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O ocaso do ex-todo-poderoso Delcídio do Amaral nas eleições

Ex-líder do governo Dilma e delator do petrolão, o senador cassado é persona non grata entre candidatos nas eleições de outubro

Por Laryssa Borges - Atualizado em 27 Sep 2016, 17h50 - Publicado em 27 Sep 2016, 17h49

“Acho que vou me candidatar em Curitiba. Aqui ninguém quer me ver”, ironiza a interlocutores o ex-todo-poderoso senador Delcídio do Amaral. Banido da vida pública pelos próximos 11 anos – o ex-petista, que afirmou à Justiça que Lula era o chefe do esquema do petrolão, hoje vive um ostracismo de ocasião. Ou nas palavras dele, uma imersão para “cuidar do front jurídico pós-delação”.

Nas eleições municipais no Mato Grosso do Sul, os políticos não se atrevem a vincular a candidatura ao delator da Lava Jato. Em Curitiba, onde tramita a maior parte dos processos relacionados ao esquema de corrupção na Petrobras, o ex-senador sul-mato-grossense, cassado em maio, acredita poder andar livremente pelas ruas: em 21 depoimentos à justiça, detalhou como funcionava a cobrança de propina na hidrelétrica de Belo Monte, incriminou parlamentares e ministros e, na cartada final, apontou o dedo para Lula, Dilma Rousseff, José Eduardo Cardozo e Aloizio Mercadante como articuladores para travar a Operação Lava Jato.

Diz um advogado que acompanha passo a passo os meandros do petrolão: “Delcídio tem que ficar sentado na beira do rio, com um chapéu chinês na cabeça, fumando um cigarro de palha e vendo os cadáveres boiando”. “Não vai sobrar nada”, diz ele somando a delação de Delcídio às recentes revelações do ex-bilionário Eike Batista, a prisão do ex-ministro Guido Mantega e a possibilidade de delação premiada do ex-diretor da Petrobras Jorge Zelada.

Nas eleições, adversários e ex-aliados explicam o motivo da distância do antes poderoso senador petista. Delcídio chegou ao PT pelas mãos de José Dirceu e Lula no início dos anos 2000, surfou na onda de popularidade dos primeiros mandatos petistas e implodiu tudo depois de ser preso em novembro do ano passado. “Ele chegou logo por cima para disputar o primeiro cargo no estado. Fazia campanha em cima de um cavalo e com chapéu de pantaneiro, mas na verdade era um estrangeiro”, resume um político sul-mato-grossense. Ex-diretor da Petrobras, Delcídio passou boa parte da vida fora do estado – foi diretor da Petrobras no Rio, secretário-executivo em Brasília, viveu em São Paulo e na Holanda – e se aventurou ao primeiro cargo eletivo em 2002, quando, apoiado pelo então governador Zeca do PT, foi eleito senador com 73.417 votos.

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“No Mato Grosso do Sul candidatos ou começam do nada ou são de família tradicional. Delcídio não tinha base partidária”, diz uma parlamentar da região ao justificar o ocaso do ex-senador depois da delação premiada.

Mesmo longe dos holofotes da política, Delcídio do Amaral continua com o hábito de traçar análises políticas sobre a situação do país. Não poupa os aliados de outrora e prevê que o ex-presidente Lula, réu junto com ele em um processo de obstrução das investigações do petrolão, responderá a todos os processos que tramitam atualmente em Curitiba: além do tríplex no Guarujá, as benesses do sítio de Atibaia e palestras pagas por empreiteiras encrencadas no escândalo da Petrobras.

“Não me expus publicamente nos últimos tempos, mas o que a gente percebe é que as pessoas aqui têm um sentimento de perda, de que ‘aconteceu tudo isso com ele supostamente por causa de uma obstrução à justiça’. Mas e os outros? O cenário político nacional continua instável e o quadro pode piorar. É uma pena que por causa de avaliações equivocadas muitas conquistas do PT ficaram para trás”, filosofa o ex-senador.

Quase cinco meses depois de ter o mandato cassado, Delcídio começa a retomar a normalidade da vida em Corumbá. No primeiro semestre, a família se mudou temporariamente para Santa Catarina enquanto avançavam no Congresso o processo de cassação dele e o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. “Não é uma situação simples, é um recomeço. É uma retomada perto da vida absolutamente hiperativa que eu tinha”, diz.

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