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Maia: a maioria do DEM prefere hoje Luciano Huck a João Doria

Em entrevista a VEJA, presidente da Câmara diz que candidatura do apresentador tem de ser definida até abril

Por Daniel Pereira, Marcela Mattos 8 nov 2020, 11h54

Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia é um dos articuladores da construção de uma candidatura de centro para 2022. Desde o restabelecimento da democracia, seu partido, o DEM, sempre atuou como satélite do PSDB nas eleições presidenciais. Uma nova parceria com os tucanos não está descartada, mas, segundo Maia, a maioria de seus colegas de partido prefere hoje embarcar numa chapa encabeçada pelo apresentador de TV e empresário Luciano Huck, que ainda não decidiu se participará do páreo.

Em entrevista a VEJA, o deputado defendeu a tese de que a viabilidade de uma candidatura de centro dependerá de como o governo Bolsonaro enfrentará os problemas econômicos. Seu raciocínio pode ser resumido da seguinte forma: se o presidente optar pelo caminho “heterodoxo”, do desrespeito ao teto de gastos, dará força a seus adversários. “A minha avaliação é que o governo vai ficar numa situação muito ruim nos últimos dois anos se achar que a travessia mais fácil é pegar um atalho”. A seguir, os principais trechos:

O auxílio emergencial está perto de acabar, o desemprego subiu e atinge 14 milhões de pessoas, a inflação dos alimentos acelera. O governo está trabalhando para resolver esses problemas? 
Acho que está desorganizado demais. As pessoas não têm a noção do tamanho do problema. O ministro Paulo Guedes está tentando organizar, mas, como ele se enfraqueceu em relação ao resto do governo, perdeu uma capacidade que tinha de colocar rumo no processo. A coisa está desorganizada e atrasada. Não sei quem está fazendo cálculo para o governo sobre como resolver, principalmente cálculo sobre o impacto de eventuais decisões heterodoxas. A impressão que me dá é que uma parte do governo vai empurrando com a barriga para transformar em inevitável a prorrogação do auxílio. O plano deles é: não dá mais tempo, prorroga o auxílio por três meses e vê o que acontece.

E fura o teto de gastos?
Não tem jeito, né? Se prorrogar por três meses, a 300 reais, fura o teto. Não tem como não furar. Não tem como arrumar 75 bilhões de corte no orçamento (para custear a medida).

Qual seria a consequência dessa saída que o senhor chamou de heterodoxa?
Vão aumentar o desemprego, a inflação e a taxa de juros. Haverá redução da renda. O brasileiro sentirá os reflexos no dia a dia. Tem um grupo de pessoas que não se deu conta de que ainda vai demitir mais, não apenas pela crise, mas pela mudança na forma de atuação. Muitas empresas não precisarão mais de um número de funcionários, de prédios. Há muita coisa por vir, e a expectativa não é positiva. A coisa está muito desorganizada, e todo mundo com medo de tratar dos temas que precisam ser tratados.

O senhor pode citar um exemplo?
Ninguém quer tratar da PEC emergencial (que cria uma série de gatilhos para evitar o desrespeito ao teto de gastos). Um dia, um ministro veio aqui e disse: ‘Vamos cortar dos mais ricos para dar para os mais pobres’. No orçamento não tem rico. Então, não tem como tirar do rico e dar para o pobre. O que tem de rico é subsídio tributário, imposto de renda. E essa receita não resolve o orçamento.

Como presidente da Câmara, o senhor não pode ajudar a resolver esses problemas?
Eu tenho o meu limite, porque não sou da base do governo. Meu partido não está na base e, mesmo tendo votado tudo até agora, eles não me consideram um aliado para resolver os problemas. Agora, faço o que posso. Escrevi um artigo sobre o teto em setembro, avisei a muitos empresários que ia acontecer o que está acontecendo. Os empresários estão preocupados. Ouvi gente da economia real dizendo que 20%, 30%, dos empregos que vão acabar. O desemprego vai aumentar. E já vi também fundo de investimento grande preocupado. Eu falei para grandes empresas que têm influência no palácio que deveriam alertar o governo sobre a situação, porque o que chega ao Planalto é muito pouco da crise e do pessimismo.

