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Mourão: de conspirador a apólice de seguro do governo Bolsonaro

Em pouco mais de um ano, o vice mudou de postura: vem mostrando total afinação com o discurso do chefe

Por Marcela Mattos - Atualizado em 22 maio 2020, 11h34 - Publicado em 22 maio 2020, 06h00

Em 2018, Jair Bolsonaro escolheu o seu vice usando, como de costume, critérios bem peculiares. Conhecido por enxergar conspirações e inimigos em todos os lugares, o ex-capitão do Exército, que ainda hoje dorme com uma arma ao alcance da mão dentro do Palácio da Alvorada, sempre acreditou que, se um dia chegasse à Presidência, as forças políticas estariam de prontidão para derrubá-lo. Era recomendável, portanto, ter como companheiro de chapa alguém pouco lustroso aos olhos dos adversários, que não lhe fizesse sombra, fosse fiel e ainda servisse de redoma. Bolsonaro cogitou várias alternativas. Faltando poucas horas para o registro das candidaturas, ele ligou para Hamilton Mourão fazendo o convite. “É uma missão. Vai nessa?” O general da reserva topou, a dupla foi eleita e, em dezesseis meses de governo, a aliança entre eles já foi do céu ao inferno.

O começo foi a etapa mais difícil. Logo depois da eleição, o vice-presidente se mostrou moderado e pacificador, conversou com lideranças de oposição, dedicou especial atenção à imprensa e contrariou Bolsonaro publicamente em temas polêmicos — parecia lustroso demais, e fazia sombra. O comportamento desenvolto logo acendeu o sinal de alerta, e o general então passou a ser atacado pela ala ideológica, que inclui o filho Carlos Bolsonaro. As divergências chegaram a ponto de Mourão ser alvo de um pedido de impeachment apresentado por aliados do presidente. A ação, é claro, acabou arquivada, mas o recado foi passado e compreendido. Depois disso, o vice submergiu e, disciplinado, passou a cumprir agendas predeterminadas pelo presidente.

Em dezembro do ano passado, Bolsonaro não queria ir à posse do presidente da Argentina, Alberto Fernández, com quem teve alguns entreveros, e não pretendia mandar um representante oficial para a cerimônia. Convencido a mudar de ideia, acionou Mourão de véspera: “Quer ir para Buenos Aires tomar um vinho?”, perguntou. No caminho do aeroporto, o general ligou para um amigo para reclamar da missão — mas cumpriu. Já neste ano, o vice ganhou do presidente uma nova atribuição, bem longe de Brasília: coordenar o Conselho da Amazônia. Por causa disso, ele acabou participando de uma conferência com o governador do Maranhão, o comunista Flávio Dino. “O que leva o vice-presidente da República a se reunir com o maior opositor socialista do governo, que se mostra diariamente com atitudes totalmente na contramão do seu presidente?”, alfinetou o filho Carlos em sua rede social. No delirante mundo de alguns bolsonaristas, o movimento de Mourão foi visto como uma manobra para enfraquecer o discurso do presidente contra o isolamento social. O general respondeu à crítica com um juramento de lealdade: “Lembro que sou o Vice do Presidente Jair Bolsonaro e que os paraquedistas andam sempre no mesmo passo”, escreveu em uma rede social, ressaltando o passado dos dois na brigada. A publicação acompanhava a foto que ilustra esta reportagem. Apesar de não ter exatamente esse propósito, a declaração surtiu o efeito que o presidente esperava quando convidou Mourão para compor a chapa.

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Embora tal processo ainda não reúna condições políticas para ocorrer, hoje existem trinta pedidos de impeachment de Bolsonaro na Câmara (leia reportagem na pág. 44). E, toda vez que essa possibilidade pinta no horizonte, é natural que os olhos de quem acompanha política se voltem para o vice. Nos dois casos que o Brasil experimentou, cada suplente reagiu de uma maneira. Itamar Franco simplesmente se afastou de Collor quando as denúncias começaram. Não mexeu uma palha a favor, mas também não articulou sua queda no Congresso. Michel Temer já teve um papel, digamos, bem mais ativo na queda de Dilma Rousseff.

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Mourão está com outra postura. O vice vem mostrando total afinação com o discurso do chefe, sem nenhum traço de conspiração. Em encontros com empresários, banqueiros e políticos, tem feito questão de ressaltar a necessidade de manter a normalidade institucional do país — entendido como um recado direto para quem flerta com a ideia de impeachment do presidente. Nessas reuniões, defendeu o acordo do governo com o chamado Centrão, criticou a forma como o ex-­ministro Sergio Moro deixou o governo, prometeu a retomada do projeto liberal na economia ao fim da crise e demonstrou preocupação com os escândalos de corrupção que envolvem a compra de materiais para tratar o coronavírus. “No final das contas, se tudo isso der errado, vai cair nas costas de quem? Cai sempre no colo do coitado do Jair”, afirmou recentemente. Por enquanto, pelo menos, os paraquedistas estão andando no mesmo passo.

Publicado em VEJA de 27 de maio de 2020, edição nº 2688

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