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O fim de um personagem que enganou a si próprio

Demóstenes Torres fez fama como perseguidor implacável de criminosos. Era um personagem. De tão bom ator, passou a acreditar na própria farsa

O senador Demóstenes Torres (GO) deixou o DEM nesta terça-feira. Ameaçado por um processo de expulsão, ele fez com que a carta de desfiliação (leia a íntegra abaixo) fosse entregue por sua assessoria por volta das 12h30 desta terça-feira ao presidente da legenda, José Agripino Maia. É o primeiro passo concreto daquilo que deve ser a morte política do parlamentar, atingido por denúncias de ligação com o contraventor Carlinhos Cachoeira.

“Embora discordando frontalmente da afirmação de que eu tenha desviado reiteradamente do programa partidário, mas diante do pré-julgamento político que o partido fez, comunico a minha desfiliação do Democratas”, escreveu Demóstenes no terceiro parágrafo da carta. Na primeira parte do documento, o senador apenas informou que recebeu o comunicado de que o partido havia aberto o processo de expulsão, anunciado nesta segunda-feira pela cúpula do DEM.

Nesta segunda-feira, o partido abriria oficialmente o processo de expulsão de Demóstenes. O relator do caso já havia sido escolhido: o deputado federal Mendonça Prado (SE). José Agripino Maia negou, após ter recebido a carta, que a legenda tenha pré-julgado o senador goiano: “Em absoluto. Pelo contrário: nós demos clara oportunidade dele se defender”. Ainda segundo o presidente da legenda, a decisão do partido mostra que o DEM não é conivente com desvios éticos.

A opção do senador Demóstenes evita o constrangimento da expulsão, mas pode dar brechas para que o parlamentar perca o mandato. Há precedentes: então governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda deixou o cargo, em 2009, por decisão da Justiça Eleitoral. A situação era idêntica. Por ora, o DEM não pretende cobrar na Justiça o posto de Demóstenes porque o senador não deixou a legenda para se filiar a outra sigla. Mas o Ministério Público também tem poder para pedir a perda do cargo do parlamentar, com base no entendimento de que o mandato pertence à legenda.

A saída do senador confirma o isolamento do parlamentar. A falta de sustentação partidária pode facilitar uma possível cassação de mandato, embora, com votação secreta, o resultado seja incerto. De qualquer forma, o escândalo envolvendo a ligação do senador com Carlinhos Cachoeira significa o ocaso do personagem que Demóstenes havia criado – e que funcionou muito bem até agora: parece ter enganado o próprio senador.

Hábil orador, Demóstenes passou de promotor de Justiça a secretário de Segurança Pública de Goiás, cargo que assumiu em 1999 e lhe conferiu a fama de combater com eficiência o crime. O salto seguinte, em 2002, foi para o Senado Federal. Em 2010, ele foi reeleito com folga: havia se tornado uma figura de destaque no único estado do país onde o governador e os três senadores são de oposição ao PT.

O criador e a criatura – Em algum momento da caminhada, Demóstenes parece ter passado a acreditar na personagem que encarnou: a do perseguidor implacável de bandidos. Pensando estar sob proteção por usarem aparelhos habilitados nos Estados Unidos, Demóstenes e o chefe de quadrilha Carlinhos Cachoeira não se preocupavam nem mesmo em escamotear o tema das conversas usando códigos, como normalmente fazem aqueles que têm algo a esconder. Nas conversas interceptadas pela operação Monte Carlo, apareceu o verdadeiro Demóstenes.

A fama de probo também acentou a queda do senador: todos os argumentos que o democrata havia usado contra corruptos se voltaram contra ele. Mas, em vez de se apressar e oferecer explicações céleres, ele preferiu o silêncio. O velho Demóstenes talvez considerasse isso uma confissão de culpa.

Dias antes, quando tudo o que havia contra o senador eram indícios de uma amizade incômoda mas dentro da lei, Demóstenes ainda jogou com a sorte: arriscou tudo ao subir na tribuna do Senado e garantir que foi pego de surpresa pela revelação das atividades criminosas do amigo. Disse que as quase 300 ligações telefônicas ocorreram por razões pessoais – sentimentais, até. Jurou inocência.

O efeito imediato foi positivo: mais de 40 senadores, muitos deles governistas, usaram os microfones do Senado para elogiar o discurso de Demóstenes. Mas a farsa não duraria muito. Assim que surgiram as primeiras revelações de que o senador, na melhor das hipóteses, traficava influência em favor de Cachoeira, já não restava defesa possível ao ex-inquisidor de corruptos. Sobrou o silêncio.

Demóstenes deixa no já combalido DEM um vácuo de figuras promissoras. Era ele, ainda que de forma incipiente, a maior aposta do partido para o possível projeto presidencial de 2014.

Acusações – O senador Demóstenes Torres foi atingido pela operação Monte Carlo, da Polícia Federal. As autoridades desmontaram uma extensa rede criminosa comandada por Carlinhos Cachoeira, empresário e controlador da máfia dos caça-níqueis no estado de Goiás. Foram presos policiais militares, civis e federais que tinham participação no esquema. Mas a maior surpresa veio de conversas entre Demóstenes Torres e Cachoeira, interceptadas pelos policiais. Além de ter recebido do criminoso um presente de casamento no valor de 30 000 dólares, o senador foi flagrado pedindo auxílio financeiro, fazendo lobby para o contraventor e negociando o uso de um jatinho de Cachoeira.

Conversas de Cachoeira reveladas pelo Jornal Nacional tornaram a situação do senador ainda mais complicada. O chefe da quadrilha aparece negociando recursos com comparsas e, em vários trechos, cita o nome do parlamentar. Carlinhos Cachoeira chega a falar em “um milhão do Demóstenes”. Na quinta-feira, o PSOL entregou ao Conselho de Ética do Senado um pedido de abertura de processo por quebra de decoro parlamentar. E o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a abertura de inquérito contra o parlamentar.

Leia a íntegra da carta de desfiliação de Demóstenes Torres:

A Sua Excelência o Senhor

Senador José Agripino Maia

Presidente Nacional do Democratas

Senhor Presidente,

Sirvo-me do presente para a cusar o recebimento do expediente a mim enviado por Vossa Excelência na noite de ontem (02/04/2012), dando-me conta de ter o Democratas decidido em relação a minha conduta que:

“Houve desvio reiterado do Programa Partidário, principalmente no que diz respeito à ética, na medida em que exsurge, do que veiculado, estreita relação de Vossa Excelência com o citado contraventor… É inevitável a instauração do pertinente processo ético disciplinar para o fim de promover a aplicação da sanção prevista no Estatuto, qual seja a expulsão do Partido.”

Assim, embora discordando frontalmente da afirmação de que eu tenha me desviado reiteradamente do Programa Partidário, mas diante do pré-julgamento público que o Partido fez, comunico a minha desfiliação do Democratas, nos termos traçados pelo artigo 1º, § 1º, inciso III, última figura da Resolução nº 22.610, de 25 de outubro de 2007.

Atenciosamente,

Senador Demóstenes Torres