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No Alemão, Exército recorre a paraquedistas para conter resistência do tráfico

Tropa de elite ficará 12 dias no conjunto de favelas, com a missão de combater investida de criminosos que tentam faturar com venda de drogas nas festas de fim de ano. Ocupados há um ano, morros ainda têm tráfico 'formiguinha'

Por Cecília Ritto 9 dez 2011, 12h07

A Brigada Paraquedista ficará acampada na Serra da Misericórdia, ponto alto do Complexo do Alemão, de onde se tem uma visão ampla das favelas. Foi por esse mesmo local que os traficantes fugiram da Vila Cruzeiro para o Alemão em novembro, imagem que se tornou o ícone da ocupação

O Complexo do Alemão recebeu nesta sexta-feira um reforço de 600 homens da Brigada Paraquedista do Exército. Como não são integrantes da Força de Pacificação- composta por 1.800 militares e instalada desde a ocupação do conjunto de favelas, os paraquedistas estão sendo chamados de FT, abreviação para Força Tarefa. A permanência, segundo os militares, será curta e estratégica. A previsão é de que a brigada fique apenas 12 dias no Alemão. O objetivo é ‘sufocar’ o tráfico de drogas que ainda sobrevive na complexa topografia do conjunto de favelas.

O reforço – e toda medida para conter o tráfico – é bem-vindo. Mas também acende, para a população do Rio, um sinal de preocupação. A ocupação do Alemão, no fim de novembro de 2010, foi tratada como um épico para a segurança pública no Rio. E não há como negar que a entrada de homens armados do estado, em substituição aos bandidos encarapitados, ameaçando a população e a polícia com fuzis, foi algo para se aplaudir. Mas um ano de presença do Exército não foi o bastante para afugentar de forma satisfatória os traficantes ‘discretos’. E não há, por enquanto, garantia de que a qualquer momento os bandidos tentarão retomar o controle territorial – este, como prega a política de segurança do governo do estado, na condição de pedra fundamental para qualquer tentativa de pacificação.

Ao Exército não faltam armas. Mas no Alemão, onde cumprem papel de polícia por um tempo que já se comprovou excessivo, o desafio se mostra maior do que estimavam os oficiais e os gestores, a partir dos gabinetes. As ruas estreitas impossibilitam a passagem de veículos e facilitam a atuação da venda de drogas. Em quase todas as vias, só é possível que os militares façam o patrulhamento a pé ou em motocicletas, o que não tem se mostrado suficiente para combater o tráfico no Alemão. A chegada dos paraquedistas na segunda semana de dezembro não foi à toa. A data foi escolhida pela proximidade das festas de fim de ano, quando, segundo o relações-públicas da Força de Pacificação, major Leonardo Watson, aumenta o movimento do tráfico de drogas. “Alguns pontos de tráfico podem retornar nesse momento. A ideia é conter o crime organizado. Há crianças agora de férias e não há nada mais interessante do que passar a imagem de tranquilidade para elas”, afirmou Watson.

A Brigada Paraquedista ficará acampada na Serra da Misericórdia, ponto alto do Complexo do Alemão, de onde se tem uma visão ampla das favelas. Foi por esse mesmo local que os traficantes fugiram da Vila Cruzeiro para o Alemão em novembro, imagem que se tornou o ícone da ocupação. Os 600 homens vão intensificar o patrulhamento pelas ruelas. “Se o tráfico tiver itinerante, terá que sair”, afirma Watson. O intuito é também afastar os possíveis traficantes que aproveitariam o período de dezembro para voltar ao Alemão.

Como só terão 12 dias para combater as ações criminosas na imensidão do conjunto de favelas, a atuação dos paraquedistas se concentrará em pontos já mapeados como possíveis locais de venda de drogas. “Será um trabalho cirúrgico”, diz Watson. A decisão de enviar os paraquedistas partiu do Comando de Operações Terrestres, em Brasília, e do Ministério da Defesa.

Alemão e Vila Cruzeiro estão ocupados há um ano – e a previsão é de que o Exército só saia em junho de 2012, quando chegarão os policiais militares da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Nesse período, houve denúncias de abusos dos militares e prisões de moradores por desacato. Em outubro, com a autorização judicial, o Exército conseguiu mandados para entrar e vasculhar as casas de moradores de todo o Complexo do Alemão. Apesar da rigidez no trato com a população, o tráfico se manteve. A venda se dá em menor escala, o que chamam de tráfico de formiguinha, mas existe e se impõe como um desafio para as forças de segurança.

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