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Teich poupa Bolsonaro e diz que fez o seu melhor e deixa um plano pronto

Ex-ministro da Saúde afirma que 'a vida é feita de escolhas e hoje escolhi sair', mas não revela por que pediu exoneração após menos de um mês no cargo

Por Da Redação - Atualizado em 15 Maio 2020, 16h35 - Publicado em 15 Maio 2020, 16h07

O ministro da Saúde, Nelson Teich, evitou, em entrevista coletiva nesta sexta-feira, 15, criticar o presidente Jair Bolsonaro, apesar de ter sido contrariado várias vezes pelo chefe do Executivo no curto tempo em que esteve à frente da pasta. Também agradeceu por ter tido a oportunidade de trabalhar no sistema público de saúde e disse que “foi construído um programa de testagem, que está pronto para ser implementado”.

“A vida é feita de escolhas e hoje escolhi sair. Digo a vocês que dei o melhor de mim no período em que estive aqui. Não é nada simples estar à frente de um ministério desses num momento tão difícil”, afirmou. “Traçamos aqui um plano estratégico. As ações foram iniciadas e o plano deve ser seguido. Todo o tempo trabalhamos para passar por um momento como esse, e todo o sistema [de saúde] é pensado em paralelo”, disse.

Ele afirmou também que durante a sua gestão procurou atuar com outros entes da federação. “É uma luta diária e intensa para que possamos auxiliar estados e municípios a passarem por isso. Deixo um plano de trabalho pronto para auxiliar os secretários estaduais, municipais, prefeitos e governadores a tentar entender o que está acontecendo e tentar definir os próximos passos”, disse.

Ele agradeceu a Bolsonaro apesar de ter sido contrariado – e até humilhado – mais de uma vez pelo presidente. “Agradeço ao presidente Jair Bolsonaro a oportunidade que me deu de fazer parte do Ministério da Saúde. Seria muito ruim nao ter tido a oportunidade de atuar no ministério pelo SUS (Sistema Único de Saúde)”, disse.

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Teich ficou menos de um mês no cargo. Ele tomou posse no dia 17 de abril e pediu exoneração nesta sexta-feira, 15.  Ele vinha sendo pressionado para apoiar o uso da cloroquina em pacientes com sintomas leves de coronavírus. Na quinta-feira 15, em reunião com empresários organizada pelo presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf, Bolsonaro disse que iria liberar o uso do medicamento – cuja eficiência no tratamento da doença ainda é objetivo de controvérsia – mesmo à revelia de Teich.

O agora ex-ministro vinha sendo questionado por médicos que lhe cobravam coerência em relação ao uso da cloroquina já que Teich, enquanto especialista em oncologia, sempre condenou uso de medicamentos sem comprovação científica, algo que ocorre com frequência em tratamentos de pacientes com câncer.

Teich também vinha sendo pressionado a agilizar a flexibilização da política de isolamento social, criticada por Bolsonaro. Na quarta-feira, 13, ele havia cancelado uma entrevista coletiva em que anunciaria diretrizes para atribuir aos estados a decisão de relaxar a quarentena, com base em cálculos que levam em conta números de casos confirmados e leitos de UTIs disponíveis, entre outros dados. Para publicar a portaria com as determinações, Teich precisa do apoio de secretários de Saúde estaduais e municipais, que são a favor do isolamento social. Esse parâmetro técnico foi uma promessa de Teich a Bolsonaro pouco antes da nomeação. A demora do então ministro em formalizar esses critérios irritava Bolsonaro.

O ministro também ficou contrariado quando foi informado por jornalistas na segunda-feira 11, que Bolsonaro havia publicado um decreto tornando salões de beleza, barbearias e academias como atividades essenciais — portanto, liberadas para funcionar durante a quarentena. Teich não havia sido consultado. A maior parte dos governadores sinalizou que não irá seguir a determinação.

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O mais cotado para assumir o cargo é o número 2 do Ministério da Saúde, general Eduardo Pazuello, que é o atual secretário-executivo da pasta – ele assumiu após a nomeação de Teich, num processo de militarização da pasta tocado pelo Palácio do Planalto. Ele estava ao lado de Teich durante a entrevista coletiva, mas não falou. A avaliação dentro do ministério é que Pazuello deve ser o substituto em razão da estrutura que ele montou com os militares e pelo fato de que a equipe já obedece somente a ele – seria muito difícil para um sucessor diferente mudar isso.

Outro nome bastante cogitado é o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), que também é médico – ele tem se notabilizado como um ferrenho crítico da política de isolamento social e é muito próximo a Bolsonaro, de quem foi ministro da Cidadania. Outra possibilidade é de que o cargo entre na negociação com o Centrão – o grupo parlamentar que o governo tenta atrair cobiça o posto. A médica Nilse Yamaguchi é outro nome que vem sendo especulado – ela já esteve algumas vezes com Bolsonaro.

Em post publicado logo após a demissão de Teich nas redes sociais, o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta pediu orações. Em uma curta mensagem no Twitter, Mandetta pediu para que as pessoas respeitem o isolamento social e acreditem na ciência para combater a Covid-19. “Oremos. Força SUS. Ciência. Paciência. Fé! #FicaEmCasa”, escreveu Mandetta.

Para Mandetta, Bolsonaro é leigo em relação ao uso da cloroquina e é influenciado por médicos que defendem o medicamento para tratar pacientes de coronavírus. Em sua gestão, Mandetta atribuiu ao Conselho Federal de Medicina a responsabilidade por determinar o uso do medicamento. A entidade recomendou a administração apenas em casos graves e com monitoramento dos sinais vitais. “Desconfio que muitas das mortes que ocorreram em casa desses pacientes se deu em função da arritmia provocada pela cloroquina, principalmente em pacientes idosos”, disse o ex-ministro.

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