Moro, Appio e Lava-Jato: novas investigações colocam em evidência a 13ª Vara de Curitiba
Personagens e escândalos estão novamente em destaque
Em fevereiro de 2014, o então juiz Sergio Moro decretou a prisão de um grupo de doleiros suspeitos de usar postos de gasolina para lavar dinheiro de operações ilegais. No computador de um deles foi encontrada uma nota fiscal de um carro importado comprado para um diretor da Petrobras, que seria identificado mais à frente como peça do maior escândalo de corrupção da história. Desde então, a 13ª Vara Federal de Curitiba, onde tramitaram os processos derivados da investigação, não parou de produzir fatos surpreendentes. A Lava-Jato primeiro desmantelou a sociedade que havia entre o governo, grandes empreiteiras e políticos para saquear os cofres da petroleira. No ato mais espetacular, o então ex-presidente Lula foi condenado e preso. Depois disso, um hacker invadiu um aplicativo de mensagens e copiou diálogos que mostravam Moro combinando detalhes das apurações com o Ministério Público, o que provocou a anulação de vários processos. Investigadores passaram a ser investigados e criminosos confessos incorporaram o papel de vítimas — uma sequência de reviravoltas e escândalos que parece não ter fim.
Na semana passada, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que fossem realizadas buscas na 13ª Vara de Curitiba. O objetivo da operação era localizar, entre outras coisas, um arquivo de vídeo que supostamente compromete autoridades judiciárias do Paraná. Segundo um dos investigados que passou à condição de vítima, Sergio Moro teria usado esse material como instrumento de chantagem para pressionar colegas e conseguir manter condenações de alguns dos investigados na Lava-Jato. As imagens seriam de uma tal “festa da cueca”, que teria acontecido num hotel da capital paranaense. Agentes vasculharam processos, acordos de colaboração e mídias armazenadas nos computadores da Vara. Além da palavra do “ex-investigado”, um ex-delator que já foi preso e condenado por lavagem de dinheiro, até onde se sabe não há evidências sobre a existência do vídeo. A Polícia Federal não informou o resultado da diligência. Procurado por VEJA, o hoje senador Sergio Moro (União Brasil-PR) afirma que a incursão autorizada pelo STF teria objetivos meramente políticos.
O ex-juiz da Lava-Jato é pré-candidato ao governo do Paraná. Um levantamento do Paraná Pesquisas mostra que o parlamentar lidera com folga a disputa, com quase 19 pontos percentuais à frente. No cenário mais competitivo, teria 47,5% das intenções de voto contra 28,8% do deputado estadual Requião Filho (PDT). Apesar disso, a situação não é de absoluto conforto. Pelo lado político, a candidatura do parlamentar ainda enfrenta resistências do PP, partido que tenta formar uma federação com o União Brasil, e de lideranças locais. Do lado pessoal, as cinzas da Lava-Jato ameaçam causar embaraços. A ordem para que fosse realizada a “diligência in loco” no antigo tribunal de Moro derivou de uma investigação instaurada a partir de denúncias do juiz Eduardo Appio, que assumiu o comando da 13ª Vara Federal em 2023. Crítico da Lava-Jato, ele afirmou ter se defrontado com indícios de que o colega havia cometido ilegalidades e abusos durante os anos em que esteve à frente dos processos da operação.
Foi Appio quem municiou o inquérito com o enredo sobre a existência de uma central de extorsões em Curitiba, ao enviar ao STF um depoimento confidencial do ex-deputado estadual paranaense Tony Garcia em que ele alega ter atuado como “agente infiltrado” no escândalo da Petrobras e acusa Moro de ter usado vídeos para chantagear os desembargadores que julgaram os recursos contra a condenação de Lula na Lava-Jato. A história foi encampada por um delegado da Polícia Federal, que relatou a Toffoli que o ex-juiz, mesmo afastado da magistratura desde 2019, continuaria usando as imagens para influenciar a decisão de juízes, desembargadores, procuradores e até a própria PF. No despacho, Toffoli não faz menção direta ao vídeo nem ao local onde ele estaria armazenado — uma “caixa de arquivo amarela”, segundo a versão de Garcia. “Não tenho nenhum receio sobre a investigação porque ela é baseada em relatos mentirosos e fantasiosos de criminosos condenados. Ela tem por objeto fatos de vinte anos atrás e não houve qualquer irregularidade. Espanta-me que isso possa ser levado a sério”, afirma Sergio Moro.
A 13ª Vara é de fato surpreendente. Eduardo Appio acabou afastado do cargo, quatro meses depois de ter assumido, por cometer abusos e ilegalidades — as mesmas acusações que fez contra seu antecessor. O juiz suspeitava que Moro tinha um sócio oculto numa banca de advocacia e decidiu investigar o caso por conta própria, telefonando para o escritório, passando-se por outra pessoa e fazendo ameaças. A conversa foi gravada, ele respondeu a um processo administrativo por causa do trote e depois assinou um termo de ajuste de conduta. O caso foi encerrado. “Era uma checagem de informação, fora do horário de expediente”, minimizou o juiz em uma entrevista. Se não bastasse, Appio se envolveu recentemente em outra confusão — esta bem mais constrangedora. O juiz está sendo acusado de furtar três garrafas de champanhe. E, numa incrível ironia, a cena foi toda documentada em vídeo.
Na noite de 18 de outubro passado, um sábado, câmeras de segurança gravaram os passos de um homem de camiseta azul-marinho e bermuda que caminhava pela seção de utensílios de cozinha de um supermercado de Blumenau (SC), cidade a 210 quilômetros de Curitiba. Ao que tudo indica, já havia uma suspeita sobre o que estava para acontecer. Carregando algumas sacolas, ele passou pela seção de utensílios domésticos, seguiu para a seção de bebidas, pegou uma garrafa do champanhe Moët & Chandon (399 reais a unidade), colocou-a em uma das sacolas, passou pelo caixa e caminhou tranquilamente em direção à saída do estabelecimento, onde dois seguranças já o aguardavam. Conduzido a uma sala, ele tentou explicar que, por distração, esqueceu de pagar a bebida. O problema é que aquela era a terceira vez que o mesmo homem saía do mesmo supermercado com uma garrafa de champanhe sem passar pela registradora. Depois do constrangimento, ele tirou do bolso um cartão de crédito, quitou a dívida e foi liberado.
A polícia catarinense identificou que o homem era o juiz Eduardo Appio pela placa de seu carro, um Jeep (veículo que vale 120 000 reais), que também aparece no vídeo. Informado do ocorrido, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região instaurou um processo administrativo para apurar o caso e afastou o magistrado preventivamente. A VEJA, Appio reafirmou que não houve furto, e sim esquecimento, e acusou os policiais de “politizarem” o caso. “Não é coincidência isso tudo acontecer numa cidade onde todo mundo é Bolsonaro, onde todo mundo vota na direita, na extrema direita. Muita gente acha que eu sou uma espécie de representante da esquerda, o que não é verdade. O delegado, inclusive, é candidato a deputado pelo PL”, disse o juiz. Se for considerado culpado, pode ser aposentado compulsoriamente, recebendo apenas parte de seu atual salário (39 000 reais). É mais um caso para a longa lista de confusões e escândalos envolvendo personagens da célebre 13ª Vara de Curitiba.
Publicado em VEJA de 12 de dezembro de 2025, edição nº 2974





