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Seca: prejuízos no RS só devem ceder em cinco anos

Plano Estadual de Irrigação, iniciado em 2009, planeja dobrar área irrigada de lavouras afetadas pela estiagem. Mas ainda está em processo de finalização

Por Bruno Huberman - 17 jan 2012, 09h07

“A irrigação só é necessária na seca. Recursos hídricos já existem, é preciso criar meios para guardar a água do inverno para o verão”

Reimar Calesso, professor da Universidade Federal de Santa Maria

Enquanto a Região Sudeste sofre com as chuvas de verão, que mais uma vez provocam tragédias e mortes, a Região Sul tem prejuízos bilionários por causa de um efeito climático oposto: a seca, que arrasou lavouras inteiras nas últimas semanas. Em ambos os casos, apesar dos fenômenos ambientais serem históricos e previsíveis, apostou-se pouco em medidas preventivas.

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O Rio Grande do Sul é o estado que acumula mais perdas com a estiagem, calculadas, até agora, em mais de 2,2 bilhões de reais. Em toda a Região Sul, cerca de 3,5 milhões de pessoas já foram afetadas pela seca. O governo gaúcho estima que só em cinco anos os danos dos produtores rurais começarão a diminuir. Até lá, deve dobrar a quantidade de áreas irrigadas nas lavouras de milho, soja, feijão e tabaco – as mais afetadas pela falta de chuva -, chegando a 150.000 hectares.

O chamado “Plano Estadual de Irrigação”, iniciado em 2009, na gestão da ex-governadora Yeda Crusius (PSDB), concentra várias medidas de médio prazo, como a construção de barragens, açudes e canais de distribuição de água. Mas apenas nesta terça-feira será apresentado ao sucessor da tucana, o petista Tarso Genro, um programa definitivo de incentivo à irrigação no estado, ainda em processo de finalização.

O objetivo é irrigar 10% das lavouras deste tipo – o equivalente a 500.000 hectares. Este patamar tornaria sustentável a produção agrícola no estado, ou seja, seria o suficiente para o agricultor cobrir os custos de produção e o seguro da lavoura, reduzindo o seu prejuízo real.

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Método – Atualmente, segundo o governo, o Rio Grande do Sul possui 5 milhões de hectares em plantações de grãos. Deste total, apenas 1,2 milhão é irrigado, sendo 1,1 milhão ocupado com lavouras de arroz, que usam o método de irrigação por inundação (que não exige o bombeamento da água).

Aproximadamente 75.000 hectares das lavouras de milho, soja, feijão e tabaco – as mais castigadas pela seca – são irrigados pelo bombeamento da água a partir de um reservatório. Contudo, desde o lançamento do Plano Estadual de Irrigação, a área irrigada aumentou apenas 10.000 hectares.

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Segundo o professor de Irrigação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Reimar Calesso, que trabalha em conjunto com o governo na elaboração dos estudos, no Rio Grande do Sul não há necessidade de irrigar 100% das plantações. “O solo é fértil e chove durante o ano mais do que o necessário para o sucesso das lavouras”, afirma. O problema, explica, é a concentração das precipitações no inverno, tornando necessário armazenar água para a estiagem, no verão. “A irrigação só é necessária na seca. Recursos hídricos já existem, é preciso criar meios para guardar a água do inverno para o verão”.

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Para criar um sistema de armazenamento e distribuição de água eficiente, o Plano Estadual de Irrigação prevê a construção de seis barragens, dois canais de distribuição de água, mais de 22.000 açudes e unidades de irrigação em bacias hidrográficas do estado. Segundo o governo, o investimento é de meio bilhão de reais, o que inclui recursos do Ministério da Integração Nacional e do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) 2.

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O programa também inclui incentivos financeiros para o agricultor adotar a irrigação. Foi criada uma linha de crédito especial para o financiamento da instalação do sistema e, em alguns casos, há o subsidio de 20% a 80% do maquinário (motor, bomba e canos). O governo ainda promete agilizar a liberação de licenciamentos ambientais, promover cursos técnicos de manutenção e, para as localidades onde não há energia elétrica, prevê isenção do imposto sobre circulação de mercadorias (ICMS) para o diesel – usado como combustível nos equipamentos.

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Cultura – O secretário de Agricultura, Pecuária e Agronegócio, Luiz Fernando Mainardi, diz que a solução para o problema da seca também passa por uma questão cultural. Os produtores gaúchos, diz, são arredios à tecnologia por causa do solo fértil e das chuvas concentradas. “Nós temos que fazer o agricultor acreditar na irrigação. No ano passado choveu na hora certa, então os agricultores não quiseram adotá-la”, afirma. “O gaúcho achava que seca era problema apenas do Nordeste. A água na propriedade é tão importante quanto a terra. Este é um problema cultural que nós precisamos mudar.”

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Outro ponto importante no combate à estiagem é diversificar os grãos plantados em uma mesma propriedade rural. “O agricultor não pode semear apenas uma cultura, seja milho, feijão ou soja. Diversificar é qualificar a agricultura familiar”, afirma o secretário de Desenvolvimento Rural, Cooperativismo e Pesca, Ivar Pavan.

O diretor técnico da Associação Rio-grandense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), Gervásio Paulus, afirma que também é preciso fazer um plantio escalonado, ao longo de várias semanas, e não concentrado em um único período, como é feito atualmente. “O maior problema de a estiagem acontecer no verão é pegar justamente o período de florescimento da planta, ou seja, bem na época que mais precisa de água”, diz Paulus. “Se espalhar o plantio e a colheita ao longo de algumas semanas, o prejuízo deve diminuir sensivelmente em curto prazo.”

Segundo a Emater, até o dia 9 de janeiro foram danificadas 37,5% das plantações de milho, 15% de soja e 6,2% de arroz. Em 2011, o estado produziu 26,5 toneladas de grãos enquanto neste ano a previsão é de 19,7 toneladas – uma diferença de quase 7 toneladas. O governo prevê, entre medidas emergenciais e de prevenção, um gasto de 54 milhões de reais no combate à estiagem nas cidades que mais sofreram com o efeito climático – sendo 28 milhões de recursos federais e 26,4 milhões oriundos do estado.

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