Clique e Assine a partir de R$ 7,90/mês

Media training e ordem para evitar ‘conje’: o ensaio de Moro

Pré-candidato ao Planalto, o ex-juiz da Lava-Jato recebeu nota quatro de sua equipe de marketing

Por Laryssa Borges 14 nov 2021, 10h48

Treinado para se apresentar como um político com projetos para além da pauta anticorrupção que lhe deu notoriedade, Sergio Moro tem sido submetido a um intenso media training para perder a sisudez, mas ainda está longe do ideal. A avaliação é de seus conselheiros dentro do partido de centro-direita Podemos, ao qual se filiou na quarta-feira, 10. Em uma escala de zero a dez, recebeu até agora a nota quatro da equipe que cuida de sua imagem.

Às vésperas do evento que marcou sua entrada na corrida presidencial, Moro passou quatro horas treinando postura e afiando o discurso. Gravou vídeos na Praça dos Três Poderes com o Palácio do Planalto ao fundo e, em outras tomadas, caminhando rumo ao local de trabalho do presidente da República. A mensagem subliminar não poderia ser mais clara: a marcha em direção ao Planalto partia do Supremo Tribunal Federal (STF), corte para onde o ex-juiz gostaria de ter sido indicado por Jair Bolsonaro e que, segundo o presidente declarou em depoimento à Polícia Federal, teria sido a moeda de troca apresentada por Moro quando o chefe do Executivo decidiu mudar a cúpula da PF.

Nas reuniões para a montagem dos temas de seu primeiro discurso como pré-candidato, Sergio Moro disse que o slogan da pré-campanha tinha de ter a expressão “ser justo” e, ao vê-la endossada de pronto pelo marqueteiro Fernando Vieira, tentou descontrair: “se tudo der errado vou ser marqueteiro”. Brincadeiras à parte, a equipe de Moro explicou a ele que não deve apresentá-lo ao público como um personagem que destoe completamente do estilo do ex-juiz e citou a campanha à reeleição da ex-presidente Dilma Rousseff como caso a ser evitado. Para os moristas, a petista foi moldada como um exemplo de gestão pela equipe do marqueteiro João Santana e apresentou um governo desastroso. Moro ouviu as explicações e tomou nota.

Um dos seus deveres de casa passados pela equipe de marketing era minimizar o risco de erros de dicção ao discursar no ato de filiação e tentar não suprimir sílabas das palavras, como ocorreu quando em um programa de televisão não conseguiu pronunciar adequadamente a palavra ‘cônjuge’ e virou motivo de chacota com sua versão: ‘conje’. Neste quesito, Moro passou raspando – e tropeçou em algumas expressões ao longo do discurso de filiação.

Superada a fase de treinamento, no evento montado na última semana para oficializar a entrada do ex-juiz da Lava-Jato na seara eleitoral, foi eloquente a demonstração de revanche da classe política às pretensões do ex-magistrado. Convidados a ladearem o novo presidenciável em seu ato de filiação, governadores e presidentes de legendas que, em tese, poderiam marchar juntos em um projeto de terceira via simplesmente não compareceram, e a primeira reunião política de Moro após o anúncio da pré-candidatura limitou-se a um encontro com prefeitos filiados ao Podemos em um hotel de Brasília. Um sinal de que no dia a dia da campanha as dificuldades mais prementes não poderão ser resolvidas com media training.

Continua após a publicidade

Publicidade