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O caminho a seguir

Para que seu governo seja bem-sucedido, o presidente Jair Bolsonaro terá de contornar suas limitações pessoais e dominar seus instintos mais rudimentares

Por Da Redação 22 fev 2019, 07h00

Na terceira edição de janeiro, VEJA estampou na capa uma montagem com dois presidentes: a cabeça de Jair Bolsonaro no corpo de Jânio Quadros, naquela célebre foto em que o ex-presidente embaralha os próprios pés. A revista jogava luz sobre as confusões no começo do governo de Bolsonaro. O presidente, nos primeiros dez dias, fizera três anúncios públicos que logo foram corrigidos por seus auxiliares e enfileirara declarações desencontradas sobre a mudança da embaixada brasileira em Israel, a instalação de uma base militar americana no Brasil e a extinção da estatal de comunicação, a EBC.

À primeira vista, pareciam trapalhadas corriqueiras na estreia, normais em qualquer governo recém-chegado. Mas havia um dado incomum e desconcertante. Nos governos democráticos anteriores, o presidente recém-empossado usava sua autoridade para evitar conflitos e cabeçadas entre os auxiliares. Bolsonaro era, ele mesmo, a fonte primária do salseiro. Escreveu VEJA: “No governo atual, ao contrário, as cabeçadas começam pelo próprio chefe do Executivo, e são seus comandados que servem como barreira de contenção para seu estilo impulsivo”.

A edição passada de VEJA mostrou na capa o presidente com a faixa presidencial no peito e um detalhe peçonhento no bolso do paletó. A revista informava sobre “a mais bizarra das crises políticas”, na qual o ministro Gustavo Bebianno e Bolsonaro, com o auxílio militante do filho Carlos, vinham se desentendendo em razão da denúncia de desvio de dinheiro no PSL. Às trapalhadas e confusões da estreia, somava-se um clima envenenado por futricas palacianas. A crise, que resultou na primeira demissão de um ministro, repetia o dado desconcertante da semana inicial: os auxiliares de Bolsonaro revezaram-se em conversas e telefonemas para tentar acalmar o presidente. Queriam neutralizar a influência corrosiva dos filhos e, quem sabe, convencê-lo a agir com mais serenidade e equilíbrio. Outra vez, Bolsonaro foi a fonte do tumulto.

Na terça-feira 19, quando o site de VEJA divulgou os áudios de WhatsApp das conversas entre Bolsonaro e o ministro demitido, aquela realidade que já se esboçava desde a posse desnudou-se por inteiro diante do país (veja a reportagem). Nos áudios, é farta a evidência de que Bolsonaro, “bem envenenado” pelo filho Carlos, nas palavras do então ministro Gustavo Bebianno, poderia ter reduzido a crise a pó, e nem precisaria de maiores habilidades políticas para fazê-lo. Em vez disso, o presidente tornou-se ele próprio a fonte da desordem. Nos diálogos, boa parte deles de dolorosa desimportância, Bolsonaro mostra-se ressentido e preocupado com supostos “inimigos” e com a possibilidade de complôs, traições, deslealdades.

Por tudo o que veio a público nestas primeiras semanas de governo, está evidente que Bolsonaro é, em termos políticos e técnicos, um rebento típico do mundo do baixo clero do Parlamento, onde viveu nas últimas três décadas. Para que seu governo seja bem-sucedido, ele terá de contornar suas limitações pessoais e dominar seus instintos mais rudimentares. A melhor forma de fazê-lo é dar menos ouvidos aos filhos e mais ouvidos aos adultos que o cercam.

Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2019, edição nº 2623

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