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Marcelo Gebara: “Não é bem-vindo”

Cientista conta por que ele e seus colegas do Museu Americano de História Natural, em Nova York, protestaram — com sucesso — contra a homenagem a Bolsonaro

Por João Batista Jr. 19 abr 2019, 07h00

Por que o senhor e seus colegas reagiram à homenagem ao presidente brasileiro que aconteceria em maio no museu? Bolsonaro vai contra a missão da entidade, que é preservar a natureza e a diversidade. Daí a notícia do evento ter causado desconforto entre alunos, professores e funcionários. Exemplos nesse sentido são vários: ele cortou verbas do Ministério da Ciência, demonstrou ser contra as reservas indígenas, critica com frequência o Ibama, nega a existência do aquecimento global e demoniza educadores e cientistas. Ao acatar uma bobagem como o suposto “marxismo cultural”, ele conspira contra educadores que estão em sala de aula. Até o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, se manifestou contra a vinda de Bolsonaro.

Se o evento estava agendado fazia tempo, por que o museu voltou atrás só agora? Em todo o mundo, é comum museus alugarem espaços para arrecadar fundos. O jantar de gala em prol de Bolsonaro era um evento privado, que foi marcado antes de ele ter sido escolhido como Personalidade do Ano de 2019 pela Câmara de Comércio Brasil-­Estados Unidos. O museu não tinha nada a ver com essa escolha.

O evento foi programado no museu em um esforço para buscar recursos? Sim. Para evitar problemas desse tipo, uma alternativa seria os museus viverem de dinheiro público, vindo de impostos, e da venda de ingressos. Mas, só com essas fontes de verba, eles poderiam não dar conta de tantas atividades e pesquisas. No Brasil, a discussão vai além, pois o governo não tem apoiado nem mesmo quem quer estudar.

Como assim? O Brasil demonstrava protagonismo na concessão de bolsas de estudos, mas isso agora foi para o ralo. Hoje, só alunos com condição financeira saem do país. Eu fiz três concursos no Brasil, e não passei em nenhum. Então, fui aceito para fazer doutorado na Alemanha e, depois, convidado a realizar meu pós-doutorado nos Estados Unidos, onde devo ficar para ser professor universitário — tudo por minha conta. Não investir em educação é desperdiçar mão de obra qualificada. Depois de completar seus estudos, o aluno devolve o que aprendeu ao país.

Qual é sua área de pesquisa? Eu me formei em biologia em Juiz de Fora, onde nasci, e agora estudo a genética de anfíbios e répteis — e a razão de áreas como a Mata Atlântica terem maior concentração desses animais. O Brasil é rico em biodiversidade, só falta investir em pesquisa.

Publicado em VEJA de 24 de abril de 2019, edição nº 2631

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