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Márcio França: ‘Não somos submissos ao PT’

Secretário de Geraldo Alckmin e presidente do PSB em São Paulo, ele trabalha para que o comandante nacional da legenda, Eduardo Campos, resista à pressão de Lula em prol da candidatura de Fernando Haddad

Por Thais Arbex 16 mar 2012, 07h46

“Eduardo Campos é o Neymar do nosso time. A gente sempre poupa para que ele tenha a oportunidade de marcar os gols necessários”

Companheiros, sim. Submissos, não. É essa postura que a direção paulista do PSB espera que o governador Eduardo Campos tenha com o PT nos próximos dias, quando conversará pessoalmente com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a respeito de um possível apoio de seu partido à candidatura de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo. O encontro foi um pedido de Lula, que receberá Campos com a certeza de que ele dificilmente negará seu apelo pessoal. Campos foi ministro no primeiro mandato de Lula e considera o petista seu fiel aliado e padrinho político. Os petistas apostam também que as aspirações nacionais do governador pesarão na decisão. Mas não é bem assim. Se depender de Márcio França, presidente do PSB de São Paulo e secretário de Turismo do governo Alckmin, os socialistas resistirão à pressão do PT. “O PT deveria evoluir para a lógica de que, quando se governa em coalizão, tem que se estar preparado para ser a cabeça ou não. Esse é o grande segredo”, afirmou ao site de VEJA. De seu escritório político em São Vicente, litoral sul de São Paulo, França tem trabalhado para que o PSB deixe de lado o papel de coadjuvante. “O Lula, como um bom político, sabe que assim como seu sonho de ter o PT forte e chegar à Presidência da República, nós também temos um sonho de ter candidatos nossos e um dia chegar à Presidência da República”. Ele lembra que, se dependesse da vontade de Lula, Eduardo – como chama o governador – não teria saído de Brasília para disputar as eleições de 2006. “Recordo bem que o PT dizia que em Pernambuco o Eduardo não deveria disputar. Que era bobagem. Passado um tempo, o Eduardo ganhou a eleição e tem hoje o apoio do PT. Mas ele precisou mostrar que nós somos companheiros, mas nós não somos submissos”. Eduardo Campos entrou na disputa para o governo de Pernambuco em terceiro lugar nas pesquisas, bem atrás do governador Mendonça Filho, então do extinto PFL e do ex-ministro da Saúde Humberto Costa (PT). França admite, porém, que as relações que Campos e o PSB têm com o presidente Lula pesam na disputa em São Paulo. “Se não houvesse esse respeito ao presidente Lula, o natural seria estar com o PSDB”. Um acordo PSB-PSDB já havia sido acertado. Em janeiro, o governador Geraldo Alckmin havia pedido a França uma lista dos municípios paulistas nos quais o PSB lançará candidato para que ele articulasse o apoio dos tucanos. O acerto envolve pelo menos doze importantes cidades do estado. A articulação, que teve o aval do governador pernambucano, estava ligada à coligação na capital paulista. Mas as negociações não levavam em conta a entrada do ex-governador José Serra na disputa. Tranquilo e seguro de si e de sua influência em São Paulo, Márcio França diz que confia na intuição política do comandante de seu time. “Ele é como se fosse o Neymar do nosso time. A gente sempre poupa para que ele tenha a oportunidade de marcar os gols necessários. E a nossa decisão certamente não será diferente daquela que ele queira. Mas eu confio tanto na intuição política dele.” Leia abaixo os principais trechos da entrevista concedida por Márcio França ao site de VEJA: Afinal, o PSB vai se aliar ao PSDB ou ao PT em São Paulo? O PSB vai com o PSB. Vamos olhar o que é melhor para São Paulo e para o Brasil sob a ótica do PSB. Isso quer dizer que não temos a obrigatoriedade de fazer um movimento para um lado ou para o outro. Sempre defendemos que esse antagonismo paulista dos dois principais partidos do Brasil não contribui para o país. Estamos no governo de Alckmin e a ele devo lealdade, especialmente pelos movimentos positivos que tem feito em São Paulo. Algo que o PT não fez. Mas compreendemos que, com eleição muito nacionalizada, ficaria mais difícil o movimento [de se aliar ao PSDB na capital paulista]. Serra é um homem nacional, ele não é um homem apenas de São Paulo, embora seja um palmeirense da Mooca. A presença dele faz da eleição na capital uma eleição mais nacionalizada. Eduardo Campos pediu mais um mês para tomar a decisão. Como o partido atuará nesse período? Vamos ouvir o diretório municipal, depois remeter ao estadual. E, como disciplina nosso estatuto, colocar na discussão nacional porque isso também afeta a posição nacional do partido. Também estudamos a possibilidade de uma alternativa às duas principais candidaturas. Sempre que esse assunto vem à tona lembra-se do nome de Luiza Erundina, que, como ex-prefeita, tem uma margem de popularidade alta na cidade. Isso sem falar nos aliados que formaram conosco o bloquinho na Câmara