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Promotor ‘Harry Potter’, o pesadelo do goleiro Bruno

Alvo de ironias dos advogados de defesa, Henry Wagner Vasconcelos Castro impressionou o júri com a capacidade de memorizar citações das 15.000 páginas do processo

Por Leslie Leitão 4 dez 2012, 09h10

“Estudei todos os dias desde 4 de julho, quando assumi efetivamente a ação. Quando dava para ficar lendo uma hora, eu lia uma hora. Quando tinha tempo para ficar cinco, ficava cinco”, diz

Os óculos arredondados, a aparência de nerd e a sonoridade do nome renderam ao promotor Henry Wagner Vasconcelos Castro o apelido de Harry Potter – piada criada por seus rivais do momento, os advogados de defesa dos acusados da morte de Eliza Samudio. Aos 35 anos, Henry passou há muito da fase em que essa forma de ‘bullying’ poderia atrapalhar em seu trabalho. Mas, para não perder de vista a brincadeira com Hogwarts – a escola de magia onde se passam as histórias criadas pela escritora J.K. Rowling -, é possível dizer que Henry Castro enfrentou todo tipo de feitiçaria ao longo dos últimos quatro meses, quando assumiu o caso. Nos tribunais, ele tenta provar que o goleiro Bruno Fernandes e seus amigos sequestraram e mataram a jovem, cujo corpo jamais foi encontrado.

A primeira batalha foi vencida pelo “CDF” potiguar, de sotaque carregado e fala pausada. Ao fim de cinco dias de exaustivos debates no Fórum de Contagem, Henry Castro provou, com ajuda de uma confissão do réu Luiz Henrique Ferreira Romão, o Macarrão, que Eliza está morta. E a condenação de Macarrão por homicídio foi uma espécie de feitiço contra o feiticeiro para a defesa, orientada pelo mentor Ércio Quaresma e, desde o mês passado, integrada também pelo criminalista Lúcio Adolfo. Macarrão confessou depois de ser deixado à própria sorte no júri, a partir de manobras que levaram ao adiamento dos julgamentos do goleiro Bruno Fernandes, o principal acusado do crime, e do ex-policial Marcos Aparecido dos Santos, o Bola. Junto com a ex-mulher do jogador, Dayanne Souza, eles serão julgados a partir de 4 de março de 2013.

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Apesar da forte carga emocional que está em jogo no momento em que acusação e defesa tentam convencer os sete jurados, no júri não há magia. A fórmula de Henry Castro para sustentar a acusação e não se deixar envolver nas artimanhas da defesa começou com quatro meses de dedicação diária às 15.000 páginas do processo sobre o sequestro e a morte de Eliza – uma trama intrincada, repleta de detalhes como números e horários de ligações de telefones celulares, trocas de carro no caminho entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais e muitas versões conflitantes, algumas delas apresentadas em momentos diferentes pelos mesmos réus.

Henry Castro sabe que o Caso Bruno marca sua trajetória no Ministério Público. Mas não pela diferença na carga de trabalho. Antes da chegada da trupe do goleiro Bruno e das dezenas de jornalistas ao Fórum de Contagem, o ‘Harry Potter’ fazia em média três júris por semana. É o jeito de dar vazão aos 3.000 processos de assassinato acumulados na Vara de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte.

Passar horas entre pilhas de livros é um hábito que vem desde a infância em Natal. Henry era o melhor aluno da escola, e logo após concluir o segundo grau técnico passou na terceira colocação geral (1º do curso de Direito) para a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sendo naturalmente o orador da turma no dia da formatura. A facilidade que sempre demonstrou para lidar com a história – ele chegou a dar aulas antes de ingressar no MP – e a capacidade de memorização se repetiram na hora de citar, sem recorrer aos papéis, trechos dos 60 volumes do processo da morte de Eliza Samudio. Se os advogados de defesa tinham truques e tentavam retardar o andamento do júri, Henry Castro tinha horários, nomes, sobrenomes e datas na ponta da língua.

“Estudei todos os dias desde 4 de julho, quando assumi efetivamente a ação. Quando dava para ficar lendo uma hora, eu lia uma hora. Quando tinha tempo para ficar cinco, ficava cinco”, conta.

Henry não sabia. Mas durante as duas horas e meia de debate no júri do caso Bruno era assistido por um lendário promotor. Francisco Santiago é o recordista de júris no Brasil, com 1.653 atuações diante dos jurados. Estava boquiaberto com a atuação do ‘calouro’. “Nunca vi um menino usar tanto as antenas, ter tanto domínio de uma investigação. A defesa pode ficar falando um mês ali sem parar que não reverte isso. Estão os dois condenados”, profetizava, horas antes do anúncio das penas de Macarrão e Fernanda.

