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Revelações sobre Moraes e Vorcaro colocam STF em encruzilhada inédita

O enorme dilema do Supremo diante da decisão de autorizar uma investigação inédita sobre um membro da própria Corte

Por Laryssa Borges Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Robson Bonin Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 4 set 2026, 06h00 | Atualizado em 4 set 2026, 11h53
Revelações sobre Moraes e Vorcaro colocam STF em encruzilhada inédita Priorize VEJA no Google

O Supremo Tribunal Federal teve papel decisivo para impedir e punir a tentativa de golpe. Nessa jornada em defesa da democracia, nenhum ministro do STF se destacou tanto quanto Alexandre de Moraes. Transformado em inimigo público número 1 pelo então presidente Jair Bolsonaro e seus aliados, Moraes resistiu às agressões, comandou a eleição de 2022, chancelou a posse do candidato vitorioso nas urnas (Lula) e, depois de garantida a transição de poder, ainda condenou à cadeia o capitão e seus comparsas por atentarem contra a democracia. Em consequência, tornou-se uma das autoridades mais influentes e temidas do país. Várias decisões polêmicas dele passaram a ser relevadas em retribuição à sua ação para barrar a intentona autoritária. O poder conquistado por Moraes parecia ter se tornado uma barreira inquebrantável ao redor dele, acima de qualquer tipo de contestação.

Captura de tela de um aplicativo de mensagens com fundo escuro, exibindo uma conversa entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes. As mensagens, em texto branco, discutem informações confidenciais sobre o Banco Central, pressão da PF e MP, e a necessidade de bloquear medidas que poderiam prejudicar o banco. A conversa termina com uma mensagem de agradecimento e reconhecimento pelo legado para o Brasil
(./.)

Foi assim até virem à tona mais detalhes das relações que ele manteve com Daniel Vorcaro, dono do Master e protagonista de uma das maiores fraudes bancárias da história do país. Desnudada num relatório de 218 páginas elaborado pela Polícia Federal, as relações entre Moraes e o ex-banqueiro atingiram em cheio a reputação do ministro, chamuscaram a já arranhada imagem do STF e colocaram o tribunal numa encruzilhada: escolher entre o desgaste de investigar um de seus principais integrantes ou empurrar o caso para debaixo do tapete e mergulhar de vez no descrédito. Já se sabia que o escritório de advocacia da esposa de Moraes havia fechado um contrato de 129 milhões de reais com o Master e que Vorcaro, antes de ser preso pela primeira vez, em novembro passado, pediu socorro ao ministro. Moraes vinha sendo poupado de dar maiores explicações, até a revelação de uma série de diálogos travados por ele com Vorcaro.

Com base nas informações contidas no celular apreendido do ex-banqueiro, o ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF, ordenou que a PF identificasse as autoridades com prerrogativa de foro que trocaram mensagens e telefonemas com Vorcaro ou tiveram seus nomes citados em conversas dele. O relatório traz como destaques Moraes, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. O papel de protagonista, no entanto, é de Moraes, a quem Vorcaro recorre a fim de obter informações sigilosas, pedir conselhos jurídicos e solicitar ajuda para pressionar autoridades a salvá-lo da derrocada financeira e da cadeia. “Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você”, escreveu o executivo ao ministro em 14 de novembro de 2025.

INTERMEDIÁRIO - Faria: o ex-ministro alerta Vorcaro que com “o careca não pode atrasar”
INTERMEDIÁRIO - Faria: o ex-ministro alerta Vorcaro que com “o careca não pode atrasar” (Ton Molina/Fotoarena/.)
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Segundo a PF, o ex-banqueiro trocou pelo menos 51 mensagens com Moraes em 21 dias. Em 15 de novembro de 2025, dois dias antes de ser preso, Vorcaro perguntou a Moraes sobre a conveniência de uma fuga: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. No dia seguinte, ele pediu ao ministro que intercedesse junto a “Andrei” para adiar possíveis diligências contra o Master. Em 17 de novembro, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos ao tentar embarcar para Malta. No dia seguinte, o Master foi liquidado pelo Banco Central, comandado por Gabriel Galípolo, que aparece nas mensagens como uma fonte de preocupação para o ex-banqueiro. Antes da liquidação, Vorcaro enviou para Moraes: “É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem, que aí vai tudo pro saco”.

De acordo com a investigação da PF, ambos foram apresentados por Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações do governo de Jair Bolsonaro, em cuja casa chegaram a se encontrar. Vorcaro e Moraes utilizavam mensagens em modo de visualização única, destruídas imediatamente depois de lidas. Os investigadores conseguiram acessar o que o ex-­banqueiro escrevia porque ele fazia rascunhos no bloco de notas do telefone antes de entrar em contato com o magistrado por meio de um aplicativo de troca de mensagem. Foi por isso que a PF descobriu a prioridade máxima dada ao pagamento das parcelas do contrato com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, que, conforme a polícia, foi revisado pelo próprio marido dela. “Pqp. Não pagaram Barci de Moraes. Não tô entendendo isso. Contrato mais importante que temos”, reclamou Vorcaro em uma mensagem enviada a um membro de sua equipe. A PF também identificou a negociação para a assinatura de um segundo contrato com a mesma banca, estimado em 50 milhões de reais, que seria pago inclusive com cotas de um jato Legacy 650 e de um helicóptero.