dos Deputados – PCdoB e o PDT – , além do PPS e PV. Esses cinco partidos têm um tempo de TV maior que os grandes partidos. O acordo PSB-PSDB em São Paulo envolveu a retirada da candidatura de Carlos Sampaio a prefeito de Campinas em troca da indicação do vice do candidato de vocês, Jonas Donizetti. A entrada de José Serra pôs fim a essa aliança? Não, pelo contrário. Por entrar na condição de favorito e por ser um nome que disputou a Presidência contra Dilma, Serra dificultou por ser um nome nacional, mas não inviabilizou a aliança. Isso havia sido dito ao Alckmin quando tratamos da eleição municipal em São Paulo. O PSDB não tirou uma candidatura em Campinas, essa situação foi moldada por uma circunstância local. O deputado Jonas Dozinetti é o principal candidato e os que estavam mais próximos dele, do PSDB, tinham dúvidas se saíam ou não. Então se juntou o útil ao agradável. Tudo com o aval e apoio do governador Geraldo Alckmin. A ele foi dada essa responsabilidade. A candidatura do Serra não estava prevista quando essas alianças no estado foram negociadas. A entrada do Serra na disputa seria uma exceção. E isso foi dito naquela conversa. Só que na época ninguém imaginava que ele entraria na disputa. Nem o próprio Serra. E não foi um truque, foram as circunstâncias. Tanto que nosso principal interlocutor em São Paulo, o prefeito Gilberto Kassab, também não imaginou que o Serra fosse candidato e pensou em nomes alternativos. É uma nova circunstância e, em função disso, teremos também que repensar as nossas circunstâncias. A partir de agora só está entrando no tabuleiro quem de verdade estará no jogo. A presença do Serra indica isso. Mas a relação de Eduardo Campos com Lula pode interferir na decisão a favor da aliança com o PT em São Paulo? Interfere pelo respeito que temos por ele. E não só o Eduardo. Eu fui do conselho político do Lula. Se não fosse ele, nós já teríamos feito a opção. Mas o Lula, como bom político, sabe que assim como seu sonho de ter o PT forte e chegar à Presidência, nós também temos um sonho de ter candidatos nossos e um dia chegar à Presidência. Faremos tudo para tentar ajudá-los, mas desde que não nos prejudique. Em São Paulo, em função de estarmos no governo do PSDB, de termos reciprocidade em várias cidades, o natural seria estarmos com o PSDB. Se não houvesse esse respeito ao presidente Lula, o natural seria estar com eles. O que se diz é que, para ter o apoio do PSB, PSDB e PT ofereceram cargos. Esse é um grande erro de avaliação. A lógica do PSB não é uma lógica de cargos. A gente faz por política. A grande oferta que gostaríamos de receber é uma oferta política. Ou seja, do que será melhor para nós nacionalmente. Nós apoiamos o prefeito Kassab desde o início de sua gestão e nunca tivemos secretaria alguma. O PMDB está no governo, o PV está no governo e até o PSC está no governo do Kassab. Eles têm suas posições. No nosso caso, não há a necessidade de cargo algum. O PT diz que a decisão em São Paulo está ligada a outras cidades, como Belo Horizonte. Parte do PT tem um traquejo meio “casa grande e senzala”, onde o dono manda e os outros obedecem. A política não é força, é jeito. Se for com jeito, tudo acontece. Se for sem jeito, é crise atrás de crise porque cada um de nós tem mandato. Eu, a rigor, fui eleito pelo povo. Eduardo e Márcio Lacerda, também foram eleitos. O PT tem que ter a lógica de que, quando se governa em coalizão, tem que se estar preparado para ser a cabeça ou não. Esse é o grande segredo. Se as pessoas sentirem que só podem ser coadjuvantes e nunca podem ser protagonistas, então tudo bem. Cada um vai produzir seu filme. É esse o erro. O PT dizia que em Pernambuco o Eduardo não deveria disputar, que era bobagem. Ele ganhou e tem hoje o apoio do PT, mas precisou mostrar que nós somos companheiros, mas não somos submissos. Se Eduardo Campos pedir para o senhor apoiar o PT, o senhor apoiará? Vou fazer de tudo para que ele não peça porque mantemos uma relação fraterna e estamos juntos há muitos anos. Ele é o Neymar do nosso time. A gente sempre poupa para que ele tenha a oportunidade de marcar os gols necessários. Evidentemente, ele tem uma noção muito forte nacionalmente, mas o quadro em São Paulo, os vereadores da capital, os deputados de São Paulo, todo o diretório, todos os milhares e milhares de eleitores e filiados que nós temos têm uma excelente condição de decidir. E a nossa decisão certamente não será diferente daquela que ele queira. Mas eu confio na intuição política dele. O quadro nacional não pesará nessa decisão? Não acho boa a tese de termos a tentativa de uma coisa uníssona no país inteiro. São Paulo é uma força importante para balancear o quadro nacional. É um estado que por si só tem um peso diferente. Acho mesmo que, com todos os méritos que tem o presidente Lula, ele é um cidadão como outro qualquer. Acaba às vezes errando em algumas oportunidades. O fato de o Lula ser um craque não o torna infalível.

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