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Os sinais de alerta no horizonte do governo Bolsonaro

A combinação do fim do auxílio emergencial com problemas econômicos e a queda da popularidade do presidente preocupam o Planalto

Por Daniel Pereira Atualizado em 20 nov 2020, 10h20 - Publicado em 20 nov 2020, 06h00

Desde a divulgação dos resultados do primeiro turno, Jair Bolsonaro tenta rechaçar a tese de que saiu derrotado nas eleições municipais. Mas os dados — com os quais o presidente, um negacionista por excelência, tem o hábito de duelar — são eloquentes. Dos 59 candidatos apoiados publicamente por ele, apenas doze foram eleitos e dois avançaram para o segundo turno. Em grandes colégios eleitorais, como São Paulo e Recife, concorrentes considerados competitivos despencaram nas pesquisas após receber a bênção do mandatário e acabaram derrotados. Nenhum dos apadrinhados pela primeira-dama Michelle Bolsonaro venceu nas urnas. Já o vereador Carlos Bolsonaro até conseguiu com folga um novo mandato, mas recebeu 35 000 votos a menos do que no pleito anterior. A onda bolsonarista de 2018 refluiu em 2020. Como a eleição municipal guarda geralmente pouca relação com a sucessão presidencial, é um desatino cravar que a candidatura à reeleição de Bolsonaro está ameaçada. Mesmo assim, há sinais de alerta no horizonte do presidente.

Um deles diz respeito ao nível de aprovação do governo nas capitais. Pesquisa do Ibope revelou que, desde o início da atual campanha eleitoral, a avaliação positiva caiu em sete dessas cidades, com destaque para Salvador, onde o índice de ótimo e bom passou de 18% para 11%. Segundo o instituto, a aprovação da gestão Bolsonaro supera a reprovação em metade das capitais. Na outra metade, ocorre o contrário. O problema para o presidente é que ele está em desvantagem justamente na parcela que reúne, entre outros, os cinco maiores colégios eleitorais do país. Dados do Datafolha corroboram essa situação e mostram que em São Paulo e Belo Horizonte a aprovação do governo caiu para além da margem de erro. “O Bolsonaro não está bem nas capitais. Sua capacidade nos grandes centros é pequena. Essa é uma informação importante”, diz o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), que trabalha pela construção de uma candidatura de centro (ou centro-direita) em 2022 — de preferência, com o apresentador Luciano Huck na cabeça da chapa. “O auxílio emergencial teve impacto positivo para Bolsonaro nas cidades médias e pequenas, não nas grandes”, acrescenta o deputado.

FANTASMA - Auxílio emergencial: o fim do benefício é a maior fonte de preocupações do governo – Antonio Molina/Fotoarena

A dúvida no meio político é se a queda na aprovação nos maiores municípios vai se espraiar Brasil adentro. O auxílio emergencial é peça-chave nesse enredo. Em tese, o benefício, que garantiu a Bolsonaro o apoio circunstancial de setores da população que antes lhe negavam voto, inclusive na região Nordeste, acaba em dezembro. O governo quer mantê-lo no próximo ano, mas ainda não encontrou uma forma de custeá-lo. Comandada pelo ministro Paulo Guedes, a equipe econômica defende a criação de um tributo para financiar a iniciativa. Até aqui, o Congresso se recusa a aprová-lo. Diante disso, o núcleo mais político da administração Bolsonaro flerta com a possibilidade de flexibilizar o teto de gastos a fim de levantar os recursos necessários — um desastre para a economia. Para o cientista político Malco Camargos, professor da PUC de Minas Gerais e diretor do Instituto Ver, Bolsonaro perderá o apoio do mercado financeiro se adotar uma solução fura-teto.

Essa é exatamente a tese esgrimida por Guedes, que chegou a dizer que quem aconselha o presidente a “pular a cerca” pode levá-lo para uma “zona sombria, uma zona de impeachment, de irresponsabilidade fiscal”. “Da mesma forma que o auxílio emergencial serviu para aumentar a popularidade do presidente, servirá para aumentar sua rejeição à medida que o dinheiro ficar escasso ou acabar. Pensando nas limitações orçamentárias que o país vive, a grande dificuldade será manter alguma forma de distribuição de renda por tanto tempo”, observa Camargos. Já o cientista político Antonio Lavareda acredita que o presidente, apesar de ter consciência dos riscos de uma política fiscal mais frouxa, optará pela continuidade do desembolso do benefício. Até porque os partidos dificilmente votarão contra a extensão do auxílio. O PT, por exemplo, já defende a prorrogação e a volta do valor, hoje de 300 reais, para 600 reais. “É algo que o Bolsonaro não sabia o que era: ter a admiração de quem não necessariamente compartilha de seus pensamentos radicais. Tenho certeza de que ele não vai abrir mão de manter esse segmento. Para saber se será bem-sucedido, vamos precisar de um pouco mais de tempo”, completa Lavareda.

CARESTIA - Alimentos: a inflação desses itens é de quase 10% em 2020 – Bruno Rocha/Fotoarena

O curioso desse embate é que os técnicos da Economia querem convencer o presidente de que o cálculo feito pelos políticos está errado. Os técnicos alegam, acertadamente, que a prorrogação do auxílio com desrespeito ao teto de gastos servirá de combustível para o consumo familiar, mas que esse ganho será quase irrelevante diante das consequências negativas. Entre elas, a desorganização das contas públicas, a perda de credibilidade do governo perante os investidores, além de aumento dos juros, da inflação e do desemprego. Neste ano, a inflação oficial ficou, até outubro, em 2,22%. Já a inflação dos alimentos no mesmo período é de quase 10%. Com trinta anos de carreira política, Bolsonaro sabe como a carestia pode impactar o humor dos eleitores. “Quem elege o presidente é a economia. Existe uma vontade muito grande de implementar o novo Bolsa Família, e nós temos de criar as condições para que seja implementado”, declara o senador Ciro Nogueira, presidente do Progressistas.

De acordo com Nogueira, a base governista está disposta a estudar cortes de despesas e a criação de impostos para manter o auxílio sem desrespeitar o teto. “Precisamos dar estabilidade para o presidente crescer e buscar as fontes para o auxílio emergencial. Aí, ele estará eleito no primeiro turno”, afirma o senador. Desde que saiu do PSL e aderiu ao pragmatismo político, Bolsonaro tem em sua base parlamentar partidos do chamado Centrão, como Progressistas, PSD e Republicanos, que cresceram na eleição municipal, considerando-se o número de prefeituras conquistadas. Esse desempenho nas urnas foi usado por ministros para defender a tese de que o presidente saiu vitorioso no pleito. É uma avaliação que pode ser real hoje, mas não necessariamente amanhã. Historicamente, as alianças com os integrantes do Centrão são de ocasião. O grupo esteve com Dilma Rousseff antes de aderir ao processo de impeachment que levou Michel Temer ao poder. Em 2022, marchará ao lado de quem tiver mais chance de vencer e, ao mesmo tempo, oferecer o maior dote pela aliança. O Centrão pode, inclusive, dividir-se para embarcar em diferentes candidaturas. O caminho para a campanha à reeleição do presidente é longo, depende de muitas variáveis, mas já se apresenta repleto de obstáculos.

Colaborou Nonato Viegas

Publicado em VEJA de 25 de novembro de 2020, edição nº 2714

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