Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

O vexame de Agnelo

Nem mesmo a articulação do PT na reta final da campanha foi capaz de empurrar o atual governador para o segundo turno. Agnelo saiu da disputa com apenas 20% dos votos

Sem surpresas, as eleições no Distrito Federal serão decididas no segundo turno sem a presença do atual governador, Agnelo Queiroz (PT). O petista, mesmo tendo à disposição a maior estrutura partidária, recebeu apenas 20% dos votos e encerra o mandato como o primeiro governador do DF derrotado ainda no primeiro turno. Mais: nestas eleições, Agnelo foi o único governador do país a deixar a disputa com a medalha de bronze.

Médico, Agnelo assumiu o governo em 2011 com a promessa de melhorar o Sistema Único de Saúde na capital do país – mas fracassou em sua principal bandeira. Embora seja a unidade da federação que mais investe em saúde por ano – tem um gasto anual de 1.042,20 reais por pessoa -, o DF registra o pior número de leitos e o mais baixo índice de cobertura em setores da atenção básica, agentes comunitários e equipes de saúde da família, segundo dados do Conselho Federal de Medicina. Durante a gestão, Agnelo também enfrentou problemas com policiais militares e não conseguiu conter o trânsito caótico do Plano Piloto e a descontrolada invasão de terras.

Diante da derrota iminente, o PT se articulou na reta final das eleições para tentar salvar Agnelo. A presidente Dilma Rousseff decidiu, de última hora, participar de ato com o candidato no domingo passado, a uma semana das eleições. Ao lado do governador, Dilma andou de ônibus no corredor exclusivo, conhecido como BRT, e fez questão de elogiar o sistema público de transportes na capital do país. Nesta manhã, Agnelo votou acompanhado do ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. Ainda assim, o petista chegou às eleições com um índice de rejeição de 49% dos eleitores brasilienses.

Adversários – Agnelo foi derrotado por candidatos conhecidos do DF, mas que jamais chegaram ao Palácio do Buriti. Favorito, Rodrigo Rollemberg (PSB) obteve 45% dos votos. O socialista foi Secretário de Turismo do governo de Cristovam Buarque (então no PT), deputado distrital, deputado federal e chegou ao Senado em 2010, na coligação de Agnelo. Mas o mau governo do petista e as pretensões do PSB fizeram com que Rollemberg rompesse a aliança com o governador. Segundo colocado com 27% dos votos, Jofran Frejat (PR) disputou as eleições de 2010 como vice de Joaquim Roriz, barrado na lei da Ficha Limpa. Em situação similar, neste ano Frejat assumiu a cabeça da chapa do partido a menos de um mês para as eleições como o substituto de José Roberto Arruda, cassado pela Justiça Eleitoral. O candidato foi deputado constituinte e comandou a secretaria de Saúde do Distrito Federal por quatro vezes.

Saiba mais

Em carta direcionada aos brasilienses, Agnelo disse ter “consciência” de que os eleitores decidiram por um projeto de governo diferente “do que estava construindo” e que aceita o resultado “com a humildade dos que têm a consciência tranquila” e com a certeza de que fez “um bom combate”. “Nos últimos anos, aprendi na prática a enfrentar imensos desafios. Busquei recursos técnicos, recorri ao apoio e à solidariedade dos que caminharam comigo para enfrentar e vencer muitos desses desafios. Fizemos muito, mas reconheço, muito ainda precisa ser feito”, disse na nota. “Mas eu lhes digo, tudo o que fizemos até aqui foi feito com seriedade e respeito, e tinha por objetivo virar uma página ruim da nossa história, assegurar o resgate da dignidade da nossa população e repor Brasília no caminho da normalidade. Por esse prisma, não tenho dúvidas de que cumpri bem o meu papel”, continuou.

Novo duelo – Após o resultado da votação, o comitê de campanha de Rollemberg foi tomado por militantes e virou palco de festa, com direito a fogos de artifício e show de uma banda local de rock. Rollemberg fez um discurso acalorado e prometeu muito trabalho até o segundo turno. “Nestas três semanas não tem dia, não tem noite e não tem madrugada. Tem apenas o desejo de servir o DF e construir dias melhores”, afirmou.

O candidato socialista evitou falar sobre alianças, embora representantes de partidos nanicos já o tenham procurado antes mesmo das eleições. “O candidato Agnelo tinha apoio de mais quinze partidos e não foi sequer para o segundo turno. Isso é uma demonstração clara de que a população não se sente representada pelos partidos. Nós vamos dialogar diretamente com a população”, disse.

Já Frejat, ao comentar o resultado, deu continuidade à estratégia de igualar Agnelo a Rollemberg, aliados até as eleições de 2010. “Demoramos vinte dias para derrotar o Agnelo. Agora precisamos de outros vinte para derrotar o clone dele”, afirmou. O candidato disse ainda que tem experiência para governar a cidade. “O DF não precisa de uma nova aventura”, disse.