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Poemas de ex-deputado mensaleiro trazem rancor e banalidade

Primeira obra poética de João Paulo Cunha é resultado de seus escritos feitos no presídio, onde cumpre pena pelos crimes de corrupção passiva e peculato

Por Diego Braga Norte Atualizado em 22 out 2020, 18h53 - Publicado em 12 abr 2015, 14h52

Preso e condenado, o ex-deputado federal pelo PT e mensaleiro João Paulo Cunha tentou libertar sua verve poética com versos livres. Fracassou. O verso livre, quando foi importado da Europa pelos modernistas brasileiros, libertou a poesia tupiniquim das amarras formais das métricas fixas. O seu sucesso, sobretudo pelas hábeis mãos de Manuel Bandeira, foi imediato. A poesia, antes considerada uma forma literária elitista e hermética, ganhou uma aceitação até então inédita. Supostamente mais fáceis de serem escritos e assimilados, os versos livres se popularizaram na literatura; mas a despeito da aparente facilidade, é sempre prudente evocar a advertência do poeta modernista americano T.S. Eliot, ele próprio um adepto do verso livre: “não existe verso livre para quem quer escrever bem”.

Outro alerta foi feito por João Cabral de Melo Neto. Preocupado com a má qualidade dos poetas, em uma entrevista datada de 1988, ele vaticinou: “Uma das coisas fatais da poesia foi o verso livre. No tempo em que você tinha que metrificar e rimar, você tinha que trabalhar seu texto. Desde o momento em que existe o verso livre, todo mundo acha que descrever a dor de corno como se fosse um poema. No tempo da poesia metrificada e rimada, você tinha que trabalhar e tirava o inútil”. No caso dos poemas cometidos por João Paulo Cunha, as asas do verso livre não o libertaram, mas o derrubaram, e a impressão que se tem é que a inutilidade transborda.

O livro “Quatro & Outras Lembranças” (Editora Topbooks, 117 páginas, R$ 37,90) é um amontoado de versos escritos pelo ex-deputado durante sua temporada na prisão da Papuda, em Brasília. Condenado a seis anos e quatro meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva e peculato, o ex-presidente da Câmara dos Deputados cumpre pena desde fevereiro de 2014. A reclusão e o afastamento do convívio em sociedade é uma oportunidade de reflexão e conhecimento pessoal que já produziu grandes obras. Do poeta romano Ovídio, passando por Marquês de Sade, Oscar Wilde, Ludwig Wittgenstein, Alexander Soljenítsin e Graciliano Ramos, muitas boas obras já foram escritas em prisões. Definitivamente, o livro de João Paulo Cunha não é uma delas.

Não espere encontrar na obra um mísero sonetinho, tampouco redondilhas elegantes ou métricas mais complexas como um dodecassílabo. Os poemas são, em sua maioria, um aglomerado de frases para contar uma historinha lastimosa ou evocar uma imagem, quase sempre de maneira pobre, pouco inventiva. Agrupados em eixos temáticos – quatro nomes, quatro lembranças, quatro amores e assim por diante -, os poemas de Cunha transitam entre o pedantismo, o rancor e a banalidade, muitas vezes misturando essas três características em apenas algumas linhas: “Declara amor e odeia. / Não quer beijar de novo. (Não aprendeu a beijar, não aprendeu a amar). / Quer correr e cansa antes de começar. Para, descansa e começa de novo. / Tá sempre lembrando do passado para imediatamente renegá-lo. / É assim a menina que habita o meu coração. É meio tudo meio nada.”

Especialmente banal é o conjunto de poemas intitulado ‘quatro meses leminskianos’, composto de minúsculos pastiches da fase concretista de Paulo Leminski que bem poderiam ter sido encontrados em uma porta de banheiro público.

Poemas de João Paulo Cunha

De fato, se analisados sob a ótica infantil alguns versinhos mantêm uma graça pueril, mas suas rimas raras vezes são inspiradas. “Cara de bolacha. / Caranguejo de borracha. / Prenda o cara com tarraxa. / Não deixe ele fugir! / Se ele se desmanchar voltar / e disser que te ama. / Diga que não valeu a pena.” Em outra tentativa: “Do ovo / um gosta da clara / o outro gosta da gema. / No amor um se declara / o outro vai ao cinema.”

Ainda brincando com o concretismo e com o impacto visual das letras, João Paulo Cunha nos brinda com uma composição singular, tão direta na composição espacial e tão singela no conteúdo, que junta herói e vilão de quadrinhos para falar do bem e do mal.

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Poema de João Paulo Cunha

E, por fim, a cereja do bolo, com uma sonoridade possivelmente inspirada na brincadeira infantil que questiona: “setembro chove?”.

Poema de João Paulo Cunha

Referências — No quesito rancor, nota-se que João Paulo Cunha está magoado com muitas pessoas e esses sentimentos são externados aqui e acolá ao longo dos poemas. Pena que o autor não nos revela nomes e situações concretas, talvez porque tais informações poderiam render outros processos e possíveis novas condenações. Não há, no entanto, menções a arrependimentos. “Como sofro nos dias atuais. / Quase não vivo. Me arrasto! / Vivo pelas tabelas da vida jogado de lá pra cá. / Sou quase um morto e meio que vivo.”

As lamentações ficam um pouco mais interessantes quando são feitas alusões a companheiros e traições, mas não salvam os poemas de Cunha. “Que a desilusão ronda nossas amizades. / E que a traição rima com adeus. / É tempo de quem se vai. Pouca gente volta.” Outro exemplo: “Não reconheço gente. Meus amigos se foram: uns morreram, outros se trancaram em casa e um se trocou por prata.” E, em meio a tanto rancor, abre-se espaço no coração peludo do poeta para a vingança: “A vingança me consome. Corrói as minhas vísceras tornando o fel o viajante das minhas veias. / Esmurro a parede pra ninguém ouvir. Nem eu!”.

Possíveis referências aos juízes do Supremo Tribunal Federal que o condenaram aparecem em um dos poemas, cheio de rancor, claro. “Falam um idioma estranho / num dialeto diferente. / Se vestem como os Bourbons / escovam o cabelo como Maria Antonieta / empostam a voz como tenores / e fingem às suas vítimas. São algozes! (Próximos de matadores de aluguel).”

A referência mais perturbadora, no entanto, está em um poema sobre a traição. O poeta refere-se a um companheiro importante que se lambuzou de poder e o traiu, mas não revela seu nome. Leiam-no e façam suas próprias associações.

“Ofereci meus ombros. / Como escada ele subiu. / Minhas mãos tocaram a música dos seus sonhos. Ele dançou. / Enxuguei seu rosto do suor do meu trabalho. / Abri caminho para ele passar. / Na hora da porrada a cara era a minha. / Fui seu irmão seu amigo e companheiro. / De braços dados caminhamos. Seu sofrimento foi o meu choro. / Mais um dia eles chegaram. Trouxeram prata, espelho e um trono. / Da prata ele fez anel, moeda e a placa do seu carro. / No espelho reviu seu rosto, penteou seu cabelo e arrumou a gola da camisa. / Dormiu no trono / acordou rei / vestiu sua túnica encarnada / colar de ouro branco / e uma nova princesa. / Um dia encontrou comigo. Me deu um beijo. / Virou as costas e partiu. Lembrei de Jesus e as 30 moedas.”

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