‘Novo normal’ no Congresso deixa pastor à vontade para orar e oferecer propina ao mesmo tempo
Sob reserva, deputado relatou a VEJA cena transcorrida em seu gabinete quando um reverendo o visitou para pedir verba para organização ligada a igreja
Desde que passaram a se apoderar de um naco significativo do Orçamento federal por meio das emendas parlamentares, os mandachuvas do Congresso Nacional seguem um roteiro parecido: reservar, a cada ano, cada vez mais verbas para os repasses cuja destinação eles mesmos indicam — são estarrecedores 61 bilhões de reais carimbados para esse fim em 2026 — , vendendo períodos de governabilidade ao Poder Executivo em troca de garantias crescentemente ambiciosas de que a grana chegará, de fato, aos seus redutos, e repartir os fundos de maneira desigual, seguindo critérios obscuros de influência política que favorecem uma casta mais abonada, em detrimento da maioria dos 513 deputados e 81 senadores (que, ainda assim, hoje dispõe individualmente de ao menos 40 milhões de reais no ano para promover seus interesses paroquiais).
As mais recentes revelações de investigações conduzidas sob a batuta do ministro Flávio Dino, relator de ações no Supremo Tribunal Federal que tiveram origem em pedidos de declaração de inconstitucionalidade do chamado “orçamento secreto”, provam que alguns “privilegiados” podem até prescindir de um mandato parlamentar para manejar o dinheiro dos contribuintes. Tudo indica que a prática de negociar emendas com prefeitos, empresários e lobistas em troca do compromisso de receber uma porcentagem do repasse em forma de propina é corriqueira e ganhou ares de normalidade nos corredores do Congresso.
Tal clima dá azo a episódios que mais parecem ter saído de uma esquete de comédia, mas não passam de uma trágica normalização da bandalha. Sob reserva, um deputado relatou a VEJA uma reunião em seu gabinete com um pastor evangélico. De idade avançada, o líder espiritual chegou, em dado momento, a interromper o papo para envolver os presentes em uma oração. Feita a prece, explicou que buscava angariar verba de emendas para uma organização social ligada a sua igreja. O parlamentar despediu-se sem se comprometer.
Seu assessor acompanhava o pastor até a saída quando foi surpreendido com uma oferta nada cristã: “Olha, a gente pode devolver 15%, 20% da emenda se vocês quiserem”.
O assessor respondeu que seu chefe não queria nem ouvir falar de acertos como aquele. O visitante não se fez de rogado e fez uma derradeira tentativa: “Não se preocupe. O dinheiro pode ficar para você”.