As antenas a que se refere Santiago são parte fundamental da elucidação do crime. Os registros de conversas telefônicas usados pelas investigações nos dias de hoje são capazes de identificar não só os números e horários envolvidos, mas também a posição dos telefones celulares utilizados nos diálogos. Através dos dados das antenas repetidoras do sinal dos celulares, é possível chegar à localização de cada aparelho – desde que os números sejam traduzidos por especialistas. Nas mãos do promotor, a sopa de códigos e números se transformou em um roteiro de cada um dos réus no período entre 4 e 10 de junho de 2010, quando Eliza foi sequestrada no Rio, levada para o sítio do goleiro, em Minas, e morta na casa do ex-policial Bola, em Vespasiano.

Henry é metódico, extremamente educado e gentil no trato com seus pares. É essa a imagem do promotor até o momento em que se posiciona no plenário. A partir do momento em que seu raciocínio enfrenta o relógio, nos prazos rigorosamente proporcionais estabelecidos pela presidência do júri, o promotor se transforma em um acusador incisivo, capaz de elevar o tom de voz, corar e extrair da garganta uma energia que faz saltar as veias do pescoço. O julgamento dos réus do Caso Bruno foi uma das raras audiências que a mulher de Henry decidiu acompanhar. Arrependeu-se. Saiu assustada e sem reconhecer no agressivo orador a figura do marido. “Mas ela é psicóloga, entende”, brinca Henry Castro, já fora do plenário.

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Pior é a situação dos réus. Fernanda Gomes de Castro, a amante de Bruno condenada a cinco anos por sequestro e cárcere privado, preferiu não acompanhar a explanação de Henry Castro. Evitou, assim, ouvir a expressão usada por ele para rebater argumentos da defesa de que Fernanda “nada sabia” sobre o que estava tramado para Eliza. “Uma ovelha não fuça o porco. O porco fuça o porco”, disse. Fernanda só voltou quando o tempo do Ministério Público se encerrou. Macarrão, não. Ouviu tudo calado, praticamente sem esboçar reação. Foi chamado de integrante de uma matilha de bandidos e de cínico. O promotor ainda tripudiou da tática que se revelou fracassada no desmembramento dos processos do goleiro Bruno e do ex-policial Bola. “O plano era que, se a casa caísse, cairiam todos juntos. Mas o Bruno abandonou o Macarrão, depois de uma manobra neste júri. Nada mais burro da defesa, porque eu tenho certeza de que, se ‘P…’ (como Bruno se intitulava) estivesse aqui, o Macarrão não teria confessado nada”.

O sarcasmo faz parte das ‘mágicas’ diante do júri. Atacado pela trupe da defesa, ‘Harry Potter’ manteve indiferentes as sobrancelhas por trás dos aros circulares de seus óculos. Mas reagiu com um golpe duro quando o mais novo defensor de Bruno, o atarracado Lúcio Adolfo, afirmou que havia um “acordo” costurado pelo MP para a confissão de Macarrão. “De repente esse sujeitinho ‘tamborete de forró’ entrou aqui perguntando se a promotoria havia feito um acordo. Eu não negocio sangue alheio. E não precisava de confissão alguma para condenar o Macarrão nem os outros”, disse, arrancando alguns risos dos que acompanhavam o julgamento.

O estilo de Henry Castro foi moldado ao longo de 300 júris por cinco cidades do interior de Minas Gerais. Foi na maior cidade do norte do Estado, Montes Claros, que ele passou a chamar a atenção, caçando os principais traficantes da região, conseguindo a condenação dos dois principais criminosos dessa área a quase 30 anos de prisão. Também colecionou inimigos. Três, das muitas ameaças de morte, evoluíram para atentados contra a vida do promotor.

Uma delas, dentro do fórum de Montes Claros. “A polícia interceptou uma ligação e conseguiu prender, na porta do tribunal, o cara que iria me matar dentro do plenário”, conta. “O grande medo da minha mãe é saber que eu não tenho medo. Este é o meu papel”, resigna-se, agora numa função mais bem arriscada do que seus postos anteriores. Henry já foi funcionário da Advocacia-Geral da União com temporadas em Brasília e Fortaleza.

Encerrada a semana de júri que resultou na condenação de Macarrão e Fernanda Gomes, Henry Castro tenta retomar à pilha de processos sobre a mesa. O novo embate com os acusados de matar Eliza está marcado para 4 de março, dessa vez sem chance de adiamento. Os principais advogados de defesa, Quaresma (que defende Bola) e Lúcio Adolfo (que defende Bruno) estarão novamente no júri. Henry Castro não tem dúvida da condenação. “Com todo o respeito, Bruno não tem escapatória”, assegura.

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