NEGÓCIOS - Viviane: avião à disposição, contratos milionários e prioridade total de pagamento para a esposa de Moraes
NEGÓCIOS - Viviane: avião à disposição, contratos milionários e prioridade total de pagamento para a esposa de Moraes (Ton Molina/Fotoarena;/Reprodução)
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Como não teve acesso ao celular de Moraes, até porque o ministro não é investigado formalmente, a PF não sabe quais foram as respostas dadas por ele. Antes de retirar o sigilo em torno do material, Mendonça pediu à PGR que se manifestasse sobre o relatório. Citado nos diálogos, Gonet chamou atenção pela rapidez e por não ter se declarado impedido de julgar o caso. Em menos de 24 horas, recomendou que o material da PF fosse declarado nulo. Paralelamente, Mendonça pediu que o plenário do Supremo julgue o caso. Numa nota curta, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, avisou que serão analisadas as posturas de Moraes e também os atos processuais de Mendonça, que, conforme os críticos, não poderia, como juiz, demandar à PF a produção do relatório. “A elevada autoridade do cargo não confere privilégios, mas impõe deveres, limites e responsabilidades”, declarou Fachin. Na primeira sessão do Supremo realizada após o estouro da crise, na quarta 2, os ministros seguiram a pauta normal, sem tocar na crise. Sentados lado a lado, Moraes e Mendonça fingiram normalidade. O clima entre eles já havia se tornado pesado antes mesmo da divulgação do relatório da PF.

Na última segunda-feira, quando esse material ainda estava protegido por sigilo, Moraes foi ao gabinete de Mendonça para cobrar o colega. “Quero ser bastante direto com você. Estou sabendo que você está me investigando”, disse Moraes, fazendo referência às mensagens que recebera de Vorcaro. Mendonça retrucou: “Eu não sabia que o interlocutor do Vorcaro era você. Não estou te investigando, ministro, porque, para investigar, eu preciso de autorização do plenário”. Veio a tréplica de Moraes: “É isso que eu queria saber”. Mendonça, então, lembrou ao colega que o caso estava em sigilo máximo e questionou sobre como ele teria ficado sabendo da existência do relatório. Moraes respondeu em tom irônico: “Tenho as minhas fontes”.

PRESSIONADO - Alcolumbre: dinheiro de Vorcaro no exterior e cobrança para pôr em votação o impeachment
PRESSIONADO - Alcolumbre: dinheiro de Vorcaro no exterior e cobrança para pôr em votação o impeachment (Andre Borges/EFE)
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Um dia após autorizar a divulgação das descobertas, veio a público a informação de que o próprio Mendonça se reunira com o ex-banqueiro para tratar de um assunto de interesse do Master. Além disso, foi divulgado que um juiz auxiliar do gabinete do relator colheu um depoimento de Vorcaro sem a presença de um representante da PF. Mendonça confirmou o fato, mas alegou que não houve perguntas sobre Moraes. Na ocasião, como revelou a coluna Radar, de VEJA, o ex-banqueiro reclamou da resistência da PF e da PGR em aceitar seu pedido de delação premiada. “Tenho muito a relatar, mas não querem me ouvir”, disse.

DAY AFTER - Plenário: clima de descontração e silêncio na primeira sessão realizada após a crise
DAY AFTER – Plenário: clima de descontração e silêncio na primeira sessão realizada após a crise (Brenno Carvalho/Agência O Globo/Agência O Globo)

Na arena política, as novidades sobre o caso Master fizeram a oposição aumentar a pressão para que Davi Alcolumbre coloque em votação o pedido de impeachment de Moraes. O presidente do Congresso, a quem Vorcaro diz em sua confissão ter pago 30 milhões de dólares no exterior, segundo reportagem de VEJA, segue resistindo. “Todo mundo esqueceu que pediram 130 milhões para a mesma pessoa para fazer um filme. E agora o culpado sou eu e o ministro Alexandre de Moraes”, afirmou ele na quarta 2, citando o caso do financiamento do filme em homenagem a Jair Bolsonaro com dinheiro de Vorcaro — o inquérito corre também aos cuidados de Mendonça.

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No início de agosto, em encontro realizado na casa de Moraes, Alcolumbre esteve com Lula e selou um pacto de reaproximação com o presidente. A campanha do petista à reeleição acusa Mendonça de tentar interferir nas eleições, desgastando Moraes para impulsionar a candidatura de Flávio Bolsonaro — estratégia para tentar desqualificar o trabalho do magistrado, até aqui realizado de maneira correta.

INTERVENÇÃO - Galípolo: presidente do BC era fonte de preocupação para o ex-banqueiro
INTERVENÇÃO - Galípolo: presidente do BC era fonte de preocupação para o ex-banqueiro (Aloisio Mauricio/Fotoarena/.)

O relator do caso Master tem reforçado que seu objetivo é apenas apurar responsabilidades na fraude bancária bilionária — seja de políticos, servidores públicos ou colegas magistrados. O Supremo precisa fazer uma investigação séria sobre os graves indícios de crimes, até para Alexandre de Moraes ter o direito de se defender. O que não pode acontecer é a Corte varrer a história para debaixo do tapete. Ao analisar o caso em plenário, o Supremo mostrará à sociedade se há limites para o corporativismo, para as investigações e o funcionamento das instituições. Espera-se que, diante da encruzilhada, o tribunal escolha o caminho republicano.

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Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011

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