Clique e assine a partir de 9,90/mês

“Riquinho!”, “Comunista!”

A disputa eleitoral de 2018 em São Paulo entrará para a história como uma das mais ridículas contendas que o estado já viu

Por Eduardo Gonçalves - 26 out 2018, 07h00

Em alguns momentos, a disputa lembrou o Telecatch, o extinto programa de TV que misturava luta, circo e encenação — tão caricato e infantil que o espectador às vezes ficava em dúvida se era para rir ou para chorar. As eleições de 2018 para o governo do Estado de São Paulo serão lembradas no futuro como o pleito em que, num debate na TV, um dos contendores, o tucano João Doria, acusou seu adversário, o pessebista Márcio França, de amar o Lula e de ser “comunista” e “carreirista”. E, apontando o dedo para o rosto à sua frente, bradou: “Você é, sim!”. Da parte de França, a frase candidata a entrar para a história é: “Você fez o (Geraldo) Alckmin chorar”. Também o acusou de ser “mentiroso, traidor e riquinho”. E, apontando o dedo para o riquinho, completou: “Você comprou uma rua. Devolva para as pessoas”. Os diálogos, travados nos estúdios da TV Bandeirantes na quinta-feira 18, alcançaram tamanho volume e estridência que, em dado momento, o apresentador Fabio Pannunzio resolveu desistir de mediá-­los. Deixou que os dois candidatos se interrompessem a cada fala e resignou-­se a dizer que esperava que eles chegassem “vivos ao final do programa”.

Especialistas creditam os níveis subterrâneos a que chegou o debate em São Paulo ao contraste entre o cenário eleitoral estadual e o federal. Enquanto na disputa para a Presidência da República entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) o clima foi de polarização, em São Paulo, no segundo turno, os candidatos se assemelhavam na origem e nas propostas. Para começar, Doria e França têm o mesmo padrinho político. Em 2014 o ex-gover­nador Geraldo Alckmin fez de França o seu vice, e em 2016 comprou briga com metade dos tucanos para lançar Doria prefeito, contrariando o grupo de José Serra, que preferia o empresário Andrea Matarazzo. Tanto Doria quanto França também gostam de dizer que não se consideram “nem de direita nem de esquerda, mas de centro”, e se apresentam, cada um a seu modo, como representantes da “nova política”. Na prática, e com notável avidez, Doria tentou ocupar o campo da direita, mirando o eleitorado de Jair Bolsonaro, ao mesmo tempo que se esforçou para empurrar França para a ponta oposta. O pessebista, por sua vez, tentou escapar da cilada distanciando-se quanto pôde do candidato do PT à Presidência e reforçando o discurso de endurecimento contra a criminalidade. Com tantas intersecções e trombadas, a clivagem entre os candidatos acabou tendo de ser feita artificialmente — à base de promessas hiperbólicas e ataques superlativos, quando não pessoais. Doria, por exemplo, prometeu subir o salário dos policiais militares, dos policiais civis, dos bombeiros e dos peritos da Polícia Científica. Márcio França prometeu que aumentaria os vencimentos de todos os funcionários públicos do Estado de São Paulo. Claro que ninguém explicou de onde tiraria o dinheiro. Aliás, nenhuma das promessas que envolvem aumento de gasto público consta dos programas de governo dos dois candidatos — ficaram apenas no gogó.

O espetáculo de vulgaridade na disputa entre Doria e França atingiu o paroxismo quando, na terça-feira 23, um vídeo erótico supostamente protagonizado pelo tucano, o qual ele classificou depois como uma montagem, varreu as redes sociais. Diante do episódio, até os candidatos acharam que tinham ido longe demais, a ponto de, no debate do SBT, no mesmo dia, terem protagonizado uma inesperada trégua. A última pesquisa Datafolha mostrava os rivais em empate técnico — Doria em vantagem nominal, com 52% das intenções de voto, e França com 48%.

Seja quem for o vitorioso neste domingo, é certo que o PSDB sairá enfraquecido da disputa. Se França ganhar, o partido perderá o comando do maior colégio eleitoral do país. Se o vitorioso for Doria, o partido sofrerá uma limpa com a altamente provável carbonização dos tucanos que hoje apoiam França. Doria já deu mostras do seu ímpeto vingativo ao tentar expulsar, por infidelidade partidária, ao menos dez tucanos que haviam feito campanha para o pessebista no primeiro turno. Outra consequência tão certa quanto o enfraquecimento do PSDB com a abertura das urnas diz respeito a Geraldo Alck­min, aquele a quem Doria teria feito chorar. O ex-governador, que deixou o pleito presidencial reduzido a um quase nanico, deverá buscar algum refúgio para expurgar seu arrependimento de ter apadrinhado Doria, cuja ambição algo exacerbada levou-o a tentar derrubar Alckmin até da candidatura presidencial.

Continua após a publicidade

Publicado em VEJA de 31 de outubro de 2018, edição nº 2606

Publicidade