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‘Quem nunca deu um tapa no bumbum do filho?’, diz Bolsonaro sobre Geisel

Pré-candidato à Presidência critica memorando da CIA que informa sobre autorização do general ex-presidente a execuções de opositores da ditadura

Por Da Redação - Atualizado em 11 Maio 2018, 18h13 - Publicado em 11 Maio 2018, 12h25

Pré-candidato do PSL à Presidência da República, o deputado federal Jair Bolsonaro (RJ) criticou nesta sexta-feira (11) o memorando em que, em abril de 1974, o então diretor da CIA informou ao Departamento de Estado dos EUA que o general Ernesto Geisel, penúltimo presidente do Brasil durante a ditadura militar (1964-1985), deu aval à continuidade da “política” de execuções de opositores do regime, adotada por seu antecessor, o general Emílio Gastarrazu Médici.

“Até na tua casa, com todo respeito, de vez em quando você erra. Quem nunca deu um tapa no bumbum do filho e depois se arrependeu? Acontece, tá?”, afirmou Bolsonaro, em entrevista à Rádio Super Notícia. Capitão da reserva do Exército, o deputado costuma dar declarações em que enaltece a ditadura. Ele chegou a dedicar seu voto no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) ao coronel Carlos Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-Codi em São Paulo e notório torturador.

Na entrevista, Jair Bolsonaro buscou desacreditar o documento da CIA, localizado pelo professor de Relações Internacionais da FGV Matias Spektor em consulta no portal do Escritório de História do Departamento de Estado americano, afirmando que não se conhece a íntegra dele. A imprensa brasileira, no entanto, publicou o memorando, disponível neste link.

“Voltaram à carga, né? Um capitão está pra chegar lá, é o momento. Foi um memorando de um agente que a imprensa não divulgou. É um historiador que diz que leu isso, mas não mostrou. Você tem que matar a cobra e mostrar o pau”, criticou. “Um memorando de um agente da CIA, que ninguém viu diz que executamos 104. Aí não vale, aí não vale, vamos tratar com seriedade isso”, continuou.

Na entrevista, o pré-candidato à Presidência ainda relativizou a permissão dada por Geisel e especulou sobre como Willian Egan Colby, então diretor da agência de inteligência americana, obteve as informações.

“O que pode ter acontecido com esse agente da CIA? Quantas vezes você não falou em um canto ali ‘ah, tem que matar mesmo, tem que bater?’ Você já falou. ‘Tem que dar canelada, tem que dar uma de Júnior Baiano [ex-jogador de futebol] e entrar com os dois pés no pescoço do adversário’, você já falou isso. Talvez esse cara tenha ouvido a conversa, fez o relatório e mandou. Agora cadê os 104 mortos?”, declarou.

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O relato sobre o aval de Ernesto Geisel a execuções sumárias de opositores do regime militar foi extraído do memorando de Colby ao secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, datado de 11 de abril de 1974. Trata-se de um dos milhares de documentos da relação dos Estados Unidos com a América do Sul entre 1969 e 1976 mantidos em confidencialidade por mais de quatro décadas e que, desde dezembro de 2015, estão disponíveis para consulta pública.

Conforme o memorando, a autorização para a continuidade do extermínio de opositores foi dada por Geisel em 1º de abril de 1974. Dois dias antes, em uma reunião, o então chefe do Centro de Inteligência do Exército (CIE), general Milton Tavares de Souza, informou o presidente sobre as execuções de 104 pessoas pelo CIE durante o governo Médici e pediu pediu o aval dele para manter a “política”.

O documento afirma que Ernesto Geisel concordou e informou ao chefe do Serviço Nacional de Inteligência (SNI), general João Batista Figueiredo, para a continuidade das execuções de “subversivos perigosos”. Geisel recomendou a Figueiredo ter um “grande cuidado” para que os assassinatos ocorressem apenas nesses casos. O presidente ainda instruiu o general, que o sucedeu na Presidência da República em 1979, a dar sua autorização a cada execução levada a cabo pelo CIE.

Guerrilha do Araguaia

Na entrevista em que atacou o conteúdo do memorando da CIA ao Departamento de Estado dos EUA, Jair Bolsonaro também citou o combate da Guerrilha do Araguaia pelo Exército, na primeira metade da década de 1970, e afirmou que “ou a gente botava pra quebrar, ou o Brasil estava perdido”.

“O momento era outro, naquele momento. Ou a gente botava pra quebrar ou o Brasil estava perdido. Entrou a questão da Guerrilha do Araguaia agora também. ‘Ah, mataram 69 agentes’. Esse pessoal foi pra aquela região não foi à toa. Toda guerrilha, quer seja em Cuba, quer seja na China, veio do campo pra cidade”, disse o pré-candidato à Presidência.

Para Bolsonaro, as mortes dos guerrilheiros na região entre o Pará e Tocantins e a falta de “humanismo” evitaram o nascimento de “uma Farc no coração do Brasil”.

“Se nós tivéssemos agido como a Colômbia, com humanismo ao tratar esse foco de guerrilha no coração do Amazonas, nós teríamos no coração do Brasil uma Farc. E graças aos militares daquela época não temos uma Farc no coração do Brasil. Esse pessoal que diz que matamos naquele momento, caso estivessem vivos por um motivo qualquer, hoje estariam presos acompanhando o Lula lá em Curitiba ou o Zé Dirceu que tá na iminência de ser preso”, completou.

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