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O senhor acha que o presidente Bolsonaro já fez a opção pela saída heterodoxa?
Acho que ainda não. Ele só tem medo do caminho mais correto, que é o mais trabalhoso. No fundo, o presidente está vendo que o auxílio dá popularidade, mas que não adianta dar mais 50 reais para um cara que consome bens, alimentos, se a inflação vai levar isso dele. Acho que o presidente tem medo da travessia, do custo político, de seguir o caminho correto (de respeito ao teto de gastos). É melhor ter um custo político de dois ou três meses do que ter um custo de desorganização dos próximos dois anos. A minha avaliação é que o governo vai ficar numa situação muito ruim nos últimos dois anos se achar que a travessia mais fácil é pegar um atalho.

O seu armistício com o Paulo Guedes tem a ver com isso?
Na minha decisão é só isso. A situação está muito ruim, não adianta ficar brigando. Até porque, de fato, em grande parte das coisas a gente tem convergência de qual é o caminho. Tirando a criação da CPMF (defendida pelo ministro e rechaçada pelo deputado), o resto é muito parecido. É melhor aproveitar os últimos meses na presidência da Câmara para ajudar, pelo menos alertar, para depois não ser responsabilizado.

Essa desorganização na economia não pode beneficiar uma candidatura de centro?
Acho que os próximos seis meses do governo Bolsonaro vão ser decisivos para olhar o futuro. Tem que esperar para ver como ele vai se portar de novembro até março. Depois desse período, saberemos qual caminho ele vai seguir. Dependendo da escolha feita pelo presidente, haverá mais ou menos espaço para uma candidatura de centro. Se ele seguir o caminho normal, o espaço para a candidatura de centro ficará mais encurtado. É preciso esperar. Ninguém tem que fazer movimento político agora.

O DEM lidera em capitais como o Rio e Salvador. As eleições municipais trazem um bom sinal para o centro em relação a 2022?
Eu não sei se eleição municipal tem esse impacto todo. O Bolsonaro não tinha um prefeito (quando foi eleito presidente). Mas uma coisa está se provando: o auxílio impactou o Bolsonaro nas cidades médias e pequenas, mas não nas grandes não. Bolsonaro, nas capitais, não está bem. A capacidade dele nos grandes centros é pequena.

Então, a questão econômica será decisiva para 2022?
O impacto para ele de uma decisão certa ou errada é vital. Vai depender muito do que o governo vai fazer e do que o governo vai ter força para fazer no Parlamento. Ainda faltam dois anos para o governo. A Dilma fez (opção pelo gasto), de 2013 para 2014, e ganhou a eleição, mas afundou em 2015 e 2016. Está todo mundo na expectativa dessa pauta econômica. Jantei com um grande empresário, que é sempre otimista, e ele está na mesma tese: tem que esperar para onde o governo vai para ver o que vai acontecer.

É difícil acreditar que ninguém esteja trabalhando por uma candidatura de centro.
Tem nomes que querem. O Doria quer, o Luciano Huck quer. O que eu estou dizendo é que ninguém vai fazer um grande movimento enquanto não entender qual vai ser o caminho do governo nos próximos dois anos. Conversa tem, mas nada vai acontecer até março do ano que vem. O Luciano só vai fazer um movimento mais claro quando olhar o que vai acontecer com o governo nos próximos seis meses. Hoje, o DEM majoritariamente prefere o Luciano ao Doria.

Se o governo superar os desafios econômicos seguindo a cartilha que o senhor considera correta, haverá desistência de uma candidatura de centro?
Não, mas o Luciano, que é pré-candidato, pode deixar de ser candidato. Fica sobrando o Doria. O movimento dos outros depende muito da força do governo. O Luciano só vai decidir se ele entender quais são as chances dele. Se ele estiver com 4% e Bolsonaro com 40%, capaz de continuar na televisão.

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