Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Mensalão: As lentes da história

Do enterro de Vargas ao julgamento do mensalão, o fotógrafo Gervásio Baptista esteve em todos os acontecimentos importantes da história nacional

O julgamento do mensalão, o maior escândalo de corrupção da história brasileira, vai ficar marcado como um dos principais acontecimentos do país. Nessa lista, figuram também o enterro de Getúlio Vargas, a inauguração de Brasília, a conquista da primeira Copa do Mundo, o golpe de 1964, a eleição e morte de Tancredo Neves. O baiano Gervásio Baptista, hoje fotógrafo do Supremo Tribuanl Federal, pode dizer que testemunhou todos esses acontecimentos. Ele esconde a idade. Certo é que, em atividade ininterrupta há pelo menos cinco décadas (há quem diga que a conta chega a sete), ele se tornou uma lenda do fotojornalismo nacional.

Se não tivesse as imagens para comprovar suas histórias, Gervásio passaria por mentiroso. Com uma inacreditável combinação de atrevimento e sorte, conseguiu fotografar todos os presidentes desde Vargas, sete Copas do Mundo (três títulos mundiais do Brasil) e líderes internacionais do quilate de John Kennedy, Charles de Gaulle, Evita Perón, Che Guevara, a Rainha Elizabeth, o papa João Paulo 2º e Mikhail Gorbachev.

Gervásio começou a carreira ainda garoto, no jornal Correio da Bahia. De lá, conheceu por acaso Assis Chateaubriand, que gostou da altivez do fotógrafo adolescente e levou-o para a revista O Cruzeiro. Menos de um ano depois, ele foi parar na revista Manchete. Na publicação de Adolpho Bloch, permaneceu até a extinção do periódico, em 2000.

Pela revista Manchete, Gervásio rodou o mundo. Viu a revolução cubana,a a tentativa de golpe contra Juan Perón na Argentina, esteve no Chile no início do governo do general Augusto Pinochet, cobriu a Revolução dos Cravos em Portugal, fotografou 16 concursos de Miss Universo, presenciou a sangrenta Guerra do Vietnã. E coleciona uma lista infindável de histórias.

Um exemplo: quando a rainha Elizabeth visitou Salvador, em 1968, o prefeito Antônio Carlos Magalhães separou um presente para entregar à monarca britânica num passeio pela cidade. “Uns balangandãs”, na definição de Gervásio. ACM não queria perder os dividendos políticos que a imagem poderia lhe render. Chamou o fotógrafo e improvisou uma pequena aula de inglês. Na hora do clique, Gervásio repetiu a frase que acabara de aprender: “My queen, look at me!”. Deu certo. Tancredo – Logo no início da carreira, o fotojornalista foi escalado para cobrir o enterro de Getúlio Vargas na cidade gaúcha de São Borja. Lá, conheceu o jovem Tancredo Neves. Gervásio fez a viagem de ida de ônibus, mas voltou ao Rio de Janeiro de avião; embarcou escondido no banheiro de uma das aeronaves da comitiva do governo. Descoberto no meio da viagem, recebeu voz de prisão, mas conseguiu fugir ao chegar no aeroporto Santos Dumont.

O fotógrafo não sabe dizer, aliás, quantas vezes foi detido no Brasil e no exterior. Somente no regime militar, foram nove. “O Adolpho Bloch ajudava a soltar os comunistas, depois contratava. Eu andava com essa turma, mas nunca fui comunista”, diz ele.

É de Gervásio o último registro de Tancredo Neves vivo. O fotógrafo fazia plantão na porta do Hospital de Base, em Brasília, quando foi chamado para subir ao andar onde estava o presidente. Lá, foi informado de que havia sido escolhido para registrar as imagens para a imprensa do Brasil e do mundo.

A última foto de Tancredo Neves: “Ele estava bem”

A última foto de Tancredo Neves: “Ele estava bem” (/)

Há quem diga que, nesse momento, Tancredo já estava em uma situação crítica e tinha um soro preso ao braço, escondido por baixo do sofá. A foto teria sido uma forma de enganar a opinião pública. Gervásio nega: “Ele estava bem para caramba”. E indaga: “Você já viu soro vir de baixo para cima?”.

Despachado para cobrir a Revolução Cubana em 1959, o fotógrafo-curinga da revista Manchete travou um improvável diálogo com Che Guevara: “O que você faz aqui se é argentino?”, indagou Gervásio. “Sou político, estou aqui para defender o governo”, respondeu o revolucionário – que, antes disso, quis saber quem era o autor da pergunta. “Eu sou Gervásio Baptista, mas não tenho nada com o Fulgêncio Batista”, brincou, fazendo menção ao líder cubano derrubado pelos socialistas.

STF – No Supremo Tribunal Federal, Gervásio tem trânsito livre. É fácil vê-lo caminhando pelo plenário em busca de um bom ângulo para registrar os ministros da Corte. A câmera pesada não parece incomodar a figura franzina. O fotógrafo frequenta o cafezinho dos ministros, que o tratam com simpatia. “Você tem que olhar as pessoas como gente, não pelo cargo”, ensina. Apesar da idade avançada, ele diz que aprende diariamente ao conviver com os “catedráticos”: “Para mim, é uma faculdade”, diz. Cauteloso, não opina sobre o processo do mensalão. Gervásio não ficou preso à sua época: usa um moderno equipamento digital e diz que o computador ajudou o progresso da fotografia. Mas faz uma ressalva: “Ele abre precedentes perigosos”. O veterano se refere à manipulação de imagens. E ele cita como exemplo uma montagem que adorna o mural da sala da fotografia no STF: na sala destinada à fotografia, o mural exibe uma montagem do veterano vestido de papa. A imagem é oposta à postura de Gervásio – que, humilde, naõ aceita privilégios e diz que nem pensa em parar: “Se eu não fosse fotógrafo, seria retratista”.