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O jogo de cena dos partidos no debate sobre a terceira via

Conversas sobre candidatura alternativa podem minguar, já que a base dos partidos não quer priorizar a disputa presidencial, mas a eleição para a Câmara

Por Laryssa Borges, Daniel Pereira Atualizado em 18 set 2021, 10h22 - Publicado em 18 set 2021, 11h00

Representantes de quase dez partidos com bancadas importantes na Câmara dos Deputados participam das conversas destinadas a tirar do papel, em 2022, uma candidatura presidencial capaz de rivalizar com os favoritos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (sem partido). Uma reportagem da nova edição de VEJA, que detalha as dificuldades da chamada terceira via, revela que expoentes de PSDB, DEM, PSB, PDT e Podemos estabeleceram um primeiro esboço sobre como será a escolha do concorrente do grupo ao Palácio do Planalto. Eles definiram o mês de janeiro como prazo final para decidirem sobre a viabilidade de uma candidatura com potencial para enfrentar Lula e Bolsonaro, que lideram em intenções de voto com, respectivamente, 44% e 25%, segundo a mais recente pesquisa Datafolha.

Pelo esboço traçado, será ungido como concorrente da terceira via, no início do próximo ano, o presidenciável mais bem colocado nas sondagens, desde que ele tenha dois dígitos na preferência do eleitorado. Os demais abririam mão de suas respectivas postulações em nome do escolhido. Na teoria, pode até funcionar. Na prática, é difícil imaginar o ex-ministro Ciro Gomes (PDT), de centro-esquerda, saindo de campo em benefício do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), da centro-direita. No Datafolha, Ciro é o nome da terceira via com melhor desempenho e alcança 11%. Doria tem no máximo 5%. Os dois participaram das manifestações de rua convocadas com o objetivo de arregimentar os eleitores que não querem nem Lula nem Bolsonaro. Realizado no último dia 12, o ato foi um fracasso de público.

Além da falta de entusiasmo popular, outra dificuldade da terceira via está dentro dos próprios partidos que, em tese, trabalham por uma candidatura alternativa. Para a base das legendas, o melhor a fazer é concentrar as energias e principalmente os recursos do fundo partidário e do fundo eleitoral nas campanhas para deputado federal. O motivo é simples: quanto maior a bancada de um partido na Câmara, mais verba pública ele recebe — e mais força tem para negociar com o presidente da República. Até no PSDB, que tem quatro pré-candidatos ao Planalto, há vozes contrárias à pretensão presidencial. Caso do deputado Aécio Neves, que disputou a Presidência em 2014 e defende como prioridade a formação de uma bancada forte na Câmara.

“A candidatura própria do PSDB é um fato e quem busca um suposto consenso de um candidato único é quem não consegue ter seu próprio candidato”, afirma o tucano Antonio Imbassahy, um dos estrategistas da candidatura de Doria, que enfrentará nas prévias do PSDB, entre outros, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. “O movimento de privilegiar a formação de bancadas também foi isolado”, acrescenta ele. No DEM, a situação não é diferente. O partido tem hoje um pré-candidato assumido, o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, que marcou 3% no Datafolha. Outro nome da sigla está sendo testado nas pesquisas, o do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, que tem 1% de intenção de voto.

Apesar de contar com duas alternativas, a prioridade do DEM é selar a fusão com o PSL, que, se confirmada, resultará na legenda com a maior bancada na Câmara, com cerca de 80 deputados. Só de fundo partidário a nova sigla receberia cerca de 150 milhões de reais por ano. O plano inicial é usar o dinheiro público para eleger uma bancada de deputados ainda maior em 2022. O novo partido só entrará na sucessão presidencial se, até o ano que vem, construir uma candidatura competitiva, o que parece difícil a preço de hoje. A pré-candidatura de Mandetta não é levada a sério internamente pelas bases.

Do campo da centro-esquerda, o PSB está participando das conversas sobre a terceira via. Entre seus quadros, há quem apoie Lula, Ciro e até cogite um nome de centro. Na banca de apostas, no entanto, é dado como barbada que, na hora decisiva, o partido aderirá a Lula. Ou seja: as conversas e o atos suprapartidários dão à ideia de uma busca verdadeira por unidade e uma candidatura alternativa, mas o que há mesmo, até agora, é um grande jogo de cena.

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