais, que na última pesquisa Quaest tinha apenas 6% dos votos, ocupava a quarta posição e dificilmente chegará ao segundo turno contra o favorito, Cleitinho Azevedo (Republicanos) — que, a despeito de ter 19 pontos de vantagem sobre seu maior rival, o petista Patrus Ananias (37% a 18%), não deve liquidar a eleição no primeiro turno por conta da fragmentação de candidaturas: há onze concorrentes ao governo, o maior número do país.
As projeções levam em conta os retratos atuais feitos pelas pesquisas. Mas nunca uma maratona eleitoral foi tão fotografada como a de 2026 — segundo o Tribunal Superior Eleitoral, já foram quase 3 000 sondagens, número que superou o total de 2022, antes mesmo do segundo turno. A grande maioria dessas pesquisas, cerca de 2 000, foi sobre disputas aos governos locais. Muitas vão errar, muitas vão acertar, e a fotografia que vale mesmo é a que sairá das urnas.
Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015





