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O novo escritório de Dirceu fora da cadeia

Ex-chefe do mensalão deixará a prisão pela primeira vez desde novembro do ano passado para trabalhar em um escritório de advocacia em Brasília

Nesta quinta-feira, às 8 horas, o detento 95.413 deverá deixar o Centro de Progressão Penitenciária (CPP), no Distrito Federal, pela primeira vez para trabalhar do lado de fora do presídio desde que se entregou no dia 15 de novembro de 2013. O ex-ministro José Dirceu começará a prestar serviço no escritório do advogado e amigo José Gerardo Grossi, em Brasília. No local, ficará em uma sala isolada dos demais advogados e visitantes, sem acesso à internet nem telefonemas. Foram essas as garantias que Grossi deu à Justiça para empregar o chefe do mensalão como auxiliar administrativo e salário de 2.100 reais mensais.

“Não é possível ele ter acesso à internet porque ele não pode. Telefonemas livres também não estão autorizados. Nada disso pode”, disse Grossi ao site de VEJA. “Se um deputado, um senador ou um ministro quiser visitar, peça à juíza da Vara de Execução para fazer essa visita, e a juíza dá ou não dá. Se alguém aparecer sem autorização, não vai ser recebida.”

Na véspera da chegada de Dirceu, Grossi diz que já está tudo pronto para recebê-lo e afasta a tese do ex-relator do mensalão, ministro Joaquim Barbosa, segundo quem o emprego ao petista é uma mera “action de complaisance entre copains” – uma camaradagem entre velhos companheiros.

Com vista para o prédio do Banco Central, Dirceu terá uma sala própria, com piso de madeira e janela ampla no escritório, localizado no nono andar de um edifício no Setor Bancário Sul, na região central de Brasília. Segundo Grossi, sua tarefa será colocar em ordem o fichário – ainda não digitalizado – do criminalista e fará uma espécie de inventário do acervo de cerca de 2.000 livros. As tarefas ainda não estão completamente definidas. “Vou conversar com ele e ver o que é mais prático para fazer”, disse Grossi.

“Temos livros espalhados em várias salas. Não há uma biblioteca, mas várias prateleiras de livros em vários lugares. Ele vai ter que conferir. Quando chegar um livro, ele vai pegar um fichário que eu tenho, que ainda é manual, e fazer uma conferência sobre se o que está catalogado no fichário corresponde à realidade de todos os livros do escritório. Depois deve colocar no sistema de computação”, afirmou Grossi.

Autointitulado “amigo há mais de 20 anos” do petista, Grossi visitou Dirceu na prisão no começo do ano para lhe oferecer emprego. Antes, o ex-ministro havia apresentado uma proposta de trabalho para ganhar 20.000 reais mensais como gerente de um hotel em Brasília – desistiu, depois da revelação que o hotel estava em nome de um laranja. Dirceu aceitou a proposta de Grossi. Além de passar pelo menos oito horas longe da cela de segunda a sexta-feira, poderá abater um dia de pena a cada três de trabalho, conforme determina a Lei de Execução Penal. Mas esbarrava, até a semana passada, na resistência do então relator do mensalão e presidente do Supremo,. Joaquim Barbosa, que deixou o caso neste mês. Com a saída de Barbosa da relatoria, o caso foi analisado pelo plenário da corte, que decidiu autorizar os condenados em regime semiaberto, como Dirceu, a trabalhar antes de cumprir um sexto da pena.

Advogado há cerca de 60 anos, o novo patrão de Dirceu afirma que a atuação do mensaleiro como auxiliar no escritório deverá ser “discreta, discretíssima”. “Não é a minha ideia deixar livre acesso a todos no escritório. Pretendo que seja uma coisa muito discreta”, afirmou. “Pelo menos agora eu prefiro que ele não se intrometa em nada que diga respeito diretamente ao exercício da advocacia. Somos cinco advogados aqui e isso basta. Ele vai atuar na área administrativa.”

Grossi participou de palestras na Vara de Execuções Penais (VEP) sobre como empregar um condenado e já avisou que Dirceu terá de se revezar com os demais integrantes do escritório nas duas horas disponíveis para almoço. O mensaleiro deixará o Centro de Progressão Penitenciária (CPP), para onde foi transferido nesta quarta-feira, pouco antes das 8 horas da manhã e retornará para dormir na cadeia após o fim do expediente, às 18 horas.

No início do ano, o analista judiciário e psicólogo Vicente Moragas e o assistente social Alexandre Pereira fizeram uma vistoria, a pedido da Vara de Execuções Penais, no escritório de Grossi. Observaram as salas no nono andar do prédio, mas não houve questionamentos sobre a segurança do edifício. Em sua cela na prisão, Dirceu recebeu diversas visitas de políticos e petistas. A romaria foi classificada como privilégio pelo Ministério Público. Nesta quarta-feira, Grossi foi assertivo sobre o tema: “Se uma pessoa for ao escritório falar com o Dirceu, qualquer pessoa do escritório está orientada a dizer ‘não, peça autorização para a juíza da Vara para vir aqui e ter essa conversa'”. É o que a Justiça espera.