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Prefeito de Palmas: ‘Tive a infelicidade de ser filmado’

Petista Raul Filho foi flagrado em vídeo oferecendo vantagens ao contraventor nas eleições de 2004 em troca de doações de campanha. E diz que errou

Por Laryssa Borges e Gabriel Castro - 10 jul 2012, 12h08

O prefeito de Palmas, Raul Filho (PT), negou nesta terça-feira, em depoimento à CPI do Cachoeira, que o bicheiro Carlinhos Cachoeira tenha feito doações de campanha a ele ou recebido favores de sua administração à frente da capital do Tocantins. O petista foi flagrado em vídeo negociando com o contraventor em 2004, quando era candidato. À CPI, ele disse colocar à disposição os sigilos bancário, fiscal e telefônico, mas, ao tentar explicar o teor das imagens, saiu-se com essa: “Só quis colocar para Cachoeira que Palmas é um bom espaço para empreendimentos. Pensei em criar uma expectativa que ele pudesse nos ajudar, o que não se materializou”. Raul Filho ainda afirmou ter errado ao procurar o apoio de Cachoeira. Mas disse que não foi o único: “Eu errei em ter procurado. Tive a infelicidade de ser filmado”.

Na conversa gravada em vídeo, apreendida pela Polícia Federal, o prefeito aparece prometendo “uma série de oportunidades” de negócios a Cachoeira em troca de apoio financeiro. De acordo com a PF, ele recebeu 120 000 reais por meio de uma funcionária do gabinete de sua esposa, a deputada estadual Solange Duailibe (PT). Em outro trecho do vídeo, Raul Filho resume como funcionaria a administração na cidade: “tudo é na base do arranjo”.

“Carlinhos Cachoeira não fez doação para minha campanha”, afirmou o prefeito à CPI. “Nenhuma empresa de Carlinhos Cachoeira prestou serviços emergenciais, nem por dispensa (de licitação), e nem venceu qualquer licitação no meu governo”. Raul Filho disse ainda ter se encontrado com Cachoeira apenas duas vezes – a primeira, antes das gravações, ainda em 1994. Diante das revelações do mais recente vídeo em mãos da CPI, datado de 2004, o prefeito declarou ter gerado “falsa expectativa” ao contraventor, já que não teria dado a ele nenhum benefício do governo de Palmas.

“Não há nada que vincule o esquema Cachoeira com a administração de Palmas”, afimou. “Estamos sendo vítimas. Estão tentando transferir (responsabilidade) para um governo que sempre se pautou pela honestidade e pela ética. Estão nos colocando como boi (sic) expiatório”. À CPI, disse ainda que não sabia das atividades ilícitas do contraventor.

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Depois de eleito, Raul Filho firmou seis contratos com a Delta, empreiteira que está no centro das investigações da CPI do Cachoeira. Quatro deles foram assinados sem licitação. Os contratos previam o recolhimento de lixo na cidade pelo valor total de 119 milhões de reais. Segundo o petista, 70 milhões de reais foram efetivamente pagos até agora.

“Sequer havia comentários de que a Delta tinha qualquer vínculo com Carlinhos Cachoeira”, observou Raul Filho. “A Delta somente atuou em serviços de limpeza pública mais de um ano depois do inicio do governo”. O prefeito citou o julgamento do Tribunal de Contas de Tocantins sobre os contratos na cidade e disse não haver irregularidades. “Procurei evitar dispensa de licitações no meu governo”, resumiu.

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Ainda de acordo com ele, os 120 000 reais pagos pelo grupo de Cachoeira eram um pagamento feito a Pedro Duailibe, irmão e chefe de gabinete de Solange Duailibe. “O Pedro fala que vendeu um equipamento para uma empresa que tinha ligação com a Delta”, disse o prefeito.

A oitiva do petista à CPI foi acompanhada por servidores da prefeitura de Palmas. Um deles, identificado pela secretaria da CPI como Robledo D’Montalverde da Silva Suarte, secretário de Desenvolvimento Social, chegou a interromper o deputado Rubens Bueno (PPS-PR). O funcionário ironizou o parlamentar por fazer perguntas a Raul Filho mesmo tendo afirmado inicialmente que não tinha assistido à integra do vídeo protagonizado pelo prefeito. A intervenção do servidor, imediatamente retirado da sala da CPI, foi alvo de protestos de integrantes da comissão. “É um funcionário ou um jagunço contratado para atemorizar os membros da CPI?”, reclamou Rubens Bueno.

Questionado, o prefeito informou responder a três processos da justiça, um dele sobre supostas fraudes em licitações descobertas pelas operação João de Barro, da Polícia Federal. A operação policial, desbaratada em 2008, cumpriu mandados de prisão em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Rio Grande do Norte, Goiás, Tocantins e no Distrito Federal. No total, 119 prefeituras foram investigadas. No caso de Palmas, os policiais identificaram que Raul Filho cobrava propina.

Isolamento – Durante o depoimento à CPI, Raul Filho não foi blindado por parlamentares de seu partido. Ele não é um petista histórico, já passou por PDS, PFL, PSDB e PPS. Deixou o PPS em 2003 para se filiar ao PT. Em 2004, foi eleito prefeito de Palmas e reeleito em 2008. Em 2011, o Diretório Estadual do partido decidiu expulsar o prefeito da legenda pelo fato de ele ter apoiado a candidatura de João Ribeiro, do PR, ao Senado. O banimento foi anulado na sequência pela direção nacional do partido.

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No início da oitiva, Raul Filho gastou 11 minutos para tratar de ações de seu governo e outros 13 para se defender das denúncias.”Chego com espírito desarmado e afirmo que não procurei quaisquer membros dessa comissão nem do meu partido em busca de proteção”, garantiu. Aos parlamentares da CPI, resumiu: “Nada devo e, portanto, nada temo. Pode ter em mim, até que essas denúncias sejam apuradas, um homem probo. Estou vivendo um momento e terei o momento de provar (inocência)”.

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