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Tolices internacionais

Declaração do presidente francês alimenta teorias da conspiração em relação à Amazônia que envolvem ONGs, militares e países ricos

A primeira crise internacional do atual governo começou com uma acusação sem provas. O presidente Jair Bolsonaro disse que ONGs estrangeiras estariam por trás do aumento dos incêndios na Amazônia. Depois, o presidente francês Emmanuel Macron aventou a hipótese de se discutir algum dia a internacionalização da Amazônia. Em meio a uma infinidade de tolices, essa última serviu para desviar as atenções. A discussão deixou de ter como foco principal a devastação da maior floresta do mundo para se concentrar numa improvável conspiração das grandes potências para dominar a região — uma paranoia que mobiliza os serviços de inteligência do país há mais de meio século e que atravessa governos. Na ditadura, os militares não tinham dúvida de que certas ações voltadas para a proteção de índios e para a preservação das árvores serviriam de disfarce para esconder interesses coloniais estrangeiros. A suspeita continuou frequentando o imaginário das administrações petistas e, agora, é vista como uma ameaça real pelo governo Bolsonaro.

Ao acusar as ONGs, o presidente reproduz teorias formuladas pelo serviço de inteligência do governo. Em maio, Bolsonaro recebeu um informe da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que acompanhou uma reunião entre o cacique Raoni e Emmanuel Macron. Os analistas da agência advertiram que estava em curso uma campanha para tisnar a imagem do presidente no exterior. A prova disso era que o governo francês estaria mantendo contatos não só com Raoni, reconhecido como uma liderança indígena mundial, mas também com representantes de ONGs contrárias à política ambiental de Bolsonaro. Na época, o chanceler francês Jean-Yves Le Drian havia solicitado uma audiência com o presidente. Na hora da reunião, porém, Bolsonaro gravou um vídeo num salão improvisado. “Fiquei sabendo que ele (o chanceler) tinha marcado com o Mourão, tinha marcado com ONGs. Quem é que ferra o Brasil? ONGs”, disse ele. Cortar o cabelo foi uma deselegante forma de retaliação.

VEJA teve acesso a um conjunto de documentos confidenciais do serviço de inteligência que mostram o nível de preocupação do governo brasileiro com as ONGs estrangeiras. Um dos alvos preferenciais dos espiões é a Rainforest Foundation, fundada pelo cantor britânico Sting, que, durante anos, viajou pelo mundo ao lado do cacique Raoni. Num relatório produzido em 2005, durante a gestão do ex-presidente Lula, a Abin chamava atenção para a “falta de transparência” dos projetos que a organização desenvolvia no Brasil, o que colocava “sob suspeita o seu real objetivo”. A própria Abin, no entanto, esclareceu quais seriam essas suspeitas: “Essa ONG estaria angariando dinheiro com discurso ambientalista”. Na terça-feira 27, já com as notícias sobre o aumento das queimadas rodando o mundo, o cantor Sting publicou uma nota em que criticava Bolsonaro e pregava que o presidente tem de “mudar sua retórica incendiária antes que seja tarde demais”.

CONFIDENCIAL – Documentos da Abin revelam a preocupação do governo brasileiro com “ONGs ambientalistas” como a Rainforest Foundation, do cantor Sting, e com a movimentação de índios como o cacique Raoni

CONFIDENCIAL – Documentos da Abin revelam a preocupação do governo brasileiro com “ONGs ambientalistas” como a Rainforest Foundation, do cantor Sting, e com a movimentação de índios como o cacique Raoni (Vatican Media/AFP)

Entre 2011 e 2015, durante o governo Dilma, os agentes montaram grandes operações de inteligência nos municípios e áreas indígenas localizados nas proximidades de hidrelétricas que seriam construídas na Amazônia. Vários relatórios destacam o fato de que organizações como Greenpeace, International Rivers, Amazon Watch e WWF estariam na origem de protestos contra a realização das obras. Em um dos documentos, os agentes ressaltam que essas “ONGs ambientalistas” “lutam prioritariamente” para impedir a implantação de projetos de infraestrutura na Amazônia e usariam os índios para esse fim. “A intensificação das críticas às condições dos povos indígenas brasileiros tende a desgastar a imagem do Brasil perante a comunidade internacional”, salienta um dos documentos.

Diante da repercussão mundial sobre o volume das queimadas, Bolsonaro se reuniu com os governadores da região amazônica. Pouco falou sobre o que efetivamente interessa, mas repetiu que os índios são usados como massa de manobra e que a proteção do meio ambiente serve como álibi de ONGs. Em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, o vice-­presidente, general Hamilton Mourão, chamou atenção para a “velha ambição disfarçada por filantropia” e criticou a “campanha internacional” movida contra a “soberania brasileira sobre a parte da região amazônica”. O ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, que comanda a Abin, postou numa rede social uma foto dele, fardado, dos tempos em que serviu no Comando Militar da Amazônia e escreveu: “A Amazônia Brasileira é um patrimônio do nosso povo, que saberá protegê-la das ameaças dos que prejudicam a floresta com ações ilegais e reagirá àqueles que pretendem violar nossa soberania”. O verdadeiro problema — as queimadas — ficou em segundo plano.

Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2019, edição nº 2650