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PF deflagra 26ª fase da Lava Jato e mira Odebrecht

Xepa, a ação desta terça-feira, é um desdobramento da fase que prendeu marqueteiro do PT, João Santana. Agentes cumprem 110 mandados em oito Estados e no Distrito Federal

Por Rodrigo Rangel e Laryssa Borges, de Brasília 22 mar 2016, 07h09

A Polícia Federal deflagrou na madrugada desta terça-feira a 26ª fase da Operação Lava Jato, batizada de Xepa, cujo principal alvo é a empreiteira Odebrecht. Agentes cumpriram mandados em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Piauí e Distrito Federal. Pela manhã, integrantes da força-tarefa da Lava Jato explicaram, na sede da Polícia Federal em Curitiba, como funcionava parte da estrutura profissional de pagamento de propina montada pela Odebrecht.

A investigação revelou que a empreiteira tinha funcionários especialmente dedicados ao setor de contabilidade paralela, chamado de “Setor de Operações Estruturadas”, que distribuiu, pelo menos, 66 milhões de reais em propina entre mais de 20 pessoas, entre eles o marqueteiro do PT, João Santana, e a mulher dele, Mônica Moura. “Ficou claro que a empresa Odebrecth realmente tinha um setor que organizava e contabilizava, com sua hierarquia e alçadas, o pagamento de propinas. Além disso, verificamos que boa parte dessas propinas era paga em dinheiro no Brasil com o sistema de compensação com contas no exterior”, afirmou Carlos Fernando dos Santos Lima, procurador Ministério Público Federal.

Obras construídas pela Odebrecht como o Canal do Sertão em Alagoas, o metrô de Porto Alegre, o aeroporto de Goiânia, a Arena do Corinthians e o projeto do Porto Maravilha no Rio de Janeiro foram citadas nas investigações. “Há indicativos de que os recebedores se referem a diversas obras do governo federal e de outros governos estaduais e municipais. Teremos que aprofundar esses dados e encaminhar essas informações a seus respectivos investigadores”, disse o procurador. “É claro que a Lava Jato tem o foco básico na Petrobras, mas trabalhamos no combate à corrupção. Tendo provas, seja qual for o partido ou o governo, vamos dar encaminhamento às investigações.”

Cerca de 380 policiais federais cumprem 110 mandados: 67 de busca e apreensão, 28 de condução coercitiva, 11 de prisão temporária e 4 de prisão preventiva. A ação batizada Xepa, é um desdobramento da 23ª fase da Lava Jato, a Operação Acarajé, que prendeu João Santana e Mônica Moura. O casal aparecia em planilhas de pagamento da Odebrecht identificados pelo codinome ‘Feira’.

De acordo com a PF, há indícios concretos de que a Odebrecht se utilizou de operadores financeiros ligados ao mercado paralelo de câmbio para efetuar os pagamentos ilegais. Os alvos desta operação são investigados pelos crimes de corrupção, evasão de divisas, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

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Carlos Fernando dos Santos Lima confirmou a participação de Marcelo Oderbretch, presidente da empreiteira, no esquema. “A investigação reforça a convicção que Marcelo Oderbretch não só tinha conhecimento dessa sistemática de propina, como a comandava”, afirmou.

O delegado da PF Márcio Adriano Anselmo informou que os pagamentos de propina foram realizados em vários pontos do Brasil, especialmente em flats, hotéis e residências, por pessoas ligadas à empreiteira. A investigação revelou que o sistema de propina continuou funcionando até dezembro de 2015, cerca de seis meses depois de Marcelo Odebretch ter sido preso na 14ª fase da Lava Jato.

Delação – O MPF descobriu a existência da contabilidade paralela da Odebrecht graças a documentos encontrados na casa de Maria Lucia Guimarães Tavares, presa na 23ª fase, que trabalhava como secretária dos executivos da empresa e recentemente firmou acordo de delação premiada. “Se chegou a observar a movimentação de 9 milhões de um dia para outro em dinheiro em espécie”, informou a procuradora Laura Gonçalves Tesser.

Os investigadores revelaram que a maior parte das provas foi destruída em meados de 2015, mas o esquema seguiu funcionando até dezembro, o que leva a crer que a quantia de propina distribuída deve exceder os 66 milhões de reais identificados em apenas uma das contas disponibilizadas por Maria Lúcia.

“Se observou que eram utilizados funcionários antigos, que haviam demonstrado fidelidade e confiança com a diretoria da Oderbretch e eram muito bem remunerados para este tipo de atividade. Foram adotadas medidas para retirar essas pessoas do Brasil, desde os grandes empresários às secretárias, que também foram convidadas a morar no exterior, para proteger a instituição e atrapalhar as investigações”, afirmou Laura Gonçalves Tesser.

Em nota, a Odebrecht afirmou nesta terça-feira que tem prestado todo o auxílio nas investigações em curso e colaborando com os esclarecimentos necessários.

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