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O pleito das fake news

As notícias falsas se espalharam durante a campanha, sobretudo via WhatsApp e em benefício de Bolsonaro. Mas até que ponto afetaram o resultado das urnas?

Por Filipe Vilicic, André Lopes - 29 out 2018, 07h00

Se fosse verdade tudo o que se leu e viu nas redes sociais e no aplicativo WhatsApp sobre os dois finalistas do segundo turno e seus projetos para o país, o Brasil estaria agora entregue à própria sorte — em um autêntico “salve-se quem puder”. Em relação à campanha petista, afirmou-se que nela se arquitetava um plano para assassinar Jair Bolsonaro; que Fernando Haddad teria aprovado pessoalmente a distribuição de mamadeiras com bico de formato fálico às escolas, com o intuito de “converter” os alunos à causa gay; que o político estaria preparando um projeto de lei para legalizar relações sexuais de adultos com menores a partir de 12 anos; e que a PF teria apreendido 121 urnas eletrônicas adulteradas para condicionar o voto a ele. Já contra Jair Bolsonaro, inventou-se, entre outras maluquices, que a facada que ele recebeu de um lunático em Juiz de Fora, em 6 de setembro, teria sido orquestrada pelo próprio capitão reformado, com o objetivo de esconder uma cirurgia pela qual teria de passar para tratar um câncer; que, logo depois da posse, o governo bolsonarista proibiria o tratamento de pessoas portadoras de câncer em hospitais públicos — só quem pudesse pagar por quimioterapia seria atendido. O pior é que muita gente deu crédito a esses e outros tantos boatos, fazendo deste, sem dúvida, o “pleito das mentiras”.

Em sua campanha, Bolsonaro chegou a alardear: “Adotei uma bandeira, que é uma mensagem bíblica. João 8:32 — ‘E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará’ ”. A afirmação acabou ganhando ares de disparate. Isso porque ele próprio cuidou de espalhar um punhado de fake news. Em uma entrevista ao Jornal Nacional, da Rede Globo, antes do primeiro turno, afirmou que o livro Aparelho Sexual e Cia., obra da francesa Hélène Bruller com desenhos do suíço Zep, teria sido distribuído a escolas pelo governo petista de Dilma Rousseff. Mentira. A publicação, editada no Brasil por um selo da Companhia das Letras, não fez parte de programas da rede pública. Bolsonaro foi o mais beneficiado pela rede de invencionices on-line. Quando se analisa um levantamento do projeto internacional Third Party Fact Checker (Checador de Fatos de Terceiros) — ligado ao Facebook e, no Brasil, a iniciativas como a Agência Lupa —, constata-se que, das dez fake news que mais se disseminaram no primeiro turno, nove favoreciam diretamente o deputado (e a décima — que mostrava traficantes com um cartaz com os dizeres “Bolsonaru (sic) é bala CV” — pode ser considerada ambígua). Entre as lorotas favoráveis ao político, as mais compartilhadas foram as seguintes: “Ato pela saúde de Bolsonaro em Campinas” (o vídeo era de um evento da Copa do Mundo de 2014); “Fernando Haddad convida Jean Wyllys para ser ministro da Educação” (o que nunca ocorreu); e “Manifestação do #elesim em Copacabana” (as imagens mostravam protestos contra o governo Dilma em 2015).

“O fenômeno não tem precedentes. Apresenta muitas complexidades para que as autoridades possam investigar”, disse Laura Chinchilla, da OEA

A partir de maio deste ano, catorze pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) monitoraram ações via WhatsApp em apoio a candidatos presidenciais. Inseridos, de forma anônima, em noventa grupos do popularíssimo serviço de mensagens, os estudiosos analisaram o comportamento dos usuários. Conclusões preliminares do trabalho mostram que os bolsonaristas agem com maior empenho e alcance na disseminação de fake news, em comparação com os demais ativistas políticos. Um levantamento da diretoria de análises de políticas públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV) também identificou 991 vídeos que circularam pela internet, entre 8 e 15 de outubro, em apoio a Bolsonaro ou Haddad, boa parte dos quais trazia conteúdo falacioso. Do total, 63% das gravações eram favoráveis a Bolsonaro.

