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O vexame de Agnelo

Nem mesmo a articulação do PT na reta final da campanha foi capaz de empurrar o atual governador para o segundo turno. Agnelo saiu da disputa com apenas 20% dos votos

Por Marcela Mattos - 5 out 2014, 23h57

Sem surpresas, as eleições no Distrito Federal serão decididas no segundo turno sem a presença do atual governador, Agnelo Queiroz (PT). O petista, mesmo tendo à disposição a maior estrutura partidária, recebeu apenas 20% dos votos e encerra o mandato como o primeiro governador do DF derrotado ainda no primeiro turno. Mais: nestas eleições, Agnelo foi o único governador do país a deixar a disputa com a medalha de bronze.

Médico, Agnelo assumiu o governo em 2011 com a promessa de melhorar o Sistema Único de Saúde na capital do país – mas fracassou em sua principal bandeira. Embora seja a unidade da federação que mais investe em saúde por ano – tem um gasto anual de 1.042,20 reais por pessoa -, o DF registra o pior número de leitos e o mais baixo índice de cobertura em setores da atenção básica, agentes comunitários e equipes de saúde da família, segundo dados do Conselho Federal de Medicina. Durante a gestão, Agnelo também enfrentou problemas com policiais militares e não conseguiu conter o trânsito caótico do Plano Piloto e a descontrolada invasão de terras.

Diante da derrota iminente, o PT se articulou na reta final das eleições para tentar salvar Agnelo. A presidente Dilma Rousseff decidiu, de última hora, participar de ato com o candidato no domingo passado, a uma semana das eleições. Ao lado do governador, Dilma andou de ônibus no corredor exclusivo, conhecido como BRT, e fez questão de elogiar o sistema público de transportes na capital do país. Nesta manhã, Agnelo votou acompanhado do ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. Ainda assim, o petista chegou às eleições com um índice de rejeição de 49% dos eleitores brasilienses.

Adversários – Agnelo foi derrotado por candidatos conhecidos do DF, mas que jamais chegaram ao Palácio do Buriti. Favorito, Rodrigo Rollemberg (PSB) obteve 45% dos votos. O socialista foi Secretário de Turismo do governo de Cristovam Buarque (então no PT), deputado distrital, deputado federal e chegou ao Senado em 2010, na coligação de Agnelo. Mas o mau governo do petista e as pretensões do PSB fizeram com que Rollemberg rompesse a aliança com o governador. Segundo colocado com 27% dos votos, Jofran Frejat (PR) disputou as eleições de 2010 como vice de Joaquim Roriz, barrado na lei da Ficha Limpa. Em situação similar, neste ano Frejat assumiu a cabeça da chapa do partido a menos de um mês para as eleições como o substituto de José Roberto Arruda, cassado pela Justiça Eleitoral. O candidato foi deputado constituinte e comandou a secretaria de Saúde do Distrito Federal por quatro vezes.

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Em carta direcionada aos brasilienses, Agnelo disse ter “consciência” de que os eleitores decidiram por um projeto de governo diferente “do que estava construindo” e que aceita o resultado “com a humildade dos que têm a consciência tranquila” e com a certeza de que fez “um bom combate”. “Nos últimos anos, aprendi na prática a enfrentar imensos desafios. Busquei recursos técnicos, recorri ao apoio e à solidariedade dos que caminharam comigo para enfrentar e vencer muitos desses desafios. Fizemos muito, mas reconheço, muito ainda precisa ser feito”, disse na nota. “Mas eu lhes digo, tudo o que fizemos até aqui foi feito com seriedade e respeito, e tinha por objetivo virar uma página ruim da nossa história, assegurar o resgate da dignidade da nossa população e repor Brasília no caminho da normalidade. Por esse prisma, não tenho dúvidas de que cumpri bem o meu papel”, continuou.

Novo duelo – Após o resultado da votação, o comitê de campanha de Rollemberg foi tomado por militantes e virou palco de festa, com direito a fogos de artifício e show de uma banda local de rock. Rollemberg fez um discurso acalorado e prometeu muito trabalho até o segundo turno. “Nestas três semanas não tem dia, não tem noite e não tem madrugada. Tem apenas o desejo de servir o DF e construir dias melhores”, afirmou.

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O candidato socialista evitou falar sobre alianças, embora representantes de partidos nanicos já o tenham procurado antes mesmo das eleições. “O candidato Agnelo tinha apoio de mais quinze partidos e não foi sequer para o segundo turno. Isso é uma demonstração clara de que a população não se sente representada pelos partidos. Nós vamos dialogar diretamente com a população”, disse.

Já Frejat, ao comentar o resultado, deu continuidade à estratégia de igualar Agnelo a Rollemberg, aliados até as eleições de 2010. “Demoramos vinte dias para derrotar o Agnelo. Agora precisamos de outros vinte para derrotar o clone dele”, afirmou. O candidato disse ainda que tem experiência para governar a cidade. “O DF não precisa de uma nova aventura”, disse.

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