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Marcelo Odebrecht diz que só fala quando tiver acesso aos autos da Acarajé

Empresário foi transferido para a sede da PF para explicar os supostos pagamentos a João Santana em contas secretas no exterior

Por Da Redação - 24 fev 2016, 11h16

O empresário Marcelo Odebrecht ficou em silêncio nesta terça-feira na carceragem da Polícia Federal em Curitiba. Ele foi transferido do Complexo Médico Penal, em Pinhais, na Grande Curitiba, para prestar depoimento sobre os supostos pagamentos ilícitos em favor do marqueteiro do PT João Santana, que foram detectados na 23ª fase da Operação Lava Jato, batizada de Acarajé. Marcelo afirmou que quer ter acesso aos autos do processo para poder responder às perguntas da força-tarefa. A prisão de Odebrecht, que já está detido desde junho do ano passado, chegou a ser pedida na Acarajé pela procuradoria, mas o juiz Sergio Moro indeferiu a solicitação.

Os investigadores encontraram no celular do empresário anotações em siglas e apelidos que podem indicar os repasses de recursos de “origem espúria” no exterior. Um desses registros é a palavra “Vaca” e outro é “Feira”, que aparecem ao lado de números. Para a PF, “Vaca” seria o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto e “Feira”, o baiano João Santana – em referência à cidade Feira de Santana (BA). A prisão do Marcelo Ode

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Os investigadores queriam perguntar a Odebrecht qual o significado da frase encontrada em seus arquivos: “dizer do risco cta suíça campanha dela”. “É compreensível que Marcelo Odebrecht não queira depor sobre algo que não tem conhecimento”, disse o criminalista Nabor Bulhões, advogado do empresário. “Basta ler a Súmula Vinculante 14 do Supremo Tribunal Federal. O investigado tem o direito de conhecer o teor do inquérito. Marcelo Odebrecht não invocou o direito ao silêncio, nem vai invocar. Mas precisa ter acesso aos autos da investigação para sobre ela se manifestar”, completou.

Nabor Bulhões disse que requereu nesta terça-feira cópia dos autos da Acarajé. “O que ocorreu é que ele [Marcelo Odebrecht] foi conduzido para a Polícia Federal para ser ouvido sobre dados e elementos da operação [Acarajé] aos quais ele ainda não teve acesso. Pedimos acesso aos autos com designação de nova data para que aí sim possa responder, como sempre fez, a todos os questionamentos dos investigadores”, destacou Bulhões. O advogado observou que não tem conhecimento do conteúdo da Acarajé, exceto por “informações esparsas noticiadas pela imprensa”.

Mas um detalhe ele já rebate enfaticamente – a informação de que Marcelo Odebrecht orquestrou a saída do país de dois executivos ligados à empreiteira, entre eles Fernando Miggliacio, preso na Suíça no dia 17 de fevereiro, quando tentava fechar contas bancárias. “O que eu posso dizer com absoluta convicção é que Marcelo Odebrecht não tem nada a ver com movimentação ou com transferência de funcionários [da empreiteira] para o exterior. Isso daí é uma mera especulação. A decisão [do juiz federal Sérgio Moro] fala em Odebrecht sob o comando do Marcelo, mas não imputa a ele nenhum ato específico referente à transferência de funcionários.”

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O criminalista disse que realizou um levantamento sobre o período em que Odebrecht esteve à frente da Construtora do grupo. “A mobilidade de servidores num grupo empresarial como a Odebrecht é uma questão corriqueira no grupo que está presente em 28 países. Muitos funcionários que hoje trabalham no Brasil amanhã poderão ser transferidos para o exterior. Marcelo Odebrecht não tem absolutamente nada a ver com a ida [de funcionários] para os Estados Unidos. Eles não integraram a Construtora Norberto Odebrecht na época em que o Marcelo por lá passou. Quando eles foram transferidos o Marcelo não estava mais na Construtora.”

Dias antes de a Operação Acarajé ser deflagrada, Moro negou uma série de requerimentos apresentados pela defesa de Marcelo Odebrecht. Os requerimentos contestavam a utilização como provas, pelo Ministério Público Federal (MPF), de mensagens interceptadas do aplicativo de mensagens BlackBerry Messenger (BBM) e relatórios sobre material de informática apreendido com os executivos e na sede da empreiteira. Os defensores também protestavam contra o uso da delação premiada de Walmir Pinheiro, diretor financeiro da UTC, e pediam depoimentos de cinco testemunhas canadenses, entre as quais o ministro da Justiça do Canadá.

(Com Estadão Conteúdo)

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