Em viagem ao Brasil como observadora das eleições, Laura Chinchilla, ex-presidente da Costa Rica e representante da Organização dos Estados Americanos (OEA), foi taxativa quanto ao cenário do pleito nacional: “O fenômeno que estamos vendo no Brasil não tem precedentes, fundamentalmente por uma razão. Está se utilizando a rede privada, o WhatsApp, que apresenta muitas complexidades para que as autoridades possam acessar e investigar. É uma rede que gera muita confiança, pois são pessoas próximas (dos usuários) que mandam as notícias”.

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Durante o segundo turno, no entanto, ficou evidente que as iniciativas via WhatsApp não se davam apenas por meio da atividade de “pessoas próximas”. Em 18 de outubro, uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo revelou que empresários ligados a Bolsonaro contrataram agências especializadas na disseminação maciça de mensagens via WhatsApp, incluindo fake news. Logo depois da publicação do texto, a autora da reportagem foi ameaçada, em ligações e na web, e teve sua conta de WhatsApp hackeada. Agressões na rede se estenderam, segundo levantamento da organização Human Rights Watch, a pelo menos 140 jornalistas, também por terem publicado reportagens que desagradaram a candidatos.

O método usado por aquelas agências — uma delas, conforme revelou VEJA, também foi ligada à campanha de Dilma Rousseff à Presidência em 2014 — é ilegal segundo as leis brasileiras e irregular diante de normas estabelecidas pelo próprio WhatsApp. As mensagens eram enviadas a bases de contatos que não haviam se oferecido para recebê-las, o que contraria as regras do TSE. Como o WhatsApp limitou a vinte o número de vezes que um mesmo número de celular pode encaminhar uma mensagem, os contratados criavam contas falsas, cadastradas no exterior, principalmente nos Estados Unidos, para poder disseminar as notícias falsas sem nenhuma limitação. Simulava-se que cada perfil respeitava os limites impostos, quando na verdade todos os números podiam ser gerenciados por um único computador, que disparava as mensagens automaticamente para centenas de milhares de indivíduos.

Ainda é cedo para estipular ao certo quanto as fake news influíram nestas eleições. Dificulta a análise o fato de que, diferentemente do que ocorreu na corrida presidencial americana de 2016, da qual Donald Trump saiu vitorioso, as mentiras se espalharam por aqui não de forma pública, via Facebook, e sim por meio de conversas privadas, no WhatsApp — algo que, como apontou a representante da OEA, dificulta as investigações. De acordo com o Ibope, no entanto, o efeito das mensagens enviadas pelo aplicativo pode ser menor do que se imagina. Em uma pesquisa do instituto, 73% dos entrevistados disseram que não receberam nem críticas nem ataques a candidatos via WhatsApp. E, dos que receberam propagandas eleitorais pelo aplicativo, 24% afirmaram ter pautado seu voto por elas. Não se trata de um porcentual desprezível, mas, seja como for, não é possível garantir que as pessoas ouvidas pelo Ibope souberam separar a verdade da mentira em cada conteúdo recebido — e assim determinar em que medida foram ou deixaram de ser manipuladas.

O discurso de que as fake news são menos relevantes do que se fala foi utilizado pelo Facebook — também dono do Instagram e do WhatsApp — em 2016 para neutralizar sua responsabilidade no compartilhamento das notícias falsas. Desde então, não só a empresa americana como o TSE mudaram de posicionamento, assumindo a gravidade da epidemia de invencionices que tomou conta da internet. Apesar disso, pouco fizeram para contê-las no pleito nacional. O Facebook, por exemplo, lançou iniciativas tardiamente, já com a disputa em curso — como a criação de uma “sala de guerra”, localizada na Califórnia, na qual vinte funcionários trabalharam para desmentir as fake news que se espalhavam em rede pelo Brasil. Não se sabe se elas pesaram no resultado. Mas foram a notícia desta eleição.

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Com reportagem de Sabrina Britto

Publicado em VEJA de 31 de outubro de 2018, edição especial nº 2606

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