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‘PB’: o petista ‘boa gente’ que comandava a propina

Paulo Bernardo, um dos quadros moderados do petismo, comandou ministérios de Lula e Dilma e atuava nos bastidores como cabeça de um propinoduto

Por Laryssa Borges 23 jun 2016, 18h19

Egresso do sindicalismo, onde liderou greves e ascendeu à vida política, o ex-ministro Paulo Bernardo Silva, preso hoje por ordem do juiz Paulo Bueno de Azevedo, sempre foi considerado um petista low profile. De perfil debochado, ‘PB’, como era apontado em planilhas de propina de empreiteiros do petrolão, era publicamente conhecido como um político “boa gente”, sem radicalismos ou arroubos de retórica. No submundo dos contratos com a administração pública, porém, o Ministério Público atribui a ele o papel de “encabeçar” e recolher com desenvoltura milhões de reais em propina para si e para sua “Loura”, apelido utilizado pela presidente afastada Dilma Rousseff para se referir à senadora Gleisi Hoffmann, com quem Paulo Bernardo é casado há quase vinte anos.

Entre petistas, já era conhecida a atuação do casal Gleisi-Paulo Bernardo no propinoduto instalado na Petrobras. O deputado cassado André Vargas (ex-PT-PR), que operava para a dupla e se autointitulava “um homem muito influente no partido”, sempre ameaçou, desde que foi escanteado pela própria legenda, detalhar como Paulo Bernardo se beneficiava do esquema de corrupção. Além da atuação da quadrilha alojada no Ministério do Planejamento – operação que rendeu mais de 100 milhões de reais em propina, conforme levantamento dos investigadores da Operação Custo Brasil -, petistas apontam que o casal detinha tentáculos também na Itaipu Binacional. Durante meses, Gleisi pressionou Dilma para que nomeasse o marido para um cargo em Itaipu, o que só não ocorreu porque o ex-ministro Aloizio Mercadante atuou para barrar.

Paulo Bernardo foi descrito pelo senador cassado Delcídio do Amaral como um dos “melhores captadores de recursos” para os cofres do partido, boa parte deles destinada à campanha de Gleisi – ela é investigada na Operação Lava Jato por suspeita de desvio de 1 milhão de reais do doleiro Alberto Youssef, pivô da Lava Jato.

Delcídio, ex-líder do governo Dilma que até há pouco dividia bancada com Gleisi Hoffmann, disse já na condição de delator da Lava Jato que era de “notório conhecimento” a relação da senadora com a Consist, empresa que atuava em fraudes de prestação de serviços de informática para gestão de empréstimos consignados e recolhia milhões em propina para políticos. Pelos cálculos preliminares dos investigadores, o esquema capitaneado pelo ex-vereador do PT Alexandre Romano, conhecido como Chambinho, repassou pelo menos 5,6 milhões de reais em propina a Bernardo por meio de contratos fictícios. A Consist, disse Delcídio, era o “braço financeiro” do casal.

Ainda segundo o ex-senador do PT, o modus operandi de Paulo Bernardo e da Consist remonta ao início dos anos 2000, quando ele ocupou a secretaria estadual de Fazenda de Mato Grosso do Sul, à época comandada por Zeca do PT, e Gleisi, a Secretaria de Reestruturação Administrativa. A atuação da dupla Gleisi-Paulo Bernardo em operações suspeitas inclui ainda, de acordo com Delcídio do Amaral, a gestão da senadora paranaense à frente da Casa Civil em concessões do Porto de Santos e como diretora financeira de Itaipu.

Sem foro privilegiado, o ex-chefe do Planejamento e das Comunicações se livrou de cair nas mãos do juiz Sergio Moro depois de o Supremo Tribunal Federal ter considerado que o esquema Consist não está incluindo no bilionário escândalo do petrolão. Ainda assim, a Justiça considerou hoje que, no caso de Paulo Bernardo, “o risco de realização de novos esquema de lavagem é expressivo”.

“A corrupção de quantias expressivas representa um perigo invisível para a sociedade, que acaba se tornando vítima sem o saber”, resumiu o juiz Paulo Bueno de Azevedo ao mandar o ex-ministro de Lula e Dilma para atrás das grades.

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