Por que presidenciáveis fazem romaria aos ‘donos’ do PIB a cada eleição
Entenda por que candidatos presidenciais se reúnem com a elite econômica e executivos da Faria Lima em busca de apoio para suas campanhas
As cenas são conhecidas. A cada eleição, pululam imagens e relatos de visitas de candidatos à Presidência da República ou representantes de suas campanhas a reuniões, em sua maioria reservadas, com os chamados “donos” do PIB. O leque de anfitriões desses encontros de poderosos vai de entidades setoriais, como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), aos detentores das carteiras de investimentos mais polpudas da Faria Lima.
Para os partidos, seduzir a elite econômica é essencial para viabilizar qualquer projeto de poder. E não será diferente nas eleições de outubro, independentemente da coloração partidária ou das convicções políticas. Diante da expectativa de uma disputa acirrada, esse esforço pode até ser decisivo — para o bem ou para o mal.
Por que, afinal, é indispensável para candidatos, principalmente à Presidência, contar com boa vontade nos círculos com maior influência sobre o PIB?
Segundo o cientista político André César, sócio-fundador da Hold Assessoria Legislativa, ao rodar a Faria Lima e buscar a elite do setor produtivo brasileiro, os postulantes ao Palácio do Planalto almejam abrir portas junto a um grupo que pode ajudá-los na campanha com doações privadas e eventos em que os apresentam a outros empresários poderosos, além de construir pontes e exercer influência política sobre lideranças do Congresso e autoridades do Judiciário.
Para candidatos de esquerda, os convescotes servem também para diminuir a rejeição que historicamente afasta o mercado financeiro de políticos que defendem o Estado como indutor do crescimento econômico e apostam em equilibrar as contas via aumento de arrecadação tributária.
Na avaliação do CEO da consultoria de risco político Dharma, Creomar de Souza, a popularização do universo dos investimentos no mercado financeiro deu a influenciadores e gestores que atuam na Faria Lima a capacidade de, principalmente por meio das redes sociais, construir opiniões eleitorais e até orientar votos.
“O que a gente tem visto nos últimos dias é um esforço da campanha de Flávio Bolsonaro, sobretudo, de tentar construir esse espaço”, afirmou, referindo-se ao giro da ex-presidente da Caixa Daniella Marques, principal conselheira econômica do Zero Um, por endereços do centro financeiro paulistano.
“A campanha do Ronaldo Caiado, do PSD, tem feito um trabalho bem interessante de convencer gente importante de que seu nome é relevante e a experiência pode dar efetivamente algum resultado. Quanto ao governo, na campanha do Lula e no PT, quem melhor conversa com a Faria Lima é Fernando Haddad. Por tradicionalmente conversar mal com essa turma, o Lula tem jogado parado e usado o seu ex-ministro da Fazenda numa dupla função, ao mesmo tempo em que ele disputa o governo de São Paulo”, acrescentou o CEO da Dharma.
Questionados por VEJA sobre as razões que justificam a importância dada às conversas a portas fechadas no centro financeiro paulistano, conselheiros econômicos de candidatos à Presidência como Roberto Brant, da campanha de Caiado, e Kim Kataguiri, aliado de Renan Santos (Missão), explicam que as expectativas do mercado para a atividade econômica e a política fiscal determinam, por meio dos juros futuros de títulos públicos, o custo para o governo federal refinanciar sua dívida, além de terem efeito sobre o preço do dólar e o desempenho da bolsa de valores. Na reação em cadeia, podem afetar a economia real em um horizonte mais curto de tempo, aumentando o custo de vida das famílias e encarecendo o acesso a crédito.
Sócio-fundador da Nord Investimentos, Renato Breia alerta que, se não houver qualquer diálogo dos candidatos com o mercado ou pelo menos uma demonstração de compromisso com o ajuste das contas públicas, “o governo pode perder o seu principal financiador”. “Estamos chegando às eleições com a maior taxa de juros real do mundo. Esquerda ou direita, os candidatos precisam transmitir credibilidade de como vai ser a condução da política econômica”, diz o economista.







