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‘O MDB é uma facção criminosa, o chefe está preso’, diz Garotinho

Ex-governador que tenta voltar ao Palácio Guanabara pelo nanico PRP foi preso três vezes e concorre graças a uma liminar, mas diz que é vítima de retaliação

Por Luisa Bustamante e Fernando Molica - Atualizado em 25 set 2018, 19h59 - Publicado em 25 set 2018, 17h10

Preso três vezes nos últimos dois anos e pendurado em um rol de processos, o ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho (PRP) quer voltar ao Palácio Guanabara. Adversário ferrenho do grupo de Sérgio Cabral, ele atribui a lista de prisões, acusações e ações que responde na Justiça à perseguição de uma “banda podre” do Judiciário fluminense, incluída numa denúncia que fez sobre irregularidades que envolviam também integrantes do MDB. Garotinho só está na disputa por força de uma liminar do Tribunal Superior Eleitoral — no último dia 6, o TRE-RJ havia indeferido sua candidatura em decisão baseada em uma condenação por improbidade administrativa. De acordo com o levantamento Ibope divulgado nesta terça-feira, 25, Garotinho tem 16% de intenções de voto para o governo, distante de Eduardo Paes (DEM), com 24%, e empatado em segundo lugar com o senador Romário Faria (Podemos), também com 16%. Nessa entrevista a VEJA, o ex-governador disparou críticas contra seus desafetos e disse que, se eleito, voltará com o programa cheque-cidadão, “exatamente como ele era”.

Esta é terceira das entrevistas de VEJA com os cinco candidatos ao governo do Rio mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto. Foram convidados Eduardo Paes (DEM), Romário Faria (Podemos), Anthony Garotinho (PRP), Tarcísio Motta (PSOL) e Indio da Costa (PSD). As entrevistas com Tarcísio e Indio foram publicadas nos últimos dias 17 e 21, respectivamente.

O senhor esteve preso três vezes nos últimos dois anos e responde a uma boa quantidade de processos. Não é complicado concorrer às eleições nesse momento? Não. Em nenhum dos processos eu sou acusado de ter desviado dinheiro público não há uma prova contra mim. Acontece que eu protocolei junto ao Rodrigo Janot (ex-procurador-geral da República) uma notícia crime em 2012 de mais de duas mil páginas acusando Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão, Adriana Ancelmo, Eduardo Paes e por aí vai. Entre os denunciados, havia uma figura ilustre do judiciário, que é Luiz Zveiter (ex-presidente do Tribunal de Justiça do Rio). Isso desencadeou contra mim a ira de uma banda podre do Judiciário fluminense.

No início do mês, o senhor teve a candidatura indeferida pelo TRE-RJ com base em uma condenação por desvio de 234 milhões de reais da saúde quando era secretário de Governo de sua mulher, Rosinha (2003-2007). Agora está na disputa graças a uma liminar do TSE. Como o senhor avalia isso? Esse dinheiro não existia, fazia parte do Orçamento. O Ministério Público diz que eu mandei um ofício mandando parar as subcontratações e aplicar a lei 8.666 (Lei de Licitações). Eu não mandei um ofício para praticar um ato errado, pelo contrário. Agora, a pergunta que faço é: por que um processo deste período tão longínquo foi julgado em época de registro de candidatura eleitoral? É certo isso?

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Qual a diferença do seu caso para o do Lula, que também foi condenado em segunda instância? O caso do Lula tem muita materialidade.

E esta última condenação sobre formação de quadrilha? Também é perseguição? Sim, perfeitamente. Havia uma investigação dizendo que policiais tinham ligações com jogos de azar, um deles era o delegado Álvaro Lins (chefe da Polícia Civil no governo Garotinho). Do nada o meu nome é incluído no rol dos investigados. O juiz do caso é irmão de um coronel da PM que estava lotado no gabinete do José Mariano Beltrame (ex-secretário de Segurança do Rio). Coincidência né? Depois fui sentenciado a prestar serviços comunitários. Ora, disseram que sou chefe de quadrilha, meu subordinado é condenado a 28 anos de prisão e eu a pagar cesta básica?

O senhor já foi governador do estado e candidato a presidente da República em 2002, quando ficou em terceiro lugar. Em 2014, porém, não chegou a ir para o segundo turno na disputa para o Palácio Guanabara. O que mudou em relação a quatro anos atrás? Os candidatos dividiam voto comigo, especialmente o Marcelo Crivella (hoje prefeito do Rio), na área popular e no meio evangélico. Mas agora ele está fora, então tem uma fatia de eleitores desses segmentos que sabem que eu sempre contestei posturas de pastores polêmicos que usam uma teologia, a meu entender, nada bíblica. A tendência é de que esses eleitores caminhem para mim.

