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Meia-volta, volver: o ano em que Bolsonaro recolheu as armas

Em 2020, o presidente foi deixando de lado o papel de extremista de direita e de radical ideológico para se portar como um governante mais moderado

Por Daniel Pereira Atualizado em 24 dez 2020, 08h49 - Publicado em 24 dez 2020, 06h00

Foi o ano da conversão, da mudança de figurino, da substituição do político de retórica beligerante pelo presidente construtor de pontes. Em 2020, Jair Bolsonaro foi deixando de lado gradativamente o papel de extremista de direita e de radical ideológico para se portar como um governante mais moderado, daqueles afeitos a acordos políticos fechados ao sabor das conveniências e, principalmente, das necessidades. Depois de participar de uma manifestação que pedia o fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF) e de ameaçar o próprio STF com uma intervenção militar, Bolsonaro mudou de estratégia e passou a adular ministros da Corte. Com Dias Toffoli, dividiu um fim de tarde de domingo, um jogo de futebol na televisão e uma pizza, além de muitas conversas de coxia. Em um gesto mais contundente de deferência, Bolsonaro também acompanhou o seu primeiro indicado ao tribunal, Kassio Nunes Marques, para um beija-mão a Gilmar Mendes, o magistrado que, meses antes, havia comparado a “genocídio” a atuação do governo no combate à pandemia do novo coronavírus.

A promessa de não negociar com os partidos e de enterrar a “velha política” também acabou engavetada. Antes descrito como a quintessência do fisiologismo e o inimigo parlamentar a ser batido, o Centrão se tornou aliado preferencial e base governista no Congresso. Eleito com a promessa de combater a corrupção, o presidente se associou a legendas como o Progressistas, recordista de políticos investigados na Lava-Jato, o PL, protagonista do mensalão, e o PTB, do notório Roberto Jefferson. Essa decisão não agradou à ala mais ideológica do bolsonarismo, cada vez mais escanteada com o passar do tempo. A rendição à moderação, mesmo que temporária, foi forçada por uma sucessão de fatos. Ministros do STF fizeram chegar a Bolsonaro o recado de que seus filhos Carlos, o Zero Dois, e Eduardo, o Zero Três, poderiam ser presos no âmbito de inquéritos em curso no STF. Magistrados e políticos também lembraram Bolsonaro de que, se continuasse a esticar a corda, ele poderia ser até destituído. Há processos de cassação de sua chapa em tramitação na Justiça Eleitoral. Há dezenas de pedidos de impeachment à espera de análise na Câmara. E sempre haverá Fabrício Queiroz. Em 2020, o ex-capitão se viu obrigado a recolher as armas. Vamos ver se vai continuar assim.

Publicado em VEJA de 30 de dezembro de 2020, edição nº 2719

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