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Lula tenta ampliar alianças para além da esquerda em nova fase da campanha

Petista avança com estratégia por acordos nos palanques estaduais — e setores do partido voltam a sonhar com uma vitória em primeiro turno

Por Diogo Magri, João Pedroso de Campos Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 4 jun 2024, 11h39 - Publicado em 18 jun 2022, 08h00

Com o apoio garantido de seis partidos de esquerda, um fato inédito desde a redemocratização do país, a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Palácio do Planalto vive agora uma segunda fase, que está sendo tocada a todo o vapor: tentar ampliar o alcance e a capilaridade da aliança para aumentar a distância que separa o petista de seu principal rival, o presidente Jair Bolsonaro (PL). Em meio a dificuldades para expandir formalmente a coalizão para o centro (apenas o Solidariedade está na coligação), a estratégia tem sido a de comer pelas bordas, mirando acordos estaduais com partidos importantes como o PSD, que desistiu de ter candidato à Presidência, o MDB e o PDT — nesses dois últimos, aproveitando-se da estagnação nas pesquisas dos candidatos Simone Tebet e Ciro Gomes, respectivamente. No plano nacional, há ainda diálogos iniciais com partidos menores, como Avante e Pros, cujos candidatos à Presidência somam entre 1% e 2% nas pesquisas, pontos valiosos em um cenário no qual algumas sondagens indicam a chance de o petista vencer a eleição já no primeiro turno, ainda que por pouco e na fronteira da margem de erro.

Dentro de sua estratégia para consolidar o atual favoritismo, Lula vem fazendo acenos aparentemente desconexos. Ao público interno, as declarações feitas até aqui e o esboço do programa do PT divulgado na semana passada fazem acenos à esquerda, em pontos como a revisão das privatizações e da reforma trabalhista, de forma a não desmobilizar a tropa mais fiel. Já nos bastidores, o plano é de busca pelo centro nas conversas políticas, o que pode garantir mais palanques e dar sustentação ao discurso do Lula-conciliador e sem rancores. “Temos feito um esforço monumental nos estados para unificar com PSD e MDB”, diz o deputado José Guimarães (PT-CE), coordenador dos palanques regionais da campanha.

CORTEJADO - Janones: o deputado é dono de pontos preciosos em pesquisas -
CORTEJADO - Janones: o deputado é dono de pontos preciosos em pesquisas – (Gabriela Biló/.)

Alguns passos importantes já vêm sendo dados. Com o PSD liberando seus candidatos a firmar acordos regionais, o ex-presidente selou aliança com o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PSD) para o governo de Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, onde os dois se encontraram na quarta 15. No Rio de Janeiro, terceiro maior estado em votos, o petista deve se reunir em breve com o prefeito Eduardo Paes (PSD). Na Bahia, quarto maior reduto de votantes, a aliança tem o PT para o governo (Jerônimo Rodrigues), o MDB como vice (Geraldo Jr.) e o PSD ao Senado (Otto Alencar). Entre os emedebistas nordestinos, também há acordos com o PT em Alagoas, Rio Grande do Norte e Paraíba. No Ceará e no Piauí, os caciques emedebistas Eunício Oliveira e Marcelo Castro são velhos aliados de Lula. “Tebet ainda não tem uma candidatura competitiva, o que enfraquece palanques locais”, diz o senador Renan Calheiros (AL), um dos maiores entusiastas do petista no MDB.

Sem contar com a desistência de Ciro Gomes, terceiro colocado nas pesquisas, a campanha de Lula também tem se aproximado do PDT pelos estados. Há acordos com os pedetistas no Rio Grande do Norte (para apoiar a reeleição da petista Fátima Bezerra) e um candidato abertamente lulista ao governo do Maranhão (Weverton Rocha). Em paralelo, existe ainda boa chance de o PDT integrar a chapa de Roberto Requião (PT) ao governo do Paraná, indicando como candidato ao Senado o deputado Gustavo Fruet, ex-prefeito de Curitiba. No Ceará, não se sabe até agora se a aliança com os irmãos Ciro e Cid Gomes vai sobreviver aos solavancos. O presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, garante que Ciro não sairá da disputa, mas considera “legítimas” as negociações locais com petistas.

