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O tratamento de choque contra o crack no Rio de Janeiro

Operação na maior cracolândia do estado recolhe 99 pessoas e termina com 29 adultos internados involuntariamente. Outros 30 dependentes químicos quiseram começar o tratamento. Local ficará ocupado pela polícia e com tenda da prefeitura

A prefeitura do Rio começou, na madrugada desta terça-feira, um tratamento de choque voltado para a maior cracolândia conhecida no estado. O local, na altura do bairro de Bonsucesso, às margens da via expressa que é a principal porta de entrada da cidade, passou a reunir centenas de usuários de crack, principalmente depois da ocupação das favelas de Manguinhos e Jacarezinho por policiais. A ação marca, também, o início da política de internação obrigatória de adultos – até então o Rio vinha internando compulsoriamente apenas menores de idade diagnosticados com quadro de dependência química e sem responsáveis identificados.

A ação desta madrugada reuniu mais de 100 policiais, num total de 300 profissionais de várias áreas do município e do governo do estado. A medida mais sensata, talvez, tenha sido o fechamento da Avenida Brasil para a ação de recolhimento. No fim da manhã, em uma coletiva de imprensa, a Secretaria Municipal de Governo apresentou um balanço da ação. Ao todo foram recolhidas 99 pessoas, entre elas oito menores, crianças e adolescentes. Três mulheres recolhidas estavam grávidas, e uma delas em estado grave: segundo o secretário Rodrigo Bethlem, a mulher é soropositiva, está no oitavo mês de gestação e tem tuberculose.

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O local onde ficavam os usuários foi ocupado por uma tenda do município, com acompanhamento permanente da Polícia Militar. A prefeitura instalou refletores para coibir a concentração de viciados durante a noite. O local foi escolhido pela quantidade de usuários de drogas, mas também por representar risco para os próprios dependentes químicos e para os milhares de motoristas que passam pela Avenida Brasil.

O que se viu, logo depois do recolhimento, foi o grau de degradação a que as cracolândias são capazes de levar os usuários da droga. Um dos recolhidos foi internado imediatamente, transferido por uma ambulância do Serviço Ambulatorial Móvel de Urgência (SAMU) para um hospital na Ilha do Governador, com parada cardiorrespiratória e asma grave. Do total de recolhidos, 29 foram internados involuntariamente – ou seja, tiveram diagnosticado de quadro agravado de saúde e, a partir de um laudo médico, passaram a receber tratamento. Outros 30, segundo Bethlem, aceitaram receber tratamento, apesar de não terem sido diagnosticados como pacientes graves. Destes, oito foram encaminhados para locais chamados pela prefeitura de “repúblicas terapêuticas”, na Zona Oeste da cidade. O restante tomou o mesmo caminho da maioria dos 6.000 recolhidos nos últimos meses: voltaram para a rua, entre elas uma das grávidas recolhidas durante a madrugada.

Enquanto o secretário Bethlem dava entrevista ao telejornal RJTV, da Rede Globo, imagens aéreas da emissora mostravam cerca de 15 usuários de crack que escaparam da operação. Eles estavam acampados sob um viaduto que dá acesso à Ilha do Governador, alguns já consumindo as pedras, queimadas em copos plásticos.

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Tratar dependentes de crack sem internação é impossível

Internações – As internações involuntárias são diferentes das compulsórias. São chamadas de involuntárias as internações respaldadas por laudo médico, com convencimento do paciente, mas sem decisão judicial. São casos em que o usuário, por exemplo, apresenta agravamento de quadros respiratórios, arritmia cardíaca, pneumonia grave, gravidez de risco e outros complicadores. A rigor, o paciente pode optar por não receber o tratamento. Com a internação compulsória – como ocorre com os menores de idade – há decisão judicial determinando que o município mantenha o dependente químico internado, mesmo que ele manifeste vontade de não receber os cuidados. O mecanismo é usado, por exemplo, por famílias que passam a não ter condição de lidar com o tratamento e os problemas causados por um ente que demonstra dependência química.

Os pacientes recolhidos e submetidos a internação involuntária foram transferidos para emergências de hospitais gerais. O município do Rio tem hoje 40 leitos, entre hospitais municipais e federais, para internação de dependentes químicos. De acordo como o subsecretário de atenção hospitalar do município do Rio, João Luiz Ferreira Costa, os pacientes devem ficar cinco dias nesses leitos para, a partir de um novo diagnóstico, serem encaminhados para tratamento ambulatorial. No caso dos pacientes sem residência fixa, é possível que a recomendação seja de encaminhamento para comunidades terapêuticas.

A medida desta terça-feira é fruto unicamente de uma decisão do Executivo municipal. Diferentemente da internação compulsória de menores, instituída por um decreto do prefeito Eduardo Paes, ainda não há uma estrutura legal que determine os caminhos do tratamento. No entanto, todos os mecanismos adotados estão previstos na legislação vigente, segundo explicou Rodrigo Bethlem. Até o momento, a internação involuntária, com base em laudo médico, é algo previsto para qualquer paciente que chegue ao sistema público de saúde.

É a estrutura da rede pública, no entanto, o maior desafio para o tratamento do crack – uma droga que rapidamente degenera a saúde dos usuários e que vem atingindo fortemente os menores de idade. Não existe, ainda, um protocolo de atendimento que permita à maioria dos hospitais de todo o Brasil oferecer tratamento adequado a quem chega a uma emergência com quadro de dependência. A maioria dos casos de internação involuntária apresenta problemas de saúde perfeitamente ao alcance dos hospitais. Mas um usuário de crack não consegue, como alguém sem a dependência química, manter-se em um ambulatório ou em um leito de enfermaria por muito tempo. “À medida que a saúde tiver mais vagas, vamos avançar mais. No momento, estamos totalmente concentrados na cracolândia da Avenida Brasil, pelo perigo que ela representa para os usuários da droga e todos que passam por ali”, disse Bethlem.

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