O Crivella, seu aliado, vem sendo criticado por misturar política e religião. Isso acontecerá em um eventual governo seu? No meu governo aconteceu um episódio. Quando o cheque-cidadão era distribuído por igrejas de todas as denominações, apareceu um boato de que o cardeal Dom Eugênio Salles teria dito que eu estava privilegiando mais os evangélicos, pelo fato de eu ser presbiteriano. Fui falar com ele e ele negou que tivesse dito aquilo.

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Mas na época a imprensa mostrou que oito em cada dez igrejas cadastradas para distribuir o cheque-cidadão eram evangélicas. E a gente mostrou que 70% dos beneficiários eram católicos.

Por que isso não pode ser feito pela sociedade laica, como é como no caso do Bolsa Família? Porque é mais econômico. Imagina a estrutura necessária para distribuir para mais de 100 mil famílias. Naquela época, o cheque era entregue todo mês e era obrigatório mostrar a lista do que o beneficiário comprou. Só podia comprar comida, material de limpeza e de higiene pessoal. Quem garante que ele não usou o dinheiro para bebida? O Cadastro Nacional do Bolsa Família tem fraude toda hora. Não sei por que esse preconceito. Se o estado é laico, e não ateu, por que não ter relação com as religiões?

O senhor voltaria a criar um programa como cheque-cidadão? Com certeza. Eu vou voltar com o cheque-cidadão exatamente como ele era.

Com as igrejas? Com as instituições.

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Além das igrejas, que outras instituições? Associações de moradores…

O senhor é favorável ao Regime de Recuperação Fiscal do estado do Rio? Não. É um acordo de salvação política, não tem nada de fiscal. Uma das cláusulas diz que, ao final, o estado pagará uma parcela do mês e outra que não foi paga corrigida pela tabela price. Ora, se o estado não consegue pagar uma, como vai pagar duas? Vou renegociar. Tenho um conjunto de 20 medidas iniciais, uma delas é a suspensão por 90 dias de todos os incentivos fiscais para ficar com que de fato é incentivo. Também não venderei a Cedae.

Se não for para o segundo turno, apoiaria alguém? O MDB é uma facção criminosa, o chefe, Cabral, está preso. O Jorge Picciani, também. E os dois botaram o terceiro na hierarquia do crime para representar a facção. Eu, como homem que não tolera a corrupção, não posso apoiar uma facção criminosa. Mas eu acredito que o segundo turno será entre ele e eu.

Com base em quê o senhor acusa o Eduardo Paes de ser ladrão? Ele é ladrão, embolsou dinheiro. Tem conta no nome do pai, da mãe e da irmã dele no Panamá. Oito milhões de dólares. Eu dei nome, número da conta, a empresa que abriu e quem foi o laranja, o mesmo do José Dirceu. Ele tem um apartamento na Lagoa que está no nome do pai dele. Ele faz com o pai o que o Cabral fazia com a mulher.

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O senhor é favorável à manutenção da intervenção federal na segurança? A intervenção tem que ser usada se ela se encaixar no programa de governo. Vou chamar o general (Walter) Braga Netto e dizer para ele: “Olha, eu preciso desses homens, mas sob o comando e autoridade estadual”. Tenho um programa de segurança amplo que foi interrompido pelo marketing das UPPs. Ele é baseado em prevenção, modernização do aparelho policial e equivalência no confronto.

Uma das linhas de investigação do caso Marielle levanta suspeitas sobre a participação de três deputados do MDB que estão presos. O senhor acredita nisso? Zero. Eu acho que tem envolvimento de um outro personagem do MDB. Mas não vou revelar quem.

Recentemente, a Carminha Jerominho, filha do ex-vereador Jerominho, preso acusado de integrar a maior milícia do Rio, declarou que se o senhor pedir ajuda, ela o apoiará. O senhor aceitaria? Qual o problema de me apoiar? Se o pai dela comete o crime, ela é responsável?

Mas ela oferece o apoio da família. Não, ela oferece o apoio dela. (Em entrevista ao jornal O Globo, Carminha diz: “Garotinho terá o voto da família Jerominho. Ele fez um ótimo governo e passou a ser perseguido, assim como nós. Se pedir ajuda, nós daremos”)

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