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ATÉ O FIM - Lupi e Ciro: o presidente do PDT garante que ex-ministro não vai abrir mão da quarta candidatura presidencial -
ATÉ O FIM - Lupi e Ciro: o presidente do PDT garante que ex-ministro não vai abrir mão da quarta candidatura presidencial – (Eduardo Matysiak/Futura Press)

A opção de contornar, por meio de alianças estaduais, a falta de apoio formal no plano nacional tem chance de funcionar, uma vez que as campanhas se desenrolam nos estados, onde candidatos a deputado pedem votos em suas bases eleitorais, levando prefeitos e lideranças locais a tiracolo. Dentro de uma lógica de resultados, não é lá muito interessante aos postulantes à Câmara e ao Senado fazer campanha para presidenciáveis com chances consideráveis de derrota. “Nos estados, os candidatos locais se deslocam de acordo com a opinião pública”, diz o cientista político Carlos Melo, do Insper. Nesse sentido, mesmo entre partidos do Centrão que apoiam Bolsonaro, como PP e Republicanos, é difícil que candidatos ao Congresso em regiões como o Nordeste busquem se desvencilhar de Lula — muito pelo contrário.

Outro aspecto a impulsionar a tática petista é o caráter polarizado da disputa presidencial. Uns se agarram a Bolsonaro, apostando no poder da máquina federal e nos repasses de emendas. Já com Lula, o poder de atração se intensifica à medida que as pesquisas apontam até a possibilidade de vitória em primeiro turno. Segundo o Datafolha de maio, o petista tem 54% das intenções de votos válidos. “O favoritismo de Lula motiva outros quadros a estar com ele desde o início, um movimento que começa a preparar uma aliança de sustentação para um eventual governo”, avalia Cláudio Couto, cientista político da FGV. O cenário favorece a pregação pelo voto útil, cujo principal afetado é Ciro Gomes. De acordo com pesquisa Quaest, os eleitores do pedetista são os que mais admitem poder votar em Lula para que ele vença em primeiro turno (38%) e os que mais temem um segundo mandato de Bolsonaro (49%). “Uma eleição quase plebiscitária facilita uma decisão no primeiro turno, há um sentimento nos eleitores nesse sentido”, diz o ex-governador do Piauí Wellington Dias, um dos coordenadores da campanha de Lula. No PT, tirando a ala mais otimista com um possível triunfo precoce, a ordem é evitar o “já ganhou”, uma postura que os líderes da coordenação de Lula consideram perigosa e não endossam. “Na campanha ninguém trabalha com a hipótese de que a eleição não vai ser dura”, diz o deputado Alexandre Padilha (PT-SP), que tem representado Lula em encontros com o PIB nacional.

PÉ NO CHÃO - Gleisi: a ordem é evitar comportamento de quem venceu a parada -
PÉ NO CHÃO - Gleisi: a ordem é evitar comportamento de quem venceu a parada – (Gabriel Paiva/PT)

Além dos movimentos no xadrez estadual, o PT vai buscar diálogo com partidos que têm candidatos a presidente, como o deputado André Janones (Avante), que pontua até 2% dependendo da pesquisa. A presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann, disse no fim de maio que gostaria de conversar com essas siglas, mas de lado a lado a ordem agora é despistar. Luis Tibé, presidente do Avante, admite que teve reuniões com o PT, mas descarta abandonar Janones — segundo ele, as conversas tiveram como objetivo “o debate de ideias”. Marcus Holanda, presidente do Pros, por sua vez, afirma que ainda não houve diálogo e que um apoio ao petista no primeiro turno é pouco provável. “Mas acho importante ouvir todas as propostas para avaliar possíveis composições”, pondera ele, cuja sigla está na mesma chapa do PT no Maranhão, Pernambuco e Rio Grande do Norte.

Depois de abrir a vaga de vice a um ex-rival, o conservador Geraldo Alckmin, e aglutinar o campo da esquerda em torno de si, Lula agora dará passos ao centro com absoluto pragmatismo, tal qual em sua primeira campanha vitoriosa, em 2002. Evocando o discurso de que é o mais capaz de vencer Bolsonaro, o ex-presidente já admitiu dialogar com políticos que apoiaram o impeachment de Dilma Rousseff (PT) e tem feito acenos, com algum sucesso, à velha ­guarda do PSDB. A estrada não é trilhada sem tropeços, a exemplo da recente declaração de Lula segundo a qual o PSDB “acabou”, mas, como estratégia política, mostra-se muito bem elaborada. Ainda mais quando se leva em conta que, no palanque oposto, Bolsonaro se perde com teorias da conspiração amalucadas, como a tentativa de desacreditar o processo eleitoral e as frequentes crises com o Judiciário.

Publicado em VEJA de 22 de junho de 2022, edição nº 2794

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