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Os erros no combate à Covid-19 ameaçam a onda de líderes de direita

Decisivos na derrota de Trump, equívocos na pandemia põem em xeque trajetórias de políticos populistas que seguiram os passos do americano

Por João Pedroso de Campos Atualizado em 8 jan 2021, 18h25 - Publicado em 8 jan 2021, 06h00

A década de 2010 foi marcada pela ascensão do populismo de direita no mundo, incluindo o Brasil, onde o movimento levou ao poder um azarão em 2018, o deputado federal Jair Bolsonaro. Antes, em 2016, nos Estados Unidos, o mesmo tipo de descontentamento com o establishment político havia colocado na Casa Branca o bilionário e controvertido empresário Donald Trump, um estreante em eleições. Enredos semelhantes foram vistos em países da Europa, como Itália, Polônia e Hungria. O fenômeno também esteve por trás da agitação que produziu o Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia. Mas esse movimento que parecia fadado a se expandir com velocidade ainda maior sofreu um primeiro revés significativo, na forma da derrota de Trump na eleição de novembro de 2020. Marcada pelas cenas condenáveis de seus apoiadores invadindo o Capitólio, sede do Congresso, na última quarta-feira, 6, para impedir a certificação da vitória do democrata Joe Biden, a queda do líder americano acendeu o sinal amarelo para o futuro desse neopopulismo.

A desgraça de Trump começou com o avanço de uma nova doença que corroeu rapidamente sua popularidade. No começo de 2020, o republicano aparecia como favoritíssimo à reeleição. Boa parte de sua derrocada pode ser creditada à postura equivocada e irresponsável diante da ameaça do coronavírus, uma conta que pode ser paga também por outros líderes. Em Nova York, dois meses antes das eleições americanas, em uma Assembleia-­Geral da ONU esvaziada pela pandemia, veio do secretário-geral, o português António Guterres, o alerta: “Devemos ser guiados pela ciência e amarrados à realidade. O populismo e o nacionalismo falharam. Essas abordagens para conter o vírus geralmente tornam as coisas piores”.

Sem citar nomes, a estocada de Guterres pareceu um puxão de orelha nos líderes que falariam depois — os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos, países com mais mortos pela Covid-19. Em seu pronunciamento, gravado em Brasília, Bolsonaro ecoou ao mundo as sandices que os brasileiros já se acostumaram a ouvir: a acusações de politização da crise, a minimização da pandemia e uma menção honrosa à hidroxicloroquina. Na fala de Trump, da Casa Branca, ataques à China e à Organização Mundial da Saúde.

Repletos de obscurantismo, os discursos expuseram a incompetência com que dois dos principais líderes de direita do mundo conduziram o combate à maior crise sanitária em um século. O erro de minimizar a doença foi captado antes por líderes conservadores mais atentos, como o britânico Boris Johnson, que recebera a pandemia com o mesmo discurso negacionista. “Apertei a mão de todos”, chegou a dizer após ir a um hospital de infectados. Nem todos os políticos da frente populista aceitaram recuar. Até agora, por exemplo, Bolsonaro mantém o discurso negacionista mesmo com o país à beira das 200 000 mortes. Paradoxalmente, ele viu a popularidade aumentar, impulsionada pelo auxílio emergencial, e segue como favorito para 2022. “Há um descrédito da oposição, em especial da esquerda lulopetista, e esperança no campo econômico, apesar do coronavírus e de seus efeitos imediatos”, avalia o analista político peruano Álvaro Vargas Llosa, coordenador do livro El Estallido del Populismo (A Eclosão do Populismo), com textos de vários autores sobre a recente onda conservadora.

BOLSONARO - o fim do auxílio emergencial e as incertezas na economia podem complicar seu futuro -
BOLSONARO – o fim do auxílio emergencial e as incertezas na economia podem complicar seu futuro – Alan Santos/PR

Mas há nuvens carregadas no horizonte bolsonarista. A incerteza sobre o que virá no lugar do auxílio emergencial, o recuo de 40% para 35% entre setembro e dezembro na taxa daqueles que consideram o seu governo ótimo ou bom, segundo o Ibope, e o desempenho pífio de quem ele apoiou nas eleições municipais colocam em dúvida a sustentabilidade dessa popularidade e criam alguma pressão sobre o presidente, ainda mais em um momento em que a recuperação econômica fica embaçada pelo atraso no início da vacinação, provocado em grande parte por sua própria postura.

Analistas ressaltam que, após a imunização da população, o debate pode até passar a ser apenas sobre economia, e o populismo tem a esperança de se beneficiar a médio prazo ao se contrapor ao suposto fracasso de políticas adotadas pelos moderados na crise sanitária. Bolsonaro, por exemplo, aposta que o eleitor reconhecerá que ele foi contra a paralisação da atividade econômica e que fez seguidos alertas sobre as consequências dessa estratégia. Na França, a líder da extrema direita, Marine Le Pen, continua sendo a maior adversária do presidente Emmanuel Macron, cuja condução do combate à Covid-19 recebeu críticas pelos seus efeitos econômicos.

Os sinais de dificuldades para os populistas vêm de várias partes. Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria e outra referência de Bolsonaro, já enfrenta percalços: três institutos de pesquisa destacaram que em dezembro a oposição superou o seu partido na preferência do eleitorado pela primeira vez em dez anos. “Isso se deve principalmente ao impacto econômico do vírus e à percepção de que o governo não está lidando com a crise como deveria”, diz Tibor Zavecz, chefe da Zavecz Research. Na Polônia, o presidente Andrzej Duda, aliado de Orbán e de Bolsonaro, passou a pandemia se equilibrando entre o discurso contra imigrantes, gays e a imprensa e a criação de um polpudo programa de socorro financeiro a empresas e trabalhadores afetados pela Covid-19 — ainda assim, reelegeu-se com a margem mais apertada da história do país no pós-comunismo: 51% a 49%, contra o liberal Rafal Trzaskowski, prefeito de Varsóvia, reduto eleitoral da oposição. O fato é que a pandemia levou à lona o mais proeminente dos neopopulistas, Trump, e seus desdobramentos representam risco real àqueles que mimetizaram o seu comportamento. O cenário eleitoral pós-pandemia vai ganhando cada vez mais a cara de plebiscito sobre a crise sanitária.

Publicado em VEJA de 13 de janeiro de 2021, edição nº 2720

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