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O carlismo repaginado de ACM Neto enfrenta o PT

Desgaste do governo petista com as greves de professores e policiais acirrou os ânimos entre eleitores saudosos do período em que Antônio Carlos Magalhães dominou a Bahia

Antônio Carlos Magalhães Neto gosta de dizer que “só roeu o osso”, quando se refere à sua condição de oposicionista em comparação com o período em que o avô, morto em 2007, dominou a política baiana. Ser reconhecido como um integrante da linhagem de ACM sempre foi um patrimônio político e eleitoral valioso para o deputado que tenta, pelo DEM, a prefeitura de Salvador. Na primeira fase da campanha, as reminiscências do estilo “osso duro de roer” do velho ACM foram decisivas para atrair o eleitorado que pode levar o herdeiro da família ao segundo turno, enfrentando o petista Nelson Pelegrino – os dois estão empatados na casa dos 30% de preferência, segundo as últimas pesquisas de intenção de voto.

Dois episódios de 2012 em particular trouxeram para uma parcela do eleitorado da capital baiana a lembrança de ACM. A greve dos professores encerrada em agosto, que se estendeu por 115 dias, deixando mais de um milhão de estudantes fora das salas de aula, e a traumática paralisação da polícia baiana no início do ano desgastaram a imagem do governo estadual de Jaques Wagner (PT). Segundo cientistas políticos ouvidos pelo site de VEJA, esse cenário, composto ainda pela forte insatisfação dos eleitores com o governo do prefeito João Henrique Carneiro (PP), criaram o espaço para a imagem de um prefeito “mais forte” – o que inevitavelmente ressuscita a imagem do patriarca da família e das características que fizeram colar nele o apelido “Toninho Malvadeza”.

“As greves passaram a imagem de um governo que não teve força. Nas ruas, as pessoas diziam que ‘ACM acabaria com isso em uma semana’. O crescimento da criminalidade aumentou o desejo por segurança, por um governo com ação incisiva. Isso é imediatamente associado à memória da Bahia do ACM velho”, explica Joviniano Neto, professor de ciência política da Universidade Federal da Bahia. “ACM Neto é jovem, foi lançado como a novidade em oposição a um governo lento, acusado de inoperância. A novidade dele, no entanto, tem raízes em tradições antigas no estado. É sucessor do carlismo, mas de um carlismo que procurou se repaginar, recorrendo a outros instrumentos e desfazendo-se de vícios do autoritarismo”, afirma Jovianiano.

A construção da imagem de ACM em 52 anos na política é pontuada por episódios que tiveram interpretações distintas: uma para o Brasil, outra para seus seguidores na Bahia. Entre as passagens mais recentes do ‘estilo ACM’ de fazer política está a briga que, em 2000, foi travada com o peemedebista Jader Barbalho (PMDB-PA), com transmissão ao vivo pela TV Senado e troca de acusações e exposição de dossiês entre os dois principais caciques do Congresso à época. Para o país, ACM estava ali manchando a imagem da Casa. Para os admiradores do carlismo, ele encarnava naquele momento o aguerrido defensor de seus direitos e reforçava a imagem de político combativo.

A capacidade de agir com determinação, considerado o cenário em Salvador e a imagem de fragilidade do atual prefeito, pode ser usada como trunfo por ACM Neto. Mas ser neto de ACM tem dois lados. O parentesco certamente ainda rende muitos votos, mas apostar nessa associação de forma descuidada traria desgastes. Entre os concorrentes à prefeitura, o carlismo é abordado de maneiras curiosamente opostas. O candidato do PMDB, Mário Kertész, que foi prefeito da capital baiana indicado por ACM, defende o legado do patriarca. Para evitar que o agora concorrente se beneficie da herança carlista, refere-se ao velho ACM como “o verdadeiro” – e ACM Neto seria o “genérico”, uma cópia piorada.

Já o petista Pelegrino, principal rival do DEM nestas eleições, prefere abominar as décadas em que ACM comandou o estado. No último debate do primeiro turno, realizado na noite de quinta-feira na Rede Globo, Pelegrino afirmou que no governo carlista “a Bahia se tornou a capital nacional dos grupos de extermínio”.

Debate em Salvador: ACM Neto e os demais candidatos discutiram propostas para a cidade

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O líder do DEM na câmara evita comparações com o avô. Diz que os dois vivem momentos muito diferentes, com realidades distintas. E afirma que já não se incomoda com as críticas e acusações. “Estou acostumado com isso desde que nasci. Isso me afetava do ponto de vista pessoal antes de eu começar a fazer política. Eu era neto. Depois, quando passei a ser o deputado, foi natural me acostumar. Não estamos presos a essa história de trazer o carlismo de volta. Está claro na memória das pessoas a força do Antonio Carlos, de um cara que defendeu e brigou pela Bahia. Isso é o que existe de fato”, afirma.

Fragmentação do PMDB – Em Salvador, a aproximação do primeiro turno deu início, na semana passada, às conversas para tentar definir os arcos de apoio na fase decisiva do pleito. Neto, que conta no primeiro turno com o apoio do PTN, PPS, PV e PSDB, afirmou na quinta-feira que pretende buscar o apoio do PMDB, de Geddel Vieira Lima, que é oposição ao PT da Bahia. Mário Kertész, o candidato peemedebista, no último debate apontou sua artilharia contra Neto, dando sinais de que poderia apoiar o petista Pelegrino num eventual segundo turno. Neto afirmou que a postura do candidato peemedebista não é obstáculo para uma aliança com Geddel. E, no momento, aposta em uma fragmentação do PMDB.

“Vou procurar diálogo com o PMDB. E vou procurar diálogo com todas as correntes políticas que não puderam estar comigo, mas que eventualmente poderão estar. Às vezes, você não traz o candidato, mas traz o vice, os vereadores que o acompanharam no primeiro turno”, disse, em uma caminhada na quinta-feira, apostando em sua capacidade de repetir algo que o velho ACM sempre conseguiu com maestria: compor como for preciso para garantir espaço no poder.

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