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MP denuncia quatro por morte do menino Bernardo

Além do pai, madrasta e amiga da madrasta, promotoria decide acusar também o irmão da amiga, que teria aberto a cova onde o corpo do menino foi enterrado

Por Felipe Frazão - 15 Maio 2014, 15h25

(Atualizada às 17h)

O Ministério Público do Rio Grande do Sul denunciou na manhã desta quinta-feira quatro pessoas pela morte do menino Bernardo Boldrini, de 11 anos: o médico Leandro Boldrini, pai de Bernardo, a enfermeira Graciele Ugulini, madrasta do garoto, a assistente social Edelvânia Wirganovicz e seu irmão, Evandro Wirganovicz. Se a Justiça aceitar a acusação, apresentada ao Fórum de Três Passos (RS), os quatro serão levados a júri popular.

A Polícia Civil havia indiciado apenas três suspeitos por homicídio qualificado e ocultação de cadáver: o pai, a madrasta e Edelvânia, amiga da madrasta. O Ministério Público, porém, decidiu denunciar também o irmão de Edelvânia, por ocultação de cadáver – ele teria aberto a cova onde o corpo de Bernardo foi enterrado.

A promotoria também decidiu acusar o pai de Bernardo de um terceiro crime: falsidade ideológica. No entendimento da promotora Dinamárcia Maciel de Oliveira, Leandro cometeu o crime ao registrar o boletim de ocorrência sobre o desaparecimento do filho na Delegacia de Três Passos. Segundo a promotora, Boldrini “estava ciente de sua morte [de Bernardo], executada dois dias antes, por sua ordem, em conluio com os demais acusados”.

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Dinamárcia afirmou que Leandro Boldrini “patrocinou despesas e recompensas pela morte do filho”. “Leandro Boldrini tinha o domínio do fato. A decisão da morte do filho foi dele. A prova existe”, disse a promotora. “Graciele, parceira e cúmplice de Leandro Boldrini em tudo, como os próprios familiares dizem ‘unidos para tudo e por tudo’, não gostava do enteado, assim como Leandro nunca demonstrou amor pelo filho. Edelvânia, atraída como cúmplice desse hediondo homicídio, cedeu aos apelos da amiga que lhe acenou com mãos cheias de dinheiro”, destacou a promotora.

Na denúncia, a acusação afirmou que o motivo do assassinato foi o “interesse patrimonial” de Boldrini e Graciele em bens da herança deixada pela mãe do menino, Odilaine Uglione, que se suicidou em 2010. Dinamárcia assinalou também que o casal considerava o menino “um estorvo” e “via em Bernardo uma continuidade de Odilaine”.

Se condenados, os suspeitos devem ter as penas agravadas por causa das quatro circunstâncias qualificadoras do assassinato e das agravantes à ocultação do cadáver: motivo torpe [recompensa, no caso de Edelvânia, e interesse em bens, no caso do casal], motivo fútil [conflito de convivência entre Bernardo, o pai e a madrasta], emprego de veneno [superdosagem do medicamento midazolam] e dissimulação que dificultou a defesa da vítima [mentiras contadas pela madrasta para medicar o menino com comprimidos e injeção letal], crime contra menor de 14 anos e contra descendente.

Prisões – A Justiça de Três Passos decretou nesta terça-feira a prisão preventiva de Leandro, Graciele e Edelvânia . À polícia, a madrasta e a amiga confessaram participação no crime. Leandro afirma ser inocente, mas a polícia acredita que ele planejou o crime e tentou, por meio de telefonemas, despistar a investigação. Eles estão detidos desde o dia 14 de abril. Boldrini está na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas. Graciele e Edelvânia estão em celas separadas na Penitenciária Feminina de Guaíba.

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O Ministério Público recomendou que a Justiça mantenha a prisão temporária por trinta dias de Evandro Wirganovicz, detido no último sábado. A Polícia Civil ainda investiga o envolvimento do suspeito também no homicídio de Bernardo.

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O caso – O cadáver do menino Bernardo Boldrini foi encontrado no dia 14 de abril, enterrado em uma cova improvisada na beira de um rio em Frederico Westphalen, cidade vizinha a Três Passos (RS) – onde a família morava. Ele já estava morto havia dez dias, segundo a certidão de óbito. A Polícia Civil começou a procurar por Bernardo no dia 6 de abril, um domingo, após o pai dar queixa do desaparecimento do filho. Segundo a versão de Leandro Boldrini, o filho teria ido passar o fim de semana na casa de um amigo e não retornou. Policiais passaram a fazer buscas por Bernardo e a investigar os últimos passos do menino e de familiares, inclusive o pai e a madrasta.

Os investigadores só encontraram o corpo do menino depois de interrogar Edelvânia, que indicou a localização do corpo. A assistente social relatou à Polícia Civil que a madrasta queria fazer o menino dormir e, por isso, tentou dopar Bernardo em Três Passos, antes de levá-lo de carro a Frederico Westphalen. Graciele enganou o menino, dizendo que o levaria para comprar um aquário (ela voltou da cidade com uma TV). Na estrada entre as cidades, a madrasta foi multada – momento em que um policial avistou o garoto acordado. Edelvânia também disse que Graciele repetiu a dose ao chegar ao município vizinho e depois aplicou uma injeção letal em Bernardo. Graciele confessou aos investigadores que deu medicamentos três vezes seguidas ao garoto de 11 anos, mas alegou que ele que morreu “acidentalmente”. Um laudo da perícia feito em tecidos retirados do cadáver apontou a presença do sedativo midazolam no organismo do